Rock é Rock Mesmo
06 de abril de 2006
Com o Big Country os bons tempos das guitarras estão de volta
Pelas guitarras únicas, as raras composições, os arranjos de extremo bom gosto, o timbre de voz espetacular. Pelos temas muito bem sacados. Por tudo, pelo conjunto da obra, vale dar uma olhadinha pra trás e (re)conhecer o Big Country.

Meus amigos, recordar é viver. Tempos atrás, como disse, postei aqui neste site todas as colunas Rock é Rock Mesmo desde os tempos em que foi criada, há pouco mais de três anos. Ao fazer isso fui acometido por uma certa nostalgia de mim mesmo, vendo como escrevi esta ou aquela coisa. Vi, também, além de uma certa fartura para a seção “Verbalizando”, que já faz um certo tempo que não escrevo uma coluna daquelas “convencionais”, em que o beltrano sai explicando como é tal banda, tal disco, etc. Obrigação de se fazer isso, por aqui, aliás, nunca houve. Mas, é sabido, o povo gosta. Então vamos lá.

Já cantei essa pedra no Anti-Blog (um cantinho eu tenho lá no site da Laboratório Pop), mas vou dar uma esticada melhor por aqui. Disse, lá, que uma das coisas mais chatas é quando aparece um sujeito, em geral movido por motivações pessoais, querendo creditar a terminado artista uma importância histórica que ele nunca teve. Não quero ser esse tipo de chato, mas vou falar de um grupo das antigas que por pouco não passou desapercebido no mundo da música, sobretudo no Brasil. Afinal, se uma reles coluna sobre rock (e ainda por cima na Internet) não falar, que mais o fará?

Foi através de uma pechincha numa loja virtual que adquiri o DVD duplo “Final Fling”, do Big Country. Calma, meus amigos, não se trata de uma das novidades mais novinhas do meu amigo Moderninho de Plantão. Trata-se uma banda escocesa da geração de U2, The Alarm e afins que teve uma carreira de banda média na Europa. Citei o Alarm de propósito, só para sugerir uma certa conexão entre ela e o Big Country, através das raízes folk de ambas. O Big Country, assim como quase todo o rock daquela época, eu conheci através da Fluminense FM, que, de início, tocava na programação as músicas “In a Big Country” – com uma introdução de bateria de arrepiar - e “Fields Of Fire”. Como a rádio não tinha um play list tão rigoroso assim, volta e meia entrava uma outra do primeiro disco deles, “The Crossing”.

Explicar o Big Country não é uma coisa simples, só dá pra entender ouvindo mesmo, vendo o material gráfico, sacando as letras. Mas vamos de exemplos. Lembro-me de uma resenha na Revista Roll, pioneira no rock nacional pós anos 80, em que o crítico dizia que “com o Big Country os bons tempos das guitarras estão de volta”. Fosse hoje eu já me inclinaria pela banda de cara. Naquela época, no entanto, não tinha comigo a certeza da importância da guitarra para as sociedades pós-industriais. Gostei mesmo do jeito que o cara falou, e, como já conhecia a banda, foi tiro e queda. O cuidadoso trabalho de guitarras feito por Stuart Adamson e Bruce Watson é uma coisa de raro bom gosto, que realça músicas fortes não só pela composição em si, mas pela dramaticidade que carregam junto com as letras. Estas, em geral, abordam temas às vezes épicos, noutras simples, que apontam para as forças da natureza, como sugere o nome da banda e de algumas músicas – “The Storm”, “1000 Stars”, “Sailor” - ou para ação do homem nisso tudo – “Steeltown”, “Where The Rose Is Sown”, entre tantas outras. Vale citar a cozinha com o criativo baixista Tony Butler e o vigoroso baterista Mark Brzezicki, que chegou a gravar o álbum “Love” com o The Cult. E, não dá para esquecer, a voz típica e de timbre raro de Adamson, que caracteriza muito bem todo o trabalho do “Campão”, como citou certa feita a revista Bizz. Deu pra entender? Se não deu, só ouvindo mesmo.

