
Disse, há dias, que não há o que chamam na mídia de “crise do futebol carioca”. Analisei, clube a clube, a situação de cada um, para concluir, em suma, que no Fluminense vai tudo muito bem, obrigado; que o Botafogo volta a ser glorioso dando um passo de cada vez; que o Vasco tem um time fraco; e que o Flamengo é um pleno cemitério de jogadores. Tudo isso, somado, repito, não dá crise como resultado.
Pois bem. Não foi preciso uma manchete avassaladora, nem um furo de reportagem. Bastou o tempo. Chegamos à quartas de final da Copa do Brasil e nada menos que a metade dos times são do Rio, incluindo o Volta Redonda, o intruso do interior. Chegamos à segunda rodada do Brasileirão e temos o Fluminense como única equipe com cem por cento de aproveitamento, na liderança isolada, e com os demais por ali, bem pertinho. O Vasco, vejam vocês, venceu fora de casa a Ponte Preta, coisa que era pra ser uma obrigação, mas dadas as condições atuais, é um feito e tanto. Até o Flamengo venceu facilmente um pequeno lá do sul. E o que isso tudo quer dizer? Nada, meus amigos, nada.
Disse isso e já retifico. Quer dizer muita coisa, sim. Quer dizer que hoje as análises do futebol são feitas sem critério e com uma efemeridade boçal. Observa-se muito mais a tabela de classificação e quase nada do futebol propriamente dito. Por exemplo. O Flamengo ganhou, ao que parece, com certa facilidade. Chegou a fazer três a zero e levou um gol no final, num frangaço do goleiro estabanado. Mas jogou bem? É isso que importa e que eu quero saber. De que vale a liderança isolada do Fluminense se o time não estiver jogando lhufas? Logo, logo vai cair, né?
Vi o jogo do Vasco e vi que o time do Vasco é muito ruim. O da Ponte, então, nem se fala. Só que para a Ponte Preta, que é um time pequeno, está tudo nos conformes. O Vasco, não. Precisa voltar a ser grande e disputar títulos, é da natureza do time grande. Mas é preciso dizer que um dos gols mais bonitos da rodada foi do time da Colina. Um contra ataque muito bem tramado, com poucos toques e muita velocidade que resultou num belo gol de Morais, mesmo considerando que não havia goleiro – o ex-Guarani havia ido tentar atabalhoadamente um gol de cabeça no na área do Vasco. Me perguntam se Morais é craque, e eu digo que é. Mas só quando quer jogar, o que nem sempre acontece. O resto, no Vasco, é o resto.
Elogiaram o time de descendentes de portugueses porque fez poucas faltas. Chegaram até a atribuir isso a uma “aura” do técnico Telê Santana, falecido na sexta passada. Pior para o Vasco, já que, estatisticamente, quem faz poucas faltas, em geral, não ganha título. Não que eu queira defender aqui o sarrafo, mas podem observar: quando seu time comete, em relação ao adversário, poucas faltas, comece a se preocupar que o negócio é sério. Porque o futebol de hoje é mais jogado e a falta faz parte do jogo. Raramente um time faz poucas faltas e vence, quando isso acontece é a exceção que confirma a regra. Como o Vasco, no domingo.
O que se falou de Telê Santana nesse fim de semana já encheu o saco. Mas eu também vou falar. Telê é da estirpe de jogadores criados no Fluminense nos tempos em que o clube era, por natureza, disciplinador. Formava atletas, mas, sobretudo, cidadãos. Eram os clubes que tinham essa função naqueles tempos, e o Flu fazia isso como ninguém. Citar aqui a galeria de craques revelados nas Laranjeiras, e agora, em Xerém, chega a ser desnecessário. Mas vale lembrar que depois da bagunça de algumas gestões, a diretoria atual está resgatando essa origem disciplinadora, o que é muito bom. A demissão do mal educado Paulo Campos e a contratação do fino Oswaldo de Oliveira é um retrato disso. Ainda bem.
Como técnico, Telê cai naquela máxima que já falei por aqui. Assim como existe jogador de seleção e jogador e clube, há o técnico de clube e o de seleção. Luxemburgo, por exemplo, é de clube. Esteve na seleção e fracassou. Terá a chance de provar o contrário no futuro, claro. Telê foi um grande vencedor em clubes – é o único a conquistar títulos estaduais de times do Rio, Minas, São Paulo e Rio Grande Do Sul. Mas, na seleção, fracassou fragorosamente. Poderia estender a análise, mas o que dizer de um técnico que tem nas mãos a seleção de 82 e não consegue ganhar? E nem vou falar de aberrações como Serginho e Valdir Peres. Em 86, é verdade, quem amarelou foi Zico, mas Telê, naquele ano, escaldado com o fracasso de 82, escalou um meio campo com os “volantes volantes” Elzo e Alemão, além de já ter no meio Júnior, originalmente um lateral. Telê foi um grande homem, mas técnico de time, não de seleção.
Até a próxima, que não tem goleiro!!!
Maneira a coluna! Caí aqui por acaso (pesquisando colunas de futebol na internet) e achei muito boa. Concordo com várias opiniões do autor (a começar pela paixão clubística) e principalmente com sua sobriedade.
A todos que fazem o futebol carioca um momento de reflexão... Como pode um Flamengo na ultima colocação do campeonato brasileiro? O maior clube desse País, e por aí vai...