
Disse isso e já retifico. Eu também vivo a elogiar Ronaldinho Gaúcho. Ele é craque dos bons. Hábil, perfeito nos passes, ágil, um clássico craque brasileiro, na acepção do termo. Por isso encanta o mundo todo, jogando, evidente, em terra de cego, mas isso pouco importa. Ronaldinho foi eleito por duas vezes o melhor do mundo com muita justiça, muito embora haja uma forte pressão midiática que o impulsiona, e também considerando que a imprensa esportiva européia é algo lamentável – os caras entendem muito pouco de bola. Eu falo de bola, não só de futebol. Mas Ronaldinho é, sim, o melhor do mundo, e ficar aqui exaltando suas qualidades seria chover no molhado, o que não é bem o objetivo desta coluna.
Por isso mesmo a grande maioria da crônica esportiva mundial, incluindo nossos capiaus, e toda a torcida, o mundo, enfim, esperam que, com o Brasil favorito e campeão, Ronaldinho saia com o grande destaque da Copa, da epopéia do hexa. Ontem ouvi gente respeitável (e que eu respeito) fazer até uma comparação com Maradona na Copa de 86. Dizia o canhestro cronista que, assim como o Pibe levou a Argentina ao título em 86, Ronaldinho comandará o Brasil em junho, na Alemanha. Ele chegou até a dizer, se a memória não me falha, que Maradona participou de 12 doa 15 gols marcados pela Argentina naquela oportunidade, incluindo o mais bonito de todas as copas e um de mão – a famosa mão de Deus.
Desbancar essa colocação é fácil, a começar que a seleção de Parreira é muito melhor do que aquele horrível time argentino que Maradona teve que carregar nas costas. E, depois, que Ronaldinho, evidentemente, não é Maradona. Não vou me ater a esse tipo de comparação – foi o tal cronista quem sugeriu – mas sim ao Ronaldinho por si só. Disse que ele não vai ser o destaque do Brasil na Copa. E explico. Ronaldinho reedita o bom e velho jogador de clube. Aquele craque que arrebenta com a camisa de seu time, mas quando veste a camisa da seleção, não consegue o mesmo desempenho. Isso, aliás, é fato comum no passado. Exemplos? Zico é o maior deles. Ídolo no Flamengo, mas um azarado infeliz na seleção. Outro? Manga, a muralha botafoguense dos anos 60, e que deu um título de campeão brasileiro ao Internacional em 1975, fracassou na seleção. Mais um? Raí, que ganhou tudo pelo São Paulo, e, na seleção, em 1994, foi barrado pelo operário Mazinho. Sempre foi assim: há jogadores de clube e jogadores de seleção. Perguntem para a Enciclopédia.
Ronaldinho, postulo, é um moderno jogador de clube. Eis a mais pura das verdades: o cabeludo dentuço nada joga com a amarelinha. Ou, por outra, só às vezes joga. Digo isso e já provo. Na Copa de 2002. Todo mundo não se cansa de inflar a excelente participação dele na peleja contra a Inglaterra. Fez uma jogada sensacional, trincando a coluna de um inglês e deixado Rivaldo à mercê do belíssimo primeiro gol. Fez, de falta, um gol do além, que nem ele sabe como conseguiu (mas ok, a sorte é mérito dele) e depois foi expulso infantilmente. Se a Inglaterra não se acovardasse e o Brasil tivesse saído de campo derrotado, Ronaldinho e Lúcio amigão seriam os vilões. Para mim, os destaques desse jogo foram o decisivo Rivaldo e a retranca de Felipão, que, depois dos 2 a 1, amarrou o adversário. No restante da Copa, o que fez Ronadinho? Praticamente nada. Foi poupado do jogo contra a Costa Rica, e não jogou, por conta da expulsão, na semifinal contra a Turquia. Jogou só cinco dos sete jogos. Pouco, não? Por isso os destaques daquela Copa foram Ronaldo (esse sim, jogador de seleção) e o, repito, decisivo Rivaldo.
A Copa das Confederações do ano passado. Ronaldinho jogou até bem, mas decisivo mesmo foi Adriano, que com suas sapatadas abriu caminho para o título brasileiro. Título, aliás, manchado por um empate com o Japão e uma derrota para o México, equipes que figuram, com boa vontade, no segundo escalão do futebol mundial. Nem vou voltar às Olimpíadas e 2000, que lá, mesmo sem Ronaldinho fazer grande coisa, o culpado foi o Luxemburgo.
Há gente que, se de certa forma concorda comigo, discorda do motivo. Acham que Ronaldinho não se acerta na seleção – ou se acerta pouco – por culpa do jeito que a seleção joga. Culpam, inclusive, o treinador. Dizem que Parreira trava o craque, que o coloca num lugar em que ele não consegue jogar. Ora, meus amigos, alguém acha que Parreira faz isso? Um cara que já trabalhou até com Pelé, que já foi vitorioso e derrotado com tudo que é sorte de craques e pernas de pau, será que é ele quem trava o craque? Primeiro que craque, sem dúvida, é intravável. E, depois, é o craque que tem que buscar seu espaço. E Ronaldinho, como tal, tem que encontrar o dele. Senão o faz, mesmo sendo o melhor do mundo há duas temporadas, é por uma única razão: trata-se de um épico jogador de clube. E, como tal, jamais se consagrará na seleção, e não reeditará o Maradona de 86, mesmo porque, repito, a seleção brasileira é muito melhor do que aquela da Argentina em 1986.
Até a próxima, que Ronaldinho vai amarelar!!!