Rock é Rock Mesmo
16 de março de 2006
É banda que não acaba mais
O fácil acesso à mídia cada vez mais faz com que bandas ainda sem uma identidade consolidada gravem um disco e façam a tal da “divulgação”.

Meus amigos, no meu barraco fica assim de gavião. O mundo mudou tanto que está ficando cada vez menor, do tamanho de uma ervilha mesmo. E se o mundo é menor, tem cada vez mais gente e menos espaço. O sujeito viaja de ônibus para qualquer cidade mais próxima e encontra, no caminho um Brasilzão inabitado. Mas aqui, do ladinho, tem cada vez menos espaços. E cada vez mais gente. E banda que não acaba mais. Ainda bem.

Obcecado que sou pela modernidade, estava outro dia a vasculhar o orkut e suas comunidades, quando me deparei com uma colocação assaz interessante. Um ponto de vista no mínimo intrigante para quem, como eu, está sempre às voltas com o mundo da música, e, sim, é verdade, com esse tal de rock’n’roll. Não era, a despeito do tamanho, nada tão profundo, rebuscado ou fundado em sólidos alicerces. Na verdade, o personagem que escreveu o comentário naquele tópico sequer me convenceu, e eu próprio nem me lembro qual era o tópico. Só guardei uma frase, que dizia mais ou menos que o site Trama Virtual é o grande culpado pelo baixo nível do rock independente nacional.

O tal site foi criado, se a memória não me falha, em 2004, e lá qualquer banda pode, gratuitamente, disponibilizar tudo que tem: músicas para download, fotos, releases e o escambau. Rapidamente apareceram bandas aos borbotões e hoje existe lá (www.tramavirtual.com.br) talvez o maior arquivo da música independente nacional. É banda que não acaba mais. E todas de acesso gratuito para qualquer um que tenha computador. Ainda não é tanta gente como se imagina, mas é um bocado de gente.

Segundo o tal comentarista do orkut, justamente por abrir espaço para toda e qualquer banda, o Trama Virtual teria nivelado a coisa toda por baixo. Para ele, essa liberdade de acesso à mídia fez aparecer muito mais coisa ruim do que coisa boa, e teria nivelado tudo por baixo. Calma, olha a violência, diria PC Vasconcelos. Mas, de certa forma, vejo que o cara tem alguma razão. Não vou aqui bancar o reacionário e criticar o espaço gratuito cedido às bandas, muito ao contrário. Mas o fato irrefutável é que tem banda pacas. E se elas são muitas, tem mais bandas boas e também mