
Bastaram uns meses para que surgisse um repertório híbrido, fruto das referências diversificadas de cada músico, e que começaram a aparecer no EP “A Dois”, lançado em formato demo em 2004. Há mais ou menos um ano, no Carnaval de 2005, Ronei Jorge finalizava o disco de estréia, lançado pelo seu próprio CPF e distribuído pela Tratore. O disco ficou preso porque eles abocanharam uma das oito etapas do festival Claro Que é Rock, e só pode ser lançado depois da apresentação na finalíssima, em dezembro, em São Paulo.
“Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta”, o disco, foi distribuído à imprensa e agradou geral. Apontando para várias direções, acabou encontrando morada naquele nicho do mercado em que residem artistas que almoçam no prato da mpb e jantam com a turma do rock. Se você pensou em Cidadão Instigado, Los Hermanos, Wado e mundo livre, guardadas as devidas peculiaridades, é por aí mesmo.
Foi no meio do Carnaval – quem diria – que trocamos e-mails com o músico para saber, afinal, de onde vem a música de Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta. Ele falou tudo sobre a formação da banda, as referências musicais, repercussão entre mídia e público e o que espera do hibridismo de seu trabalho. Confira:
Rock em Geral: O que saiu da fase com a Saci Tric que ajudou nesse novo trabalho?
Ronei Jorge: Ajuda no amadurecimento de uma proposta musical. Acho que ter tocado na Saci foi mais uma forma de aprender com outros músicos. Me deu experiência para o palco e foi meu primeiro passo para me sentir mais seguro como compositor, pois foi nesse período que deixei minhas músicas com a Penélope. A banda acabou por questões individuais e cada um tomou o seu caminho.
RG: Que diferenças você vê entre um trabalho e outro?
Ronei Jorge: Eles são bem diferentes, a começar pelos músicos. A Saci foi uma banda formada desde os tempos de colégio, nós tínhamos uma relação de amizade anterior a musical. Aprendemos juntos e apesar de ouvirmos de tudo, nossa principal motivação era o rock. Já com os Ladrões, apesar de conhecer os músicos, eles tocaram em formações outras que não a do rock. Edinho e Pedrão faziam parte de uma banda de música instrumental e Sergio tocou em bandas de estilos variados. Eles já tocaram rock, mas não tiveram o rock como única formação.
RG: A escolha desses músicos de “formações outras que não a do rock” foi de propósito, para fazer esse tipo de som?
Ronei Jorge: Não exatamente. Pedrão, o baterista, já era um cara que eu conhecia e que mostrava ser uma boa figura para tocar comigo. Sempre gostei do jeito de ele tocar, e nós tínhamos gostos musicais em comum, além de sermos amigos de futebol. Edinho foi chamado por Pedrão, pois eles já tocavam na Petercantropus (banda instrumental) e seria bom ter um guitarrista na banda, pois eu não iria segurar sozinho a guitarra. Sérgio foi o único que eu nunca tinha visto tocar. Ele entrou no lugar de Nuno, que era baixista da Saci, mas teve que viajar para Portugal. Sergio foi uma indicação da irmã de Pedrão que disse ter um amigo de faculdade que ela achava que tocava baixo. Tivemos muita sorte, ele se adaptou logo e fechamos a formação.
RG: Desde quando você está com esse trabalho solo?
Ronei Jorge: Não se trata de um trabalho solo. Quando terminou a Saci fiquei meio desiludido com bandas e pensei em ficar só, compondo. Por isso chamei meu amigo Gilberto Monte (tara_ code) para me auxiliar. Gil gravou as músicas e resolveu arranjar algumas. Fizemos uma e acabou virando um projeto chamado Clube Do Silêncio. Mas Gil e eu achávamos que seria bom colocar o trabalho para frente e montar uma banda. Então seria um projeto em que eu montaria uma banda para tocar minhas composições. Só para exemplificar, funciona mais ou menos como os Bad Seeds, de Nick Cave, ou o Crazy Horse, do Neil Young. Por causa dessa idéia que o nome ficou sendo esse, mas sem dúvida funcionamos como uma banda.
RG: Em 2004 você lançou um CD demo com quatro músicas que passou desapercebido. Por que isso aconteceu?
Ronei Jorge: Acho que um CD demo tem um alcance determinado. Esse alcance é naturalmente menor que o do disco. É normal que haja mais visibilidade em torno de um trabalho “pronto” que em um CD com quatro músicas. Mas acho que ele cumpriu bem a sua função e fez a cama para que o CD aparecesse. Por conta do EP fomos convidados para alguns festivais e foi o que fez a música começar a circular.
