
O papo, entretanto, foi mais além. Não é sempre que se conversa com o cara que, à frente do Therion, foi o precursor do encontro do heavy metal com a música erudita. No começo, era até o death metal que melhor definia o som praticado pelo Therion, e a inclusão de sutis mudanças causou certo estranhamento por parte de público e crítica, mas aos poucos a boa música composta por Johnsson – dizem que ele faz mais de 50 para cada disco – prevaleceu. Hoje o Therion é considerado o fundador e maior representante de um importante subgênero do metal. Na entrevista, entretanto, Christofer Johnsson postula que nada mudou; que sua intenção de fazer música sempre foi a mesma; e que parece que foi ontem que tudo começou.
O mais importante é que todos no Therion estão no estúdio caseiro dele, produzindo demos que serão a base de um novo álbum, a ser lançado até o final do ano. Nesse meio tempo, além desse 2 em 1 assim, assim, a banda deve lançar uma super caixa com nada menos que quatro DVDs e dois CDs. Confira tudo isso e muito mais com o próprio chefão:
Rock em Geral: Por que vocês decidiram relançar esses dois álbuns juntos?
Christofer Johnsson: Nós temos 12 discos lançados até hoje, e eu estava pensando na situação dos novos fãs. Se você estivesse descobrindo o Therion hoje, ia querer comprar todos os discos. Doze discos é muita coisa para comprar, então pensei que seriam suficientes os lançamentos mais importantes. Como esses dois álbuns têm muitos covers, músicas gravadas ao vivo e músicas para trilha sonora, são os menos importantes entre os lançamentos do Therion. Eu pensei em colocá-los juntos para torná-los mais barato para os fãs. A reação foi algo bem diverso, pessoas em geral gostaram da idéia, mas houve uma reação negativa ao fato de algumas das faixas não entrarem nesse lançamento. Eu vinha pensando em retirar as músicas ao vivo, porque esse não era um álbum ao vivo, e essas músicas, mais tarde, saíram nessa versão. Consideramos lançar os discos na íntegra, mas teria que ser em dois CDs, o que ainda não foi descartado.
RG: Como você escolheu as músicas que entrariam e quais ficariam de fora?
Christofer: Eu só removi a parte que eu achei que não era tão importante: as trilhas de filme, as faixas ao vivo do “Crowing Of Atlantis”... Porque eu acho que elas não seriam mais necessárias, já que temos hoje um disco ao vivo até com uma melhor qualidade de gravação.
RG: Vocês também estão revirando o baú para o lançamento de uma caixa com quatro DVDs...
Christofer: Serão quatro DVDs e eu tenho certeza que eles serão absolutamente impactantes. Eu queria fazer cinco discos, mas a gravadora achou que seria muito ter cinco DVDs de uma só vez. Então tivemos que ajustar algumas coisas e cortar algum material para esses quatro. Eles contêm tudo o que você pode imaginar. São dois shows ao vivo, na íntegra, um gravado no Wacken Open Air, na Alemanha, e outro com duas horas na Cidade do México. Tem todos os videoclipes que nós já fizemos, cenas de backstage, cenas no estúdio gravando bateria e outras coisas de pós-produção, e também orquestra. Tem uma seção histórica, que é uma coletânea de bootlegs, alguns que você pode até achar na Internet, e outros que são realmente raros, impossíveis de se achar. A idéia é mostrar cada trecho do progresso do Therion, desde 1989, quando éramos uma banda muito nova. Tem um dos primeiros shows que fizemos em Estocolmo. E você pode acompanhar o progresso e as diferentes fases da banda, como ela cresceu até tocar em lugares grandes, pode ver os fãs enlouquecidos na América Latina. Tentamos escolher músicas desses shows antigos que nós nunca mais tocamos. E há um disco que nós consideramos mais como um disco bônus, com nós mesmos com câmeras na nossa última turnê, em diferentes países.
RG: Tem algo gravado no Brasil?
