
Se para muitos soa como uma estratégia de marketing – e não deixa de ser – para outros só o título do disco já desperta a curiosidade para saber se os cinco alemães conseguiram captar o clima dos “Keepers” originais depois de quase vinte anos. Mais ainda. Se ao menos este álbum, duplo, é melhor que os dois anteriores, que enveredaram ou pelo caminho da repetição (“Rabbit Don’t Come Easy”) ou da ousadia estéril (“The Dark Ride”).
Íntimo entre os brasileiros, desde que pisou aqui pela primeira vez, no Monsters of Rock de 1996, só no Rio o Helloween já tocou três vezes (uma abrindo para o Iron Maiden) e há duas turnês não deixa de marcar ponto por aqui. Às vésperas de mais um show na Cidade Maravilhosa, conversamos como o baixista Markus Grosskopf, remanescente da formação clássica, ao lado de Michael Weikath. Grosskopf é um cara de poucas palavras, mas não hesitou em reconhecer que o Helloween hoje é “dirigido” por Weikath e Deris, que eles pensaram, sim, em chamar Kiske e Kai Hansen para tocar nesse novo “Keeper”, e outras artimanhas do Helloween dos nossos dias.
Rock em Geral: Vocês vão tocar no Rio já pela quarta vez, já se consideram familiarizados com o público?
Markus Grosskopf: O público é muito legal, eles realmente gostam de ir aos shows. Da última vez eles cantavam tudo, antes de entrarmos e quando estávamos no palco. As lágrimas caíam os olhos, todos cantavam juntos, não havia ninguém no público que não estivesse cantando. Era como se fosse uma grande comunidade.
RG: Sobre o repertório do show, o que você pode nos adiantar?
Markus: É difícil fazer surpresas hoje, porque em geral o set list acaba aparecendo na Internet, não há nada que escape, não há mais segredos. O show funcionou na Europa e na Oceania, então deverá funcionar no Brasil também.
RG: Vocês pretendem tocar muitas músicas novas?
Markus: Tocamos algumas músicas novas e outras antigas também. É uma mistura, esperamos que as pessoas gostem.
RG: Com mais de vinte anos de carreira, vocês em geral mudam bastante o set list?
Markus: Não, só mudamos de uma turnê para a outra. E não é fácil, sempre brigamos porque um quer tocar uma música, e um outro quer tocar outra coisa. Nunca é fácil, é muito complicado. Mas no final das contas, tentamos sempre fazer o melhor, dentro daquilo que achamos que é o melhor e que as pessoas vão gostar.
RG: Sobre o novo álbum, como vocês decidiram fazer uma seqüência dos dois clássicos álbuns da banda?
Markus: Aconteceu depois que gravamos o disco anterior, durante a turnê essa idéia veio à tona. Foi uma idéia do Mike, com essa formação ele disse que seria fácil lembrar como foram feitos os “Keepers”, fazendo um novo “Keeper”. Era uma brincadeira, mas nós começamos a pensar sobre isso, e alguém disse: por que não tentar? Na verdade não foi um processo muito fácil, mas tentamos e tivemos que nos aproximar daqueles álbuns, porque vínhamos fazendo tipos de músicas diferentes. Você tem que limpar a sua cabeça daquilo que você sabia antes, e fazer algo totalmente diferente, desde as músicas até os arranjos.
RG: Você gostou dessa idéia logo de cara?
Markus: Tivemos dúvidas no começo, mas conversando sobre o assunto, demorou só um pouquinho para nos acostumarmos com a idéia. Mas depois que começamos fomos fundo em todo o processo.
RG: Em algum ponto vocês temiam fazer um disco que não estivesse à altura dos “Keepers” originais?
Markus: Não, se você tiver medo não começa nada. Com medo de alguma coisa você não vence nesse ramo. Sempre é preciso assumir riscos para ir em frente, senão você se torna chato. E também a idéia era fazer algo bem diferente dos “Keepers” originais, é por isso que temos música como ”Occasion Avenue”. São músicas diferentes das que estão nos “Keepers” 1 e 2. Porque na verdade nós não queríamos soar como os “Keepers” 1 e 2, ao menos foi o que tentamos fazer neste álbum.
RG: Por que optaram pelo título “The Legacy” ao invés de simplesmente “Keeper Part 3”?
Markus: Seria muito óbvio chamarmos o disco de “Keeper Part 3”, todos esperavam por um título assim, então achamos que seria mais legal colocar “The Legacy”, porque é, de fato, um legado, se você pensar nos “Keepers” 1 e 2.
RG: Vocês tentaram repetir, de alguma forma, o clima das gravações daquela época?
Markus: Sim, tentamos captar um tipo de vibração que os ”Keepers” tiveram naquela época, mas não buscamos a mesma atmosfera ou algo do tipo. Sabíamos que tínhamos que criar uma atmosfera que ajudasse a compor músicas com muitas variações. Com o nosso know-how não precisamos repetir nada, mas sim tentar fazer algo novo, o que na verdade não é um processo tão fácil.
RG: Vocês pensaram em chamar Kai Hansen e Michael Kiske, que gravaram os “Keepers” originais?
Markus: Apesar de falarmos sobre isso, o grande desafio seria fazer este disco sem eles, para mostrar que poderíamos fazer uma coisa do mesmo tipo, muito boa, sem a ajuda de integrantes que já deixaram a banda. Esse era o desafio. Até pensamos em colocar um solo ou um trecho vocal com eles, mas durante o processo de composição e gravação vimos que não precisávamos de nada. Achamos que sairia um trabalho melhor sem eles.
RG: O disco é duplo. Vocês planejaram isso ou viram que tinham bastante material para dois CDs durante o processo?
Markus: Tínhamos a idéia de fazer músicas bem longas, e seria fácil fazer só uma música grande e chamá-la de “Keeper”, mas a idéia era complicada e decidimos por uma outra música longa, colocando-a num disco duplo, como fazíamos antes.
Enquanto Michael Weikath comanda as ações, Markus Grosskopf tem músicas rejeitadas
RG: Alguma pessoas estão chamando os discos de “Keeper” partes 3 e 4. Você acha que os dois discos são diferentes entre si?
Markus: Claro que são diferentes, soam bem diferentes, e foi o que nós estávamos procurando. Eu não sei precisar se as músicas são mais isso ou mais aquilo, mas elas têm algo de diferente. Se você comparar “Occasion Avenue” com “King For a 1000 Years”, eles são bem diferentes.
RG: É muito difícil fazer uma música desse tamanho, de 14 minutos?
Markus: É uma forma diferente de se compor uma música, você tem que botar todos os trechos numa mesma atmosfera. Nesse caso, eu apareci com a primeira idéia dessa música, tocamos juntos e o Andi captou a “vibe”. Então começamos a fazer parte por parte e a juntá-las. Foi um trabalhão danado.
RG: Na música “Born On Judgment Day” você faz uma espécie de solo bem no meio...
Markus: Na verdade essa é uma música toda do Mike, foi ele que a fez desse jeito. O Mike sempre distribui partes para os músicos fazerem e encaixarem nas músicas, como desafios para cada um, dizendo para tentarmos isso ou aquilo.
RG: Em geral, no passado os discos tinham mais músicas suas...
Markus: Bem, você tem que ver a coisa como um todo e ver o que aparece ou não para colocar num disco.
RG: Você acha que hoje Andi e Mike é que dão as cartas no Helloween?
Markus: De alguma forma sim, porque é o Mike que sempre tem aparecido com tantas músicas, e são músicas boas e que se encaixam nos álbuns. Se é justamente o que precisamos, então vamos em frente.
RG: E você, continua aparecendo com músicas de sua autoria?
Markus: Claro, é como uma equipe, vemos que tipo de música precisamos.
RG: Teve músicas rejeitadas nesse disco?
