Rock é Rock Mesmo
20 de abril de 2006
O eterno medo da volta das bandas engraçadinhas
Num verdadeiro espetáculo de bandas ruins, duas deixaram nosso colunista com medo do que pode acontecer se elas forem em frente.

Meus amigos, o medo de perder tira a coragem de vencer. Ao menos é o que dizem os não bobos professores de futebol de beira de campo. Não se deve temer tanto as coisas ao nosso redor, apesar da noção do perigo ser algo louvável. É o que dizem por aí. Mas medo tem-se ou não, não se pode escolher tanto assim na vida.

Os caras do Reação em Cadeia, por exemplo, têm medo. Medo do futuro, medo de ter medo, medo do escuro, medo deles mesmos. Ao menos é o que diz a letra de “Pânico”, uma das músicas – soturna pacas - de “Febre Confessional”, o último disco. Eu também tenho cá meus medos. Não mais de coisas abstratas como na adolescência, nem de outras concretas do mundo real. Até o medo dos cães eu tenho controlado. Atualmente, tenho medo é de bandas.

Explico. Na verdade, sempre fui a favor de bandas. Boas ou ruins, elas têm que existir. Porque, como sempre digo, sem bandas não há rock, não há nada. É tipo o Dadá Maravilha: gol feio não existe; feio é não fazer gol. Mas não me entendam mal, sei muito bem fazer a diferença entre o bom e o ruim. E sei, também, que gosto se discute, sim. Tudo se discute, aliás. Senão os botequins já nem existiriam mais. Este espaço virtual, então, muito menos. Digo que sou a favor das bandas, inclusive as ruins, porque dali pode sair, quem sabe, uma coisa boa. Um integrante que, mais maduro, vai formar outra banda. A própria banda, com o tempo pode melhorar, ou coisas do tipo. São muitas as histórias de gente que fracassou com projetos horríveis e depois se deu bem com outros interessantes. Portanto, nunca se deve “desincentivar” uma banda nova.

Falava de bandas novas porque participei, como jurado, de quatro das seis seletivas que a revista Laboratório Pop organizou para escolher uma banda (depois acabou sendo duas) para tocar no Mada desse ano. Ao todo, vi 28 grupos, alguns até já conhecia por causa do trabalho e tal. Aos outros só fui ser apresentado lá, in loco, com três músicas tocadas ao vivo. E como eram ruins essas bandas, hein? Havia exceções, mas acredito que nem houve uma pré-seleção, porque tinha gente ali sem a mínima noção do que é fazer música, fazer rock, subir num palco. Não quero citar nomes para não ser tão específico assim, mas se o rock do Rio fosse aquilo ali – sei que não é – estaríamos fritos no óleo quente do pastel da esquina.

Disse que não ia citar nome de bandas, mas já recuo e vou falar delas, sim. Até pra voltar ao medo do qual eu falava lá no início. Duas bandas me deixaram com medo. Uma mais que a outra. Imaginem a cena: um cara gordinho, de terno e óculos escuros cantando uma música qualquer, fazendo gestos a cada verso, de modo que a platéia o imita. Lembram da dança do passarinho, do “Viva a Noite”? É mais ou menos assim. Atrás dele, os outros integrantes, também com ternos, tocam clichês da mpb e forró – uma das músicas, se a memória não me falha, era de Luiz Gonzaga. As letras ridículas culminaram na última música, que trata de um amor por uma tartaruga. Ou seria lagartixa? Bem, pouco importa. E o público todo acompanhando os gestos do patético gordinho, que chamou a “coreografia” de “bregaeróbica”. Dá para acreditar nisso? Essa banda chama-se Os Imperdoáveis, e, acreditem, venceu uma das eliminatórias da seletiva. Já pensou esses caras representando o Rio no Mada? Malditos jurados que votaram nesses picaretas.

Numa outra eliminatória, um grupo apareceu com disfarces de Papai Noel – mal feitos que só eles. O motivo? Lá pelas tantas o vocalista explicou que a banda queria tocar em Natal. Natal, Papai Noel, sacaram? No mesmo palco, bolas de gás eram jogadas do alto do mezanino, para dar um clima de festa na primeira música, que parece ser o hit deles. Chama-se “Ai Que Alegria”, e é, de longe, uma das piores músicas já compostas em todos os tempos. Pegaram uma idéia boa, e, sem graça nenhuma, estragaram tudo. Idéia, aliás, das menos originais. Gabriel Thomaz, por exemplo, ainda à frente do saudoso Little Quail – essa sim uma banda divertida por vocação – já tinha feito ótima “A Alegria Está Contagiando Meu Coração”. Esta banda de existência lamentável atende pelo nome de Aqueles. Menos pior porque, para eles o público não deu a atenção dispensada ao horrendo Imperdoáveis. E é por isso que eu tenho medo deles.

