Bola e Bola Mesmo
25 de abril de 2006
Manchetes espantam a crise no futebol carioca
Bastaram duas rodadas do Campeonato Brasileiro e as quartas de final da Copa do Brasil para o futebol carioca “sair da crise”. Cada uma...

Não faz muito temo que escrevo esta coluna semanalmente. Mas posso dizer que existe um tema bem esperado por aqueles que vêm aqui de vez em quando, ou, que, por outro lado, tem um certo conhecimento do que escrevo há algum tempo. É que, antes das Copas de 1994, 1998 e 2002, escrevi textos fazendo as previsões, incluindo aí os vencedores. Em 94 e 98, certei na mosca os campeões, e em 2002 fracassei ao apontar a Argentina como campeã – mas estou certo de que, por ter acontecido de forma inédita na Ásia, aquela Copa furou todas as previsões. Não é hoje, contudo, que direi aos amigos quem vencerá a Copa da Alemanha. Tenho por hábito esperar a relação dos convocados de todas as seleções, como se disso dependesse a minha projeção. Por isso, vamos aguardar o dia 15 de maio.

Disse, há dias, que não há o que chamam na mídia de “crise do futebol carioca”. Analisei, clube a clube, a situação de cada um, para concluir, em suma, que no Fluminense vai tudo muito bem, obrigado; que o Botafogo volta a ser glorioso dando um passo de cada vez; que o Vasco tem um time fraco; e que o Flamengo é um pleno cemitério de jogadores. Tudo isso, somado, repito, não dá crise como resultado.

Pois bem. Não foi preciso uma manchete avassaladora, nem um furo de reportagem. Bastou o tempo. Chegamos à quartas de final da Copa do Brasil e nada menos que a metade dos times são do Rio, incluindo o Volta Redonda, o intruso do interior. Chegamos à segunda rodada do Brasileirão e temos o Fluminense como única equipe com cem por cento de aproveitamento, na liderança isolada, e com os demais por ali, bem pertinho. O Vasco, vejam vocês, venceu fora de casa a Ponte Preta, coisa que era pra ser uma obrigação, mas dadas as condições atuais, é um feito e tanto. Até o Flamengo venceu facilmente um pequeno lá do sul. E o que isso tudo quer dizer? Nada, meus amigos, nada.

Disse isso e já retifico. Quer dizer muita coisa, sim. Quer dizer que hoje as análises do futebol são feitas sem critério e com uma efemeridade boçal. Observa-se muito mais a tabela de classificação e quase nada do futebol propriamente dito. Por exemplo. O Flamengo ganhou, ao que parece, com certa facilidade. Chegou a fazer três a zero e levou um gol no final, num frangaço do goleiro estabanado. Mas jogou bem? É isso que importa e que eu quero saber. De que vale a liderança isolada do Fluminense se o time não estiver jogando lhufas? Logo, logo vai cair, né?

Vi o jogo do Vasco e vi que o time do Vasco é muito ruim. O da Ponte, então, nem se fala. Só que para a Ponte Preta, que é um time pequeno, está tudo nos conformes. O Vasco, não. Precisa voltar a ser grande e disputar títulos, é da natureza do time grande. Mas é preciso dizer que um dos gols mais bonitos da rodada foi do time da Colina. Um contra ataque muito bem tramado, com poucos toques e muita velocidade que resultou num belo gol de Morais, mesmo considerando que não havia goleiro – o ex-Guarani havia ido tentar atabalhoadamente um gol de cabeça no na área do Vasco. Me perguntam se Morais é craque, e eu digo que é. Mas só quando quer jogar, o que nem sempre acontece. O resto, no Vasco, é o resto.

Elogiaram o time de descendentes de portugueses porque fez poucas faltas. Chegaram até a atribuir isso a uma “aura” do técnico Telê Santana, falecido na sexta passada. Pior para o Vasco, já que, estatisticamente, quem faz poucas faltas, em geral, não ganha título. Não que eu queira defender aqui o sarrafo, mas podem observar: quando seu time comete, em relação ao adversário, poucas faltas, comece a se preocupar que o negócio é sério. Porque o futebol de hoje é mais jogado e a falta faz parte do jogo. Raramente um time faz poucas faltas e vence, quando isso acontece é a exceção que confirma a regra. Como o Vasco, no domingo.

O que se falou de Telê Santana nesse fim de semana já encheu o saco. Mas eu também vou falar. Telê é da estirpe de jogadores criados no Fluminense nos tempos em que o clube era, por natureza, disciplinador. Formava atletas, mas, sobretudo, cidadãos. Eram os clubes que tinham essa função naqueles tempos, e o Flu fazia isso como ninguém. Citar aqui a galeria de craques revelados nas Laranjeiras, e agora, em Xerém, chega a ser desnecessário. Mas vale lembrar que depois da bagunça de algumas gestões, a diretoria atual está resgatando essa origem disciplinadora, o que é muito bom. A demissão do mal educado Paulo Campos e a contratação do fino Oswaldo de Oliveira é um retrato disso. Ainda bem.

Como técnico, Telê cai naquela máxima que já falei por aqui. Assim como existe jogador de seleção e jogador e clube, há o técnico de clube e o de seleção. Luxemburgo, por exemplo, é de clube. Esteve na seleção e fracassou. Terá a chance de provar o contrário no futuro, claro. Telê foi um grande vencedor em clubes – é o único a conquistar títulos estaduais de times do Rio, Minas, São Paulo e Rio Grande Do Sul. Mas, na seleção, fracassou fragorosamente. Poderia estender a análise, mas o que dizer de um técnico que tem nas mãos a seleção de 82 e não consegue ganhar? E nem vou falar de aberrações como Serginho e Valdir Peres. Em 86, é verdade, quem amarelou foi Zico, mas Telê, naquele ano, escaldado com o fracasso de 82, escalou um meio campo com os “volantes volantes” Elzo e Alemão, além de já ter no meio Júnior, originalmente um lateral. Telê foi um grande homem, mas técnico de time, não de seleção.

Até a próxima, que não tem goleiro!!!

em abril 25, 2006 06:19 PM [Marcelo Santos]

Maneira a coluna! Caí aqui por acaso (pesquisando colunas de futebol na internet) e achei muito boa. Concordo com várias opiniões do autor (a começar pela paixão clubística) e principalmente com sua sobriedade.



em julho 30, 2007 09:43 PM [Eduardo Henrique Santos Costa]

A todos que fazem o futebol carioca um momento de reflexão... Como pode um Flamengo na ultima colocação do campeonato brasileiro? O maior clube desse País, e por aí vai...



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