Christofer: Na verdade eu não me lembro, são tantos shows... Há em geral dois motivos para não incluirmos algo. Às vezes, durante o show deixávamos a câmera com um fã, e as imagens não têm boa qualidade e não pudemos colocá-lo no DVD. Às vezes, quando gravam muito perto do PA, ficava um ruído horrível. E às vezes havia equipes de TV local filmando que prometiam nos enviar cópias e nunca mandaram nada. Não lembro se este foi o caso de São Paulo, mas aconteceu isso na Turquia. Eu até deixei o endereço da minha casa e ninguém me mandou nada. Então a Turquia não está no DVD porque o pessoal da TV deu mole. Foi o caso de outros lugares também. Somos suecos, e se dissermos algo, fazemos. Se dissermos, “vou te ligar na segunda”, eu ligo na segunda; mas em alguns países, como a Turquia, eles só falam as coisas para serem educados, mas não fazem. Eles falam: “ok, ligamos na semana que vem”, e nunca ligaram... É uma questão cultural.
RG: No total, são quantas horas de DVD?
Christofer: Bem, cada disco passa de duas horas. Literalmente você pode colocar três horas num disco, mas você também precisa espaço para os menus, que são bem legais, tem um bom visual gráfico. E também não quisemos comprimir tanto, para não perder qualidade sonora. Eu diria que, no mínimo, são umas nove horas.
RG: E sobre um disco novo, vocês pretendem lançar um logo?
Christofer: Não estamos em estúdio ainda, estamos na fase de pré-produção, que fazemos no meu estúdio caseiro, escrevendo as músicas, ajeitando uns arranjos, trabalhando em músicas novas e coisas do tipo.
RG: Todos da banda ou só você?
Christofer: Todo mundo, gostamos de fazer a pré-produção juntos. Fazemos uma versão demo do disco antes de gravar, como um mapa. Senão você entra na floresta e se perde. Fazer um álbum é tão complicado que nós precisamos fazer um mapa antes, para sabermos exatamente como será, como um protótipo de um disco, então sabemos exatamente como tudo deve ser feito, gravado. É o que estamos fazendo agora. Vamos levar um certo tempo para fazer isso, não acho que terminaremos antes de setembro, e também haverá férias, não tiro férias há anos.
RG: Ou seja, disco novo só o ano que vem...
Christofer: Espero que saia ainda nesse ano. Eu diria que lançamos perto de setembro, antes do Natal, mas isso não é realista, o que vai acontecer é outra história. Você nunca sabe, talvez terminemos logo, talvez demoremos.
RG: Você já tem o título, algumas músicas...
Christofer: Não, costumamos não falar sobre os detalhes antes de fazer tudo certinho. Eu só posso te dizer que o material está mais progressivo, mas temos uma tradição de não revelarmos detalhes nessa fase.
Fazer um álbum é tão complicado que precisamos fazer um protótipo de um disco, então sabemos exatamente como tudo deve ser feito
RG: Você costuma compor muitas músicas antes de gravar um disco. Quantas músicas você tem para este novo disco?
Christofer: Sempre temos muito material para cada novo álbum. Poderíamos ter feito uns cinco álbuns, quando fizemos o anterior. Se tivéssemos tempo, e nada para fazer, gravaríamos tudo em cinco álbuns. Na verdade muitas das músicas que nós não usamos eram músicas muito boas, mas soavam demais como as coisas mais antigas, tipo “essa poderia estar no ‘Vovin’ (clássico disco do Therion, de 1998)”. Mas é mais divertido usar outra música que tem algo de novo, é mais desafiador para gravar. É melhor gravar um disco com coisas novas, que soe de uma forma diferente. Temos toneladas de músicas, músicas muito boas que mereceriam um outro disco, mas elas soam muito como outras fases antigas do Therion, então não usamos.
RG: No começo vocês tocavam death metal, mas agora vocês misturam metal com música erudita. Olhando agora, de longe, como você vê essas mudanças na banda?
