
“Conhece a casa?”, pergunta Tia Nair, uma das três senhoras que trabalham como gerente e tomam conta de tudo, nos mínimos detalhes. Digo que sim para não dar bandeira enquanto visto o traje da casa (um roupão pós-banho) e ainda vejo um senhor de uns sessenta e poucos anos acompanhado do neto, avisando pelo celular que vai chegar atrasado para o jantar. Já fardado, recebo a companhia de Nice, uma loira com sotaque do interior de Minas que, a pretexto de iniciar uma conversa, já se assanha em me contar como tudo funciona, enquanto subimos as escadas.
No segundo andar fica a boate, onde, segundo os cartazes da portaria, 80 garotas recebem os fregueses. Como estamos no inverno, o traje é até bem comportado: uma calça de malha justíssima sobre uma calcinha uns três números menores, com cortes nas laterais, mostrando as pernas, e um top também pequeno, que, dependendo do caso, realça a fachada.
Logo que chego e peço uma bebida (uma cerveja, a R$ 4), sou rodeado por dois aviões que, literalmente a quatro mãos, tentam me convencer de fazer um programa com as duas. “É baratinho”, diz Fernanda, uma morena de coxas grossas que roçam nas minhas pernas, enquanto Carol, com um bocão de fazer inveja a Daniella Cicarelli, sussurra em meu ouvido. O “baratinho” sai por R$ 200, se você usar uma cabine (um cubículo com lavabo) por 40 minutos, ou R$ 380, se preferir uma hora inteirinha numa suíte semelhante a um quarto de motel. Para ficar com as duas, paga-se o dobro, claro. Ainda assim, é impossível não ficar excitado, não apenas pela presença tentadora da dupla, mas pela idéia de ir para a cama com elas. A música não é das melhores: um axé music que todas as meninas sabem de cor. Mas quem vai num lugar desses para curtir o som?
Saí pela tangente e fui conhecer a casa. Na sala de relax, confortáveis poltronas/camas ficam em frente a um aparelho de TV que exibe um jogo do Campeonato Brasileiro. É dali que a Tia Maria interfona reservando as cabines e controlando quem ficou com quem. Nas cabeceiras, revistas, em geral de conteúdo empresarial. Alguns casais aguardam a hora de subir para as cabines quase fazendo tudo ali mesmo, num frenético agarra-agarra.
De volta à boate, a cena mais comum é a de um senhor de meia idade abraçado com uma garota de cada lado, com uma das pernas jogadas sobre as dele, e uma garrafa de bebida na mesinha em frente: champanhe nacional (R$ 62) ou uísque importado (R$ 360). Mas dentro daqueles roupões, todos os fregueses são iguais, e isso é que é legal ali dentro. Diferentemente do que acontece no mundo real, na Centaurus todas as mulheres são lindas, gostosas, se interessam por você e querem partir para os “finalmentes” sem maiores delongas. Um sonho, não?
Daniela, uma “mignon” cheia de charme e com seios salientes, me avisa que está na “hora do queijo”. É quando as mulheres mais gostosas da casa se livram do uniforme padrão, e, só de calcinha, partem para o palco, onde dançam agarradas aos balaústres. Dura pouco, mas tempo suficiente para que, em pleno show, as demais apalpem os freqüentadores, deixando o ambiente ainda mais propício ao sexo. Mais tarde ainda rolaria um show com um cantor desses de shopping center, mas o repertório é quase o mesmo de antes.
No térreo ficam as saunas seca e a vapor, uma mini piscina e a sala de massagens. Massagem aqui é um negócio sério, e o encarregado é um senhor com um currículo que vai desde a Polícia Militar, passando por clubes de futebol até outras casas semelhantes. Está na Centaurus há 14 anos. Mas, lógico, não é esse o compartimento mais freqüentado da casa.
Lá em cima, com o avançar da hora, algumas meninas ficam mais atrevidas. É assim que conheço Paloma, uma goiana com cara de fatal que já viveu em Luxemburgo e parece mais a fim de conversar. Sem me dispensar carícias, entretanto, e me deixando em ponto de bala, ela entrega o horário de trabalho, que varia, mas em geral dura oito horas (a casa funciona das 16 às 2h), e que, muitas vezes, sua atividade funciona como a de uma psicóloga, não no exercício da conquista, mas para consolar clientes em crise nos seus relacionamentos. “Às vezes vamos para a cabine e só rola bate papo”.
Quando vai chegando a hora de fechar, Tia Lea, a terceira gerente, começa a cuidar de tudo, e até a proprietária do estabelecimento, uma mulher de meia idade e corpo miúdo, aparece para dar uma incerta e conversar com alguns fregueses. Depois de umas quatro horas, invicto, mas já com algumas cervejas no currículo, ainda troco telefones (de memória, claro) com minhas novas amizades antes de ir embora. Do lado de fora, a pacata Rua Canning parece um grande de pool de taxistas. É que as meninas saem dali com a féria do dia anterior (em dinheiro vivo) e não podem se arriscar.
Nota: segundo consta, o texto publicado foi bem menor que o encomendado, já que os editores juntaram várias matérias semelhantes de outras cidades.
"sua atividade funciona como a de uma psicóloga, não no exercício da conquista, mas para consolar clientes em crise nos seus relacionamentos".
Psicólogo não consola ninguém, pô!
Mas a matéria é realmente muito interessante.
Gostei da matéria.
Muito boa matéria . E por que não dizer uma boa propaganda já que fiquei , digamos , excitado em conhecer essa casa .