Rock é Rock Mesmo
23 de março de 2006
O novo está no consolidado, não no vendaval de raipês
A velocidade de informação dos tempos pós-Internet determina que tudo deve ser tão rápido que, num piscar de olhos, já passou. Nem sempre foi assim.

Meus amigos, em rio que tem piranha jacaré nada de costas. E olha que a maré não está pra peixe. Mesmo porque tá ruim pra todo mundo, e pra mim não está pior. Minha irmã socióloga sempre diz que, para cada situação, há sempre um ditado que se encaixa. É uma forma de confortar as pessoas e dar-lhes um pouco de esperança. (Não, essa não é uma coluna pessimista). Como sou adepto do clichê e a ele me rendo, também gosto de colocar essas frases feitas por aqui. O óbvio ajuda a gente a raciocinar melhor e organizar as idéias pra falar as coisas pra vocês.

Outro dia estava no ponto de ônibus e me sentia em Londres. É que os caras que mandam aqui do Rio instalaram pontos de ônibus altamente globalizados, iguais aos de lá. A única diferença é que na capital da Inglaterra eles colocam a estrutura ao contrário, de costas para rua, imagino que para proteger as pessoas do vento frio. Londres é legal, pena que uns reaças lá estão acabando com aqueles clássicos ônibus vermelhos de dois andares, por motivo de segurança. Mundo politicamente correto é isso aí. Mas o que esperar de um povo que é evoluído, e mesmo assim decidiu por abaixo o espetacular estádio de Wembley? Que não me venham, depois dessa, querer demolir o Maraca. Por que aí o bicho vai pegar.

Mas falava do ponto de ônibus. Era Ipanema e eu não sabia se pegava o 583, via Copacabana, ou o 570, via túnel. Cada um passa numa avenida, e nessa indecisão, avistei, ao longe, meu amigo Moderninho de Plantão. Ando meio míope, e mesmo de óculos não tive certeza se era ele ou não. O sujeito de perfil esbelto vinha de braços dados com uma morena de parar a Central. Uma coisa que não fica bem para um cara pra frentex como meu amigo - coisas da modernidade. Tanto que, logo, ele se despediu do avião e apareceu no ponto onde eu estava. Ia para Botafogo.

Encontrar com Moderninho de Plantão, para mim, é um evento de extrema significação. De um lado, o contato com coisas que são tão novas que ainda nem foram criadas. De outro, ele faz a gente se sentir um ancião de dez mil aos atrás. Por exemplo. Passados os cumprimentos cordiais, inquiri:

- E aí, rapaz, curtindo os Raconteurs?
- Não gosto muito essas coisa antigas, respondeu
- Mas a banda ainda não fez nenhum show ou música, corei
- É que o hype já passou. A nova onda agora é...

Ele falou um nome de uma banda lá, mas a essa altura eu já não ouvia mais o que ele falava. Pensava, taciturno, nas voltas que o mundo dá. Já estava dentro do 570, quando ele faz aquela voltinha pela Fonte da Saudade pra poder pegar o Rebouças. Dizem os mais vividos que com passar dos anos os anos passam mais depressa. Eu tremo na base quando algumas coisas completam um ano. Depois dez. Vinte então... Mas o negócio agora, quando o assunto é bandas novas, é voraz: a fábrica de raipês não para de funcionar. Eu ia dizer que não ouvi nada do Racounters, quando voltei a me dar conta que, segundo consta, eles não têm músicas ainda. Nem sei se eles são ingleses ou americanos – a Internet ainda não se decidiu, mas o negócio é raipar. Até verbo eu ando criando ultimamente. Pobre Olavo Bilac, deve estar se remexendo a sete palmos do chão.

E o rock? E o rock? Deve esta perguntando o leitor de longa data que vem pra esse nicho virtual pensar o rock com a gente. Aqui do meu lado esquerdo – a mesa é em “L “ – tem umas pilhas de discos das mais diversas procedências, e eu ando meio atrapalhado com eles. No topo de uma delas, a mais próxima da beirada da mesa, está “Sibéria”, o novo do Echo And The Bunnymen. Já ouvi umas duas ou três vezes, é um disco e tanto. Vou falar dele aqui mais tarde, com mais atenção. Mas citei o Echo para exemplificar o que era uma banda de vanguarda quando os tempos eram normais. A banda aparecia, gravava discos, fazia shows, mostrava algo de novo e ia galgando espaços, passo a passo. Com músicas. Boas músicas. Com shows. Bons shows. Quem não se lembra dos shows do Echo no Brasil em 1986? Só quem não foi. Quem tava lá, no Canecão, no Rio, ou em São Paulo (não lembro se foi no Projeto SP) sempre cita esse show em qualquer top five da vida.

Hoje, não. Quem se lembra do Libertines? Ok, o show – ao menos o do Rio – foi pavoroso. Mas mesmo que fosse o máximo, já teríamos esquecido, porque é preciso gostar do novo, do mais novo. E aí tem Strokes, com data de validade até o próximo Tim Festival, o festival que é uma bênção. A velocidade de informação determina que é preciso renovar, sempre. Pensando isso dentro do 570, descendo a Rua das Laranjeiras, me sinto num mundo cercado de milhares de Moderninhos de Plantão. A cena é tão horripilante que faz a imagem de Patton virar o arco íris de Volta Redonda. Assusta tanto que perco o ponto e salto em frente ao Baixo Alice. Aproveito para comprar pão numa padaria em que o francês é melhor. Duzentos gramas de queijo minas, cem de lombo defumado com etiqueta light. Esse tipo de coisa nunca muda. Com ou sem raipê.

Disse isso tudo para falar, por fim, que ante ao rebento, prefiro, em princípio, o consolidado. Envergonha-me aqui proclamar o óbvio, mas o que já se estabeleceu o fez porque se renovou uma, duas, três, uma pá de vezes. No rock (e na música pop, diria) ninguém se estabelece pela repetição. Quem não se renova se estrepa, ou até vai em frente, mas como uma função constante. F(x)=y. E repito. O novo, hoje, no mundo do rock, está no consolidado, não no vendaval de raipês que ora se apresenta. Pensei isso no show do Santana, sábado passado, na Praça da Apoteose, rendida ao rock. E prometo desenvolver. Depois. Senão tiro a graça d’O Homem Baile.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

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