Rock é Rock Mesmo
30 de março de 2006
O rock e o barulho no rock
A palavra barulho, no mundo do rock, te lembra o que? Atravancado por este único vocábulo, nosso colunista falou, falou e não disse o que era pra dizer.

Meus amigos, a dança está na moda. Quem canta os males espanta. Quem dança os espanta também. Digo isso por experiência própria. Como não danço, meus males estão todos aqui, ao redor. Tenho convivido com eles. Dia após dia. Às vezes são até legais. Mas se são males, os diabos devem ser exorcizados. Ou não. Conviva com eles; durma-se com um barulho desses.

Barulho. Eis uma palavra interessante. Tem gente quebrando pedra – literalmente - aqui do lado, mas o horário da quebração foi combinado, porque ninguém agüenta o barulho cedo demais. Eu agüento. Barulho, para mim, é uma palavra que soa bem. Porque não existe rock sem distorção, sem esporro, sem barulho. Dizem que existe, mas isso é falso. A alternativa verdadeira é a da distorção, do barulho. Que o diga Dick Dale, o cara que explodia os amplificadores que o engenheiro de som Leo Fender construía, nos anos 50, até ele encontrar um modelo ideal. Por isso consideram Dale o pai do heavy metal. Mas isso é outra história.

Quem também gosta de barulho é Marcelo D2, já é clássico o pedido dele nos shows: vamos fazer barulho! No momento, ele está em estúdio, finalizando as gravações do terceiro álbum, depois do sucesso formidável de “A Procura da Batida Perfeita”. D2 agora é um artista com sucesso de grandes proporções e a responsabilidade de um novo disco nessas condições envolve investimentos, granas, patrocínios e estratégias. Ele é cuca fresca, mas certamente nunca deve ter sido tão pressionado. Nem no episódio da detenção do Planet Hemp inteiro por apologia às drogas. Vamos ver o que vem por aí.

“Barulho – Uma Viagem Pelo Underground do Rock Americano” é o nome de um livro pioneiro para o rock nacional, escrito por André Barcinski, que hoje produz eventos ligados à música e que, por esses dias, deve estar às voltas com o Campari Rock. Encomendaram a ele uma série de reportagens sobre o novo rock americano para ser publicado na revisa Bizz, isso lá no início dos anos 90, quando o tal grunge se esboçava, mas outras bandas também se destacavam. Barcinski conversou com todas elas, de Nirvana a The Cramps, de Ministry a Mudhoney, de Red Hot Chili Peppers a Ramones. A coisa ficou tão legal que ele resolveu publicar tudo num livro, mesmo num país – ao menos à época – pouco acostumado a consumir livros de rock. O resultado é excelente, com textos e fotos de Barcinski e um acabamento gráfico espantoso. Foi lançado originalmente pela Editora Paulicéia, e deve estar fora de catálogo. Mas se você encontrar um exemplar, em algum sebo, pode levar. Sem erro.

Agora, barulho, barulho mesmo, eu tive contato quando conheci o Napalm Death, através do primeiro disco, “Scum” (algo como escoria, ralé). Adquiri o vinil importado pelo correio, de uma loja de São Paulo. No catálogo xerocado dizia: ultra-thrash. Numa época em que nós brasileiros nos embrenhávamos no thrash metal via Sepultura, esta qualificação me pareceu bastante interessante. E o disco de thrash não tem nada, mas fundou um dos subgêneros mais extremos da música pesada, o grindcore, de onde sairiam mais tarde o splatter, o crust e por aí afora. E dessa formação do Napalm, todos já saíram, ou seja, o Napalm Death é um raro caso de banda sem formação original, para desespero dos jornalistas de última hora.

Mas não foi só no metal e no grunge (que no início era metal) que se fez barulho do bom. No rock industrial, barulho é lei, é regra. O alemão Einstürzende Neubauten que o diga. Além de usar, em pleno palco, correntes, pontes rolantes carregando brita e outras artimanhas, chegou a gravar um vídeo inteiro (“Mensch”) numa oficina mecânica, incluindo a ruído tirado de tornos, calandras e outros equipamentos. Uma outra subdivisão do rock chegou se chamar simplesmente de “noise” (barulho), porque as bandas ali reunidas só faziam isso mesmo: barulho. Cabaret Voltaire e Sonic Youth (das antigas) que o digam.

Vejam como são as coisas, meus amigos. Foi só escrever a palavra barulho, ao acaso, no primeiro parágrafo, que desandei a falar de tudo que me veio à cabeça relacionado com o esporro. E com o rock, claro. Mas o assunto não era esse, admito. Assim, me sinto como músico de uma banda qualquer que, ao responder as mesmas perguntas feitas por jornalistas genéricos, sempre dizem que as coisas saíram naturalmente, nada foi forçado, tudo foi ao acaso. Que, no início, pensavam uma coisa, mas acabaram fazendo outra, tudo em nome da arte. Além de moderno, hoje dou uma de artista também.

Como disse, o assunto não era esse, não. Nem era um. É tanta coisa no menu que eu não sei o que comer. A bola da vez (eita terminho chumbrega) é o Luxúria, que está com o disco de estréia nas lojas e tem tudo para crescer no mercado. E digo isso não só pela estrutura por trás da banda – se é que vocês me entendem – mas porque faz muito tempo que não vejo uma banda tão boa, com tantas músicas tão colantes como essa. Já disse e repito: Luxúria e Moptop são, de longe, as grandes revelações do rock nacional dos últimos tempos. Mas isso é papo para uma outra coluna, que essa aqui, embarulhada que só ela, já deu o que tinha que dar.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

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