Markus: Eu escrevi mais músicas, mas não cabiam nesse trabalho. Talvez as use num álbum do Shock Machine (grupo solo de Markus, que tem um álbum lançado), esse projeto não morreu. Mas preciso de mais tempo para trabalhar nele, fico muito preso aos trabalhos do Helloween e suas turnês, não é fácil arranjar tempo para outras coisas.
RG: Você e Michael são os mais velhos e estão na banda desde o começo. Como você vê o Helloween hoje em dia, olhando toda a trajetória da banda?
Markus: É claro que hoje a banda é diferente, pelo simples fato de termos três integrantes diferentes. A forma de compor é diferente, a forma de perceber as referências é diferente... Você pode imaginar que três integrantes numa banda com cinco é uma grande mudança. E o mundo mudou muito, não para uma coisa pior para nós, mas para uma coisa diferente.
RG: É fácil trabalhar com os caras mais novos na banda?
Markus: Como te disse, fazer um “Keeper” nunca é fácil. Fazer um álbum, aliás, nunca é uma coisa fácil. Todos fazem suas partes e se doam de corpo e alma, mas há muitas músicas e nem todas entram no álbum. Às vezes você tem que considerar aspectos técnicos e pessoais para se chegar a um resultado, o que nunca é fácil. Mas de qualquer forma você tem que aprender a trabalhar em equipe quando está tocando numa banda.
RG: Em geral vocês se preocupam em não tornar a banda algo repetitivo de disco para disco?
Markus: Tentamos nos prevenir para não nos repetirmos, e eu acho que temos uma maneira de não cair nessa armadilha, porque somos bons compositores e é isso que faz a diferença numa música, além das diferentes idéias de arranjo que temos. Porque quase todo o tempo todos estamos fazendo músicas e juntando idéias. Em geral as bandas têm um ou dois compositores, e no Helloween todos contribuem. É o que é interessante em nós.
RG: Que tipo de música você ouve hoje, além de heavy metal?
Markus: Também ouço blues à beca, às vezes gosto de ouvir os álbuns clássicos ou algo do gênero. Escuto punk, ainda adoro os Pistols e os Ramones.
RG: Como é trabalhar com o novo baterista, especialmente para você, como baixista?
Markus: Ele é novo na banda, mas já toca por muitos anos, foi justamente por isso que ele foi recomendado para o Helloween. E foi uma boa idéia, porque ele combina a técnica de tocar como a firmeza que o instrumento precisa. E é isso que precisamos nesse tipo de música, e por isso gostamos do trabalho que ele vem fazendo.
RG: Sobre a música “Occasion Avenue”, há uma gravação de uma estação de rádio o início, é uma espécie de volta às raízes?
Markus: Sim, talvez, é o legado... É uma mistura de todos esses acordes que tínhamos no passado, nesses dois álbuns, para dar um clima a esse legado.
RG: Sobre a vocalista da música “Lights of The Universe”, como você chegaram até ela?
Markus: Andi tinha essa bela música, e achamos que ficaria bem com vocais femininos, e dissemos: “por que não fazermos isso?”, já que nunca tínhamos feito no Helloween. E então chamamos Candice (Night, da banda de Ritchie Blackmore) e acho que ela fez um trabalho maravilhoso. Foi a primeira vez que colocamos uma voz feminina como principal, mas antes já tivemos vozes de mulher nos coros das músicas.
RG: Falando do álbum “Dark Ride”, ele não foi um típico disco do Helloween, e depois dele vocês voltaram o estilo de vocês. O que você acha desse disco?
Markus: Eu acho que é um disco muito bom, mas não é só um álbum feito pelo Helloween, tivemos produtores interferindo, empresários dizendo o que deveríamos fazer e assim por diante. Todos estavam um pouco sentindo interferências da gravadora, e de outras pessoas de fora do Helloween. Então esse disco não é cem por cento Helloween, embora seja um bom disco.
Deris, Grosskopf e Gerstner ao vivo em Bremen, Alemanha, em janeiro
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Entrevista massa, muito boa. Tudo que vem do Helloween é beleza pacarai