RG: Já esse disco foi muito bem recebido pela crítica. Que efeitos práticos isso acarreta para a banda?
Ronei Jorge: É bom saber que crítica e público recebem bem o seu trabalho. É interessante você ler ou ouvir alguém falar sobre o seu trabalho e perceber que cada pessoa tem uma percepção diferente daquilo. Em termos práticos, acho que o disco ser bem recebido pela crítica, de certa forma, permite que a curiosidade de algumas pessoas aumente. A pessoa que se identificar com aquele tipo de resenha vai querer ouvir, caso ela se veja como possível consumidor daquele produto. Já no sentido musical, isso não afeta a banda. Se você se guia por determinada opinião para fazer seu trabalho acaba a surpresa.
RG: Vocês têm aumentado o público depois do lançamento? Têm feito muitos shows?
Ronei Jorge: Em Salvador já vínhamos fazendo muitos shows e conquistado um público razoável. Agora com o disco a idéia é tentar expandir esse público também em outros estados. Nós aproveitamos a viagem para São Paulo no final do ano passado e fizemos shows no Rio e em Goiânia (no Goiânia Noise) e isso foi muito bom para nós.
RG: Como foi a receptividade desses públicos?
Ronei Jorge: Logo no primeiro show que fizemos a receptividade foi boa, isso me surpreendeu. Nós tocamos seis músicas, dentre elas “Me Deixa em Paz”, do Monsueto. Foi legal porque eu tinha ficado parado e nunca tinha tocado com aqueles caras. É um show que nós lembramos com carinho até hoje.
RG: Há muitas referências à mpb e samba no seu trabalho. Sempre foi assim na sua carreira como músico, ou você acha que isso vem acontecendo com mais intensidade depois que outras bandas assumiram esse lado, como o Los Hermanos, por exemplo?
Ronei Jorge: A minha carreira (e posso responder pelos Ladrões também) sempre foi pautada em fazer música que fosse interessante para nós, independente de estilo. Minha relação com a música sempre foi feita de maneira livre, desde minha primeira banda, há catorze anos. Desde então surgiam elementos diversos que nunca fiz questão de barrar, como os que você mencionou.
RG: Essa mistura já foi tentada por artistas do passado, como o Picassos Falsos, que não conseguiram encontrar um nicho no mercado. Como você vê isso hoje? Tem lugar para o som que vocês fazem?
Ronei Jorge: Eu não gosto de chamar de mistura porque parece que as coisas vêm muito segmentadas e acho que as referências não vêm com predisposição para parecerem estilos tão definidos. Quanto ao mercado, é um mistério. É muito difícil saber o que ele quer. Acho que o Los Hermanos, com mérito, abriu a possibilidade de que um novo público se interesse por essa música mais livre de rótulos, e isso de certa forma favorece artistas como nós, Cidadão Instigado, Wado, La Pupuña, Numismata, tara_code.
RG: Você disse “livre de rótulos”, mas como você chamaria a sua própria música?
Ronei Jorge: Mas aí eu estaria rotulando. A única coisa que posso chamá-la é de música brasileira. Ou rock brasileiro, sei lá.
RG: Em geral a música de um artista é um pouco o retrato do que ele ouve. O que você ouvia que resultou nesse disco?
Ronei Jorge: Acho que referências passadas, não só minhas como do grupo todo devem estar presentes no disco. É o acúmulo dos sons que se ouve que cria na sua cabeça aquele banco de dados e que você despeja no seu som, mas já está tudo muito misturado com sua própria marca muito forte ali, então fica difícil dizer que é esse ou aquele artista que está no disco.
RG: Você considera que todas essas referências passadas que você citou estão bem homogeneizadas nesse disco?
Ronei Jorge: É muito difícil para quem está dentro do processo dizer isso, mas é inevitável que você, durante tanto tempo ouvindo música, deixe ali em seu trabalho algo de artistas que você gosta. O que posso te dizer é que a maioria das pessoas que falou da banda detectou influências diferentes, mas nada tão evidente foi ouvido. Tem outra coisa também, nós ouvimos coisas bem diferentes. Então não é aquela banda em que todo mundo ouve rock inglês, samba funk, hardcore, ou sei lá o que. Isso eu acho bom, porque ajuda a um membro diluir a informação de outro membro da banda.
Ronei: funciona como os Bad Seeds, de Nick Cave, ou o Crazy Horse, do Neil Young
RG: Salvador é a terra do axé, e espera-se, por causa disso, que o underground seja uma coisa mais rock, radical mesmo. Como você se vê misturando rock, pop e mpb?