Acho que a pior coisa que aconteceu no rock nacional em todos os tempos foi o fenômeno das bandas engraçadinhas, capitaneado pelo Mamonas Assassinas na década de 90 – não vou citar outras bandas do gênero para evitar que alguém passe mal. O fim da banda (não a morte de todos os integrantes) há dez anos, para mim foi um grande alívio. Não que eu seja um cara mal humorado. Mas é porque essas bandas ditas “engraçadinhas”, de engraçado nunca tiveram nada. São, ao contrário, um verdadeiro pé no saco, uma forçação de barra de dar dó. E, o pior de tudo é que, massificadas, acabam caindo nas graças do grande público, e aí o estrago está feito. Daí o meu medo. Os Imperdoáveis, por exemplo. Na noite em que eles participaram da seletiva foram ovacionados por quase todo o público. E é aí que mora o perigo. Percebem?

Fico, às vezes, pensando. Matutando comigo mesmo. Será que esses caras não têm amigos? Amigos de verdade mesmo, que cheguem para dizer que aquilo é muito ruim. Que o cara está pagando um mico formidável. Que um espelho, vez em quando, cai bem. Será que ninguém ao redor deles pode lhes abrir os olhos? Será que vão ter que cumprir o papel de palhaço deles sem que ninguém os ajude? Acho isso de uma crueldade infame. Bem, ao menos eu, que nada tenho a ver com isso, fiz a minha parte. Para o bem do bom gosto.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

em abril 21, 2006 02:13 AM [Marlos Ápyus]

Legal o texto. Uma pergunta: o Massacration está neste bolo também?



em abril 21, 2006 11:05 AM [Marcos Bragatto]

Não, Marlos. O Massacration não é banda. Mas eu também tenho medo deles, sim.
Abraço!



em abril 24, 2006 11:47 AM [Ton Will]

Assisti a uma das seletivas do Laboratório Pop, a convite de meu filho, que tem uma banda (Homocinética). Assino em baixo: eta bandas ruins! Estou com 80 anos de idade, aprecio rock, mas rock de verdade. Não essa merda...



em abril 24, 2006 05:34 PM [Wilton]

Marcelo, eu também estou com muito medo. Medo e vergonha de ver e ouvir tantas baboseiras com o rótulo de rock. Letras ruins, baboseiras, música chinfrim, músicos sem expressão, exibicionistas. E o que é pior: muita gente do meio musical, inclusive os formadores de opinião, batendo palmas a tudo isso, enaltecendo futilidades, frivolidades, ninharias.



em abril 24, 2006 08:25 PM [Marcos Bragatto]

Marcelo who?



em abril 24, 2006 09:41 PM [Y Sanson]

Marcelo, oooops, Marcos acho que toda essa palhaçada no palco, a aparência dos ditos músicos e todo esse "extra-campo" que está ganhando jogos não interessam, e sim a música.
O publico de rock bresileru em geral é uma palhaçada, e gostam de ouvir piadas sobre si mesmo. Só assim explica-se como certas bandas em vez de serem esculachadas são ovacionadas.



em abril 25, 2006 03:35 PM [alex nathan moreira de jesus]

Tudo bem, mais qual a linha tênue que separa o engraçado do bizzarro, tipo sei lá, The Cramps e Twisted Sister?



em maio 24, 2006 11:48 PM [Isac]

Eu concordo com a matéria. Acho até legal o bom humor, mas não se pode colocar uma banda em cima de uma idéia assim.
Na minha opnião, uma banda não pode ter limitações, de forma alguma.
Abraços



em junho 7, 2006 10:19 PM [Don Cuervo]

Querido Bragatto, ficamos muito felizes que algumas pessoas fiquem extremamente incomodadas e com medo da reação que despertamos no público, publico esse que canta, dança e imita o gordinho mais picareta do cenario carioca, a nossa brega-aeróbica infelizmente faz sucesso! Nós adoramos o seu trabalho e concordamos com tudo que você escreveu a nosso respeito. Muito obrigado meu amigo! Um grande beijo dos Imperdoáveis e da Renatinha - aquela tartaruguinha do meu coração. Bragatto, nós te amamos!
Que Luiz Gonzaga esteja sempre com você
Don Cuervo (vocalista, gordinho e picareta dos Imperdoáveis)



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