No Brasil, mesmo com o esforço da Flu-FM e da mídia segmentada, a banda não pegou como outras da época. Sabe quando você vê todo mundo usando camisetas de várias bandas menos essa? Era o que acontecia com o Big Country, mesmo com os discos sendo lançado aqui. Além de “The Crossing” (83), a EMI brasileira colocou o mercado “Steeltown” (84), “The Seer” (86) e “Peace In Our Time” (88). Lá fora a banda continuou lançado disco por gravadoras menores, mas não tão bons assim, honra seja feita. O melhor do trabalho do Big Country está mesmo nos três primeiros. Como disse, “The Crossing” é voltado para o campo, numa clara referência a uma realidade bem específica, oriunda dos cafundós da Escócia. Já “Steeltown”, como o nome sugere, mostra temas pós-industriais como a decadência familiar ante a cidade de aço. O disco não chega a ser conceitual, mas o tema percorre mais da metade das canções. Musicalmente, trata-se da melhor fase da banda, em composição, arranjos e execução das músicas. E é importante notar que ambos foram produzidos por Steve Lillywhite, que também fazia discos para o U2. “The Seer” é também um bom disco, e pega o Big Country (já) globalizado, abordando temas menos próprios e específicos e mais genéricos. O destaque do disco é a participação de Kate Bush nos vocais da faixa título, embora o hit “Look Away” roube a cena. Em 1999, a extinta Abril Music lançou um disco da série “King Biscuit Flower”, com um espetacular show gravado na Escócia na passagem de 82 para 83, com a íntegra de “The Crossing” e mais quatro músicas.

Dali pra frente a banda se manteve ativa, mas caiu numa fase de álbuns regulares e pouco expressivos. Prova disso é que nos shows o repertório vinha sempre sendo formado por uma pá de músicas dos dois primeiros álbuns, um pouco menos do terceiro, e um ou outro hit dos álbuns posteriores, além de singles do início de carreira como a clássica “Wonderland”. Alguns períodos inativos marcaram a banda, incluindo a saída e retorno do solicitado Brzezicki, mas, até hoje, oficialmente, o fim da banda não foi anunciado, embora um fato tenha significado o desfecho não oficial. No final de 2001 Stuart Adamson, que a essa altura morava em Nashville e tinha sérios problemas com álcool, foi dado como desaparecido até seu corpo ser encontrado no dia 16 de dezembro, num quarto de hotel no Havaí. Até hoje as circunstâncias da morte não foram esclarecidas.

No início de 2000 a banda havia feito uma espécie de “farewell tour” pelo Reino Unido, e é um dos shows desta turnê que aparece num dos disquinhos do DVD “Final Fling”. No outro, um vídeo bem melhor, com o grupo se apresentando, em 1988, pela primeira vez, na Alemanha Oriental, um ano antes da queda o muro de Berlim. Era a banda no auge, prestes a lançar “Peace In Our Time”, título, aliás, muito influenciado por esta turnê. Por uma sorte dos diabos, a Indie Records lançou este DVD no Brasil, e, como a banda é hoje menos conhecida ainda por essas bandas, ele estava à venda por uma pechincha num desses magazines virtuais.

Eu poderia falar aqui do legado que o Big Country deixou. De como a banda era injustiçada. De que isso aqui e aquilo lá, numa música ou outra, de bandas como o U2, por exemplo, vêm do Big Country. Que, até, as novas gerações de grupos de rock que se voltam para o rock dos anos 80, como também escocês Franz Ferdinand, por exemplo, bebem um pouco na fonte do Big Country. Poderia, mas não vou. Porque o Big Country foi (e é) único na história. Pelas guitarras únicas, as raras composições, os arranjos de extremo bom gosto, o timbre de voz espetacular. Pelos temas muito bem sacados. Por tudo, pelo conjunto da obra. E porque, vamos e venhamos, pouca gente cantou tão bem uma realidade tão específica, de uma forma tão abrangente. Eu não queria ser esse tipo de chato. Mas fui. Pronto.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

em junho 2, 2006 08:14 PM [Makson Côra]