Ronei Jorge: Eu não penso em fazer música como uma resposta a o que está estabelecido. Se essa expectativa é verdadeira, acho isso ruim e simplório. Não faço música por causa da existência do axé. Acho que as pessoas deveriam esperar de Salvador o que esperam de outras cidades, que tivesse música interessante, com personalidade.
RG: O assunto axé sempre incomoda os artista de rock de Salvador. Por que você acha que isso acontece?
Ronei Jorge: Acho que o que incomoda é a questão da indústria, o extra musical. Tem um problema da monocultura, de um tipo de música reinar absoluta. Isso é chato sendo axé, pagode, forró, rock, qualquer tipo de música. Além do que, alguns dos artistas de axé não se furtaram a passar uma imagem pró-turismo daqui de Salvador. Um tipo de alegria estereotipada. Mas tem alguns artistas que surgiram do axé que são bons e que fugiram desse negócio de música de carnaval para seguir seu caminho.
RG: Algumas de suas letras revelam personagens femininos, como “Circo” e “Mulher Gigante”. Com é esse processo de escrever olhando de dentro do universo feminino?
Ronei Jorge: É o mesmo processo de escrever para outras músicas. São personagens, é a grande sacada do autor: poder se vestir de outros, senão fica parecendo queixa de adolescente. “Mulher Gigante” eu tinha feito para a Andréa May, da tara_code. Eu fiquei observando o jeito dela bem decidida e ao mesmo tempo tão feminina. Aí me veio “Mulher Gigante”. “Circo” já foi uma história que ouvi uma vez de uma menina que queria acompanhar o circo, aí comecei a escrever.
RG: Falando nas letras, como você escreve? Parece uma coisa mais elaborada do que a média das bandas de rock...
Ronei Jorge: O processo de composição no meu caso é bem variado. Em alguns momentos escrevo a letra antes da música, em outros a música vem antes da letra e, na maior parte as duas vêm juntas, mas aí eu vou guiando a situação, se não parece espiritismo, né? Quanto à elaboração, eu não sei dizer. É esse o jeito que encontrei para escrever de uma forma satisfatória. Não sei exatamente o que você está chamando de elaboração, mas tem uns caras que escrevem muito bem no rock. Acho que o Arnaldo Antunes é bom, o Cazuza tem coisas bem legais, o Humberto Effe tem coisas boas. Tem dois momentos dos Raimundos que eu acho sensacionais: “Puteiro em João Pessoa” e “Eu Quero é Ver o Oco” são duas letras que acho elaboradas. Tem uma história ali, uma construção de imagens ótima.
RG: Você acha que o tipo de música que você se propõe a fazer “pede” letras mais elaboradas? Ou, ao contrário, as letras é que não “querem” rock?
Ronei Jorge: Não. Eu acho que todo o tipo de música pode ter letras interessantes. Se elaboração for sinônimo de pompa e seriedade, aí talvez o rock não seja o veículo ideal. Acho que os caras que citei conseguiam dar estilo ao jeito de escrever. Eles tinham ou têm uma marca que os diferencia dos outros. Isso eu acho importante. Mas também tem que ver em que escala de importância a letra está no trabalho do artista. Têm artistas que não se preocupam com a letra e acabam fazendo músicas tão boas que você releva a letra. Tem letras que são super simples, mas tem tudo a ver com a métrica, com a parte rítmica da música. Cada caso é um caso.
RG: “O Drama” parece um rock que quis ser samba, mas recuou. Como você dosa essas misturas? Ou não rola isso?
Ronei Jorge: Eu discordo dessa ordem que você coloca. A melodia, a letra e a cadência dessa música estão mais próximas do samba que do rock. Não acho que quando você a ouve de imediato pensa em rock. As pessoas quando a ouvem comentam: e aquele samba? Eu a fiz com o violão e ela se aproximava mais de um samba que um rock. Quando fizemos o arranjo, ela acabou tomando esse caminho. Então não tem uma dosagem, tem o fato de como a gente imagina que o arranjo e a música se complementam de forma satisfatória.
RG: Parece que as partes “samba” não dialogam com as demais nesse disco, soou gratuito. Você acha que ficou tudo bem encaixado?
Ronei Jorge: É porque aí estamos falando de duas coisas diferentes. Uma é a parte samba que você se refere, a outra é a composição bruta, como ela nasceu. A parte samba, essa coisa de surdo, cuíca e tamborim, foi para realçar uma idéia. Eu gosto, mas entendo que algumas pessoas achem desnecessário. Quanto à música em si, é como te disse, se você canta ela sem o arranjo, é um samba, não um samba tradicional, mas tem elementos de samba, tem uma linha melódica e uma cadência mais aparentada com o samba, muito mais do que com o rock.