Christofer: Eu tenho muito orgulho dos discos dessa época, tínhamos poucos recursos, não tínhamos muito tempo no estúdio nem experiência. Eu não vejo essas mudanças como você fala, porque a mentalidade, a intenção com a música, isso não mudou tanto, foi sempre a mesma. Se você olhar para esses discos antigos, você deve lembrar que no primeiro álbum só tinha músicas compostas nos anos 80, e foi gravado em 1990 e lançado em 1991. Tínhamos uns pequenos teclados em duas músicas. Nenhuma banda de death metal usava teclados. No segundo álbum já tínhamos vocais femininos, muitos teclados, referências à música árabe e coisas do tipo. E as pessoas diziam que era uma coisa muito estranha. Hoje é algo comum, porque todos usam o tipo de coisa que fazíamos. Eu lembro do disco do Celtic Frost, “Into The Pandemonium”, a resenha que eles receberam na Metal Hammer (revista inglesa) foi um zero de um machado, e eu pensei: que porra é essa? No terceiro álbum usamos muito do heavy metal clássico os anos 80, e isso num álbum de death metal. Ninguém tinha feito isso. Hoje temos o In Flames que faz isso o tempo todo e até inventaram um rótulo (death metal melódico), ninguém acha estranho. Então nossa intenção de fazer música foi sempre a mesma, desde o início. O jeito de nós pensarmos em como fazer a nossa música é o mesmo daquela época. Apenas fazemos o álbum que temos vontade de ouvir, fazemos tudo o que gostamos. Naquela época ouvíamos mais death metal do que música erudita, mas passamos a ouvir de novo nossos próprios álbuns, álbuns de guitarristas solos, álbuns orquestrais e coisas to tipo. Isso tudo desenvolveu a banda, e se você ouvir cada álbum, um após o outro, vai ver uma evolução natural das coisas até chegarmos onde estamos agora. Não é como tocarmos death metal e de repente passamos a tocar “ópera metal”, é um progresso natural.
RG: E como compositor, o que mudou em você?
Christofer: Acho que a grande diferença, se olharmos para trás, é que eu escrevia música sob uma perspectiva de ser um guitarrista. Hoje, a maioria da música que eu escuto vem de outros instrumentos. Se você ouve muitas músicas diferentes, a guitarra não é tão importante, é só uma parte de um todo. A orquestra é que é importante. Claro que todos os instrumentos têm importância, mas em algumas músicas a guitarra é o que menos importa. A guitarra é um instrumento guia, e sempre terá sua importância, mas muitas vezes não deve se destacar tanto, mas apenas servir de base para outros instrumentos aparecerem. De outro lado, tudo é necessário, é como o baixo, em muitas bandas você não consegue ouvir o baixo por causa das freqüências, mas se você removê-lo, fica muito ruim.
RG: É mais fácil para você hoje fazer música do que era antes?
Christofer: É a mesma coisa, eu sempre tive facilidade em fazer música, isso nunca mudou. Se você escutar bandas que têm muitos álbuns, mesmo que elas se repitam, sempre dirão que o último álbum é o melhor, todo mundo no planeta dirá que o último do Saxon, Iron Maiden ou Judas Priest tem o melhor deles. O que eu digo é que muitas bandas têm um estilo típico, eles desenvolvem esse estilo tanto quanto podem, e fazem discos clássicos que são bons pra caralho. Mas aí eles se repetem de novo, fazem bons álbuns, mas sem nada de novo. Eu acho que desde que nós nunca tivemos um estilo típico, podemos seguir a direção que quisermos, o que inclui compor.
RG: Mas se você perguntar para alguém que tipo de música o Therion faz, ele dirá: heavy metal com música erudita...
Christofer: É uma forma de simplificar. Mas há muitas coisas, veja a música “Ship of Luna” (do álbum “Deggial”), por exemplo, onde está o heavy metal? Nela você ouve influências de Uriah Heep, a guitarra é tocada numa escala de blues. E há outras coisas dos anos 70. Se você pegar uma música como “Midgard”, do “Secret of The Runes”, onde está o heavy metal nessa música? Quase não há distorção na guitarra. A música “Lemuria”, do disco “Lemuria”, é como uma música de rock dos anos 70. Às vezes há muito de metal, certamente, mas você deve avaliar as músicas, não pode nem considerar os discos, porque alguns álbuns têm muitas coisas diferentes, desde a fase death metal.
RG: Como você vê o Therion no mercado hoje? Uma banda de primeiro escalão?
Christofer: Varia muito de país para país. Em muitos países da América Latina somos bem grandes, na Rússia também. Em todos da Europa Oriental somos bem grandes, atuamos como atração principal em festivais grandes. Em países como Alemanha, Áustria, Itália, França, estamos um passo antes de ser uma banda grande, nunca fomos headliners em grandes festivais, só em eventos menores. E há os Estados Unidos, onde não somos absolutamente uma banda grande, não vendemos muitos por lá. Só aparecemos nas revistas especializadas em metal. Muitas bandas tiveram altos e baixos em suas carreiras, e nós estamos há dez anos no mesmo nível e temos fãs muito fiéis. Não há surpresas nos discos que nos faça começar a vender muito. De outro lado temos um bom público que sempre compra discos e comparece, então a gravadora investe no nosso som.
RG: Você acha que existem razões particulares para vocês terem sucesso em um país e não no outro?
Christofer: No caso da Europa Oriental eles ficaram afastados da música do ocidente por muito tempo. Havia os Beatles e outras coisas bem grandes que aconteceram ao longo do tempo, mas em termos de heavy metal não havia muita coisa. Lembro que o Scorpions e o Uriah Heep eram os únicos que tinham tocado lá, depois o Metallica também, mas são bandas de grandes gravadoras, o que tornava as coisas mais fáceis. Em geral eles não tinham acesso a isso. Quando tiveram acesso, não tinham dinheiro, as grandes gravadoras não se interessaram nesse mercado, e aí as pessoas começaram a ouvir que quiseram, o que é uma coisa interessante. Na América Latina havia sempre lançamentos piratas, e agora estão legalizando o sistema e não há apenas a pirataria. Há dois lados de se enxergar isso, o ruim é que, claro, não se ganha dinheiro, não há controle, a baixa qualidade das gravações; mas no outro lado da moeda é que as grandes gravadoras não estão interessadas nisso. E as pessoas, por causa disso, podem escutar o que quiserem. O problema das gravadoras menores é a distribuição. Se você pegar o In Flames, eles são um grande sucesso lá, fazem turnês e levam 2000 pessoas a um show, mas os fãs não conseguem achar os discos nas lojas. A Nuclear Blast é muito grande na Europa, vende muitos discos. Esse é o outro lado da moeda, quanto mais o mercado musical é aberto, mais as pessoas se interessam por bandas diferentes.
RG: Por que você acha que o metal europeu não faz sucesso nos Estados Unidos?
Christofer: Uma das razões foi isso que eu te falei, e tem a ver com distribuição e com o controle da mídia e das grandes gravadoras. Se você só oferece Coca-cola e Pepsi para as pessoas, elas só vão pedir Coca-cola e Pepsi. Mas há as bebidas locais, não só o lixo químico americano. E a outra coisa é que é um país muito grande. Na Europa temos contato com pequenas distribuidoras e que fazem um bom trabalho. Nos Estados Unidos as coisas têm uma proporção muito grande, e, por exemplo, não há uma revista de metal em todo o território. Há várias e boas revistas, mas você não encontra em todo lugar. Na Suécia temos nove milhões de habitantes e duas revistas especializadas em metal que você pode comprar em qualquer lugar.
Tínhamos uns teclados em duas músicas. Nenhuma banda de death metal usava teclados
Eu achei uma merda.
Não há hoje no mundo banda alguma que se compare ao Therion. O fenômeno do "Gottemburg Sound" não é uma febre como Seattle. Metal não é Rock. Morte ao Rock 'n Roll, morte à cultura yankee.
Esses molequinhos criados com Toddy têm mais é que ficar em casa mesmo, assistindo MTV!