Meu Deus, como eu faço pra falar com cidadão que escreveu esse artigo? Eu pensei que só eu conhecia essa banda no Brasil, rapaz, não existe nada que soe como Big Country, esse cara disse tudo, eu também tenho o Final Flying, além dos álbuns The Crossing e Through a Big Country (Greatest Hits), será que tem mais gente que conhece e gosta de Big Country por aqui?



em dezembro 15, 2006 12:26 AM [Francisco Oliveira]

Por Deus, e não é que tem sim! Estou lendo/escrevendo esse comentário ouvindo "Just a Shadow", música sensacional. Concordo com esse artigo, o Big Country é/foi uma banda única. As guitarras são sensacionais e únicas nesse mundão de rock afora. É realmente uma pena ela ter sido relegada a segundo plano, mas é aquela coisa mesmo, daqui a algum tempo será redescoberta e aclamada.

Um grande abraço e já não me sinto tão orfão.. rs



em janeiro 25, 2007 04:39 PM [EMERSON TOMAZONI]

BIG COUNTRY - NA MINHA OPINIÃO A UNICA BANDA EM QUE POSSO COMPRAR O CD SEM PRECISAR ESCUTAR, POR QUE A BANDA É A MINHA PREFERIDA, PODEROSO SOM, RIFS DE GUITARRA QUE SÃO UMA PANCADA NO OUVIDO... COLOQUEM A MUSICA "SAVE -ME" NO ÚLTIMO VOLUME E COLOQUEM OS FONES.... BOMBASTICA.... ATÉ LOGO AMIGOS...FUI...



em fevereiro 6, 2007 10:07 AM [Renato Frasseto]

Olá, pessoal. Em meados dos anos 80, precisamente em 1987, através de uma fita cassete, escutei pela 1ª vez In a Big Country, a introdução "energia" pura, que bateria.
Tenho alguns CDs desta maravilhosa banda escocesa, pena que nunca niguém valorizou. Muitos roqueiros não imaginan o quanto foi importante para os anos 80 esta banda, começando pelo vocal, guitarra, bateria.
Nunca precisei ouvir faixas para comprar algum CD.
Viva o ROCK'N'ROLL



em maio 15, 2007 06:54 PM [marcelo winter]

Pois é... Curti muito o Big Country, desde o início da carreira deles, em 1983, com o album "The Crossing" e até bem antes, quando Stuart Adamson tocava no Skids, grupo muito executado no programa que o Kid Vinil tinha na extinta Excelsior AM.
Uma pena que Stuart não esteja mais vivo, mas é bom conferir que o trabalho deste ótimo grupo pode ser conferido no youtube (o do Skids também ).
Espero que um dia surja algo no nível praticado pelo Big Country (tá difícil).



em agosto 24, 2007 12:09 PM [Paulo Camera]

Em 1983 quando escutei "The Crossing" pensei assim: Até que enfim uma banda criativa e diferente, depois deste tempo todo continuo achando que o Big Country ainda é uma muito especial.



em novembro 9, 2007 02:56 PM [Alberto]

Eu ouço o Big Country desde a decada de 80, tenho os três primeiros discos em vinil. É uma band "cult", adorável, autêntica. Para quem eu emprestei os discos viraram fã. Comprei o CD The Best of Big Country (Importado), um dos melhores CDs que tenho, se vosse vinil, estaria gasto de tanto que escuto, não canso. Dizer que é a melhor banda, etc. é besteira, isto é para fãs das outras bandas, quem escuta Big Country sabe do que estou falando, Big Country é Big Country!



em outubro 14, 2008 02:14 PM [josé carlos]

Comprei meio que por acaso o LP "The Crossing" num sebo. Não tenho palavras para descrever que som incrível, nada se compara e olha que minha praia é música eletrônica. É A MELHOR BANDA DO MUNDO.



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