RG: “Circo” parece ser a música mais pesada do disco. Foi de propósito, para se diferenciar, de certa forma, da versão gravada pela Penélope?
Ronei Jorge: Não. Quando levei a música para os caras da banda, levei como mostrei para a Érika (Martins, ex-vocalista da Penélope) da primeira vez. Mostrei como ela surgiu. Os caras ouviram; Edinho, o guitarrista, sugeriu o riff e a banda foi coletivamente colocando novos elementos. Mesmo não sendo pesada, seria difícil que parecesse com a versão da Penélope. As bandas são muito diferentes.
RG: É bom ser gravado por outros artistas? Quem, além da Penélope, já gravou Ronei Jorge?
Ronei Jorge: Só a Penélope gravou. Eu gosto das versões que eles fizeram das músicas. É sempre bacana você ouvir o outro tocando uma coisa sua. Cada um mostra uma particularidade diferente. Isso enriquece a composição. Claro que de início é difícil você se desgarrar do seu “filho” e vê-lo sendo instruído por outros “pais”. Às vezes o comportamento de sua “criança” pode não ser o esperado. Mas o desapego vale a pena.
RG: Você foi um dos classificados para a final do Claro Que é Rock, no ano passado. Na comissão julgadora havia amigos e conhecidos seus. Isso não te deixou incomodado?
Ronei Jorge: Fizemos um show bacana e o público acolheu muito bem, acho que foi isso que contou realmente no final das contas. O fato de conhecer algumas pessoas do júri não compromete a idoneidade delas. O que acontece é que o júri foi formado por pessoas do rock de Salvador, então fica muito difícil não conhecer essas pessoas tendo tanto tempo de carreira. Imagine se as bandas vão deixar de participar de determinado festival porque conhecem os organizadores. Quase ninguém tocaria. É um meio em que todo mundo se conhece. Acredito que conhecer ou não o júri não foi critério de seleção para ninguém, imagino que as pessoas que fizeram parte dele tenham responsabilidade suficiente para cumprir seu papel com o distanciamento necessário.
RG: Esse disco já tem um ano que foi gravado. O que mudou na banda, de lá para cá? E por que a demora para o disco chegar no mercado?
Ronei Jorge: Esse é o grande problema de se fazer disco de forma independente. O registro acaba saindo com atraso e não consegue acompanhar e retratar o exato momento em que a banda se encontra. A demora geralmente acontece por falta de grana para que se agilize tudo. Acabamos mostrando todas as músicas que entrarão no disco seguinte em shows que fazemos durante o ano. E isso estraga um pouco a surpresa de ter músicas inéditas no disco.
RG: A capa do disco, com o rosto de um menino, lembra a capa do segundo disco da Pitty, tem algo a ver?
Ronei Jorge: O artista é o mesmo. Edson Rosa, o guitarrista da banda, fez as duas capas. A elaboração é dele. Essa parte nós deixamos a cargo dele. Ele mostra alguns desenhos que ele pensou para a capa e rola um debate, para a aprovação.
RG: Falando em Pitty, você acha que o sucesso dela abriu portas para o pop baiano no Brasil?
Ronei Jorge: Acho que a Pitty tem uma coisa bacana de não se desgrudar de uma história dela aqui em Salvador. É difícil um artista estar no mainstream e agir como ela, chamando a atenção para Salvador, para o rock daqui. Sem dúvida acho que ela tem um papel importante e acho que faz isso da melhor forma, não parece uma coisa paternalista, de passar a mão na cabeça. Ela busca mostrar bandas que ela acha ter relevância. Acho isso muito legal e corajoso da parte dela.
RG: E internamente, causou um maior agito aí em Salvador?
Ronei Jorge: Tem gente que torce o nariz para a Pitty. Com a Penélope isso já aconteceu também. É um certo ranço de underground que tem aqui e que distorce as coisas. Algumas pessoas torcem por você até você se tornar conhecido, aí quando isso acontece o cara já acha que não presta mais. Mesmo que sua música não tenha sido alterada. É um sintoma de adolescência mal administrada, essa coisa de egocentrismo, do só eu posso ter, conhecer, ouvir. Estranho que isso acometa a pessoas com mais de vinte anos.
"Não faço música por causa da existência do axé"
Saiba mais: www.roneijorgeeosladroes.com.br
BOA NOITE AMIGOS COMO ESTAVA DIZENDO QUE O MEU MAIOR SONHO E TER UMA BANDA DE ROCK TAL ATE OUTRO DIA
E aí, beleza? Adorei suas fotos e a matéria também. Parabens, você manda muito bem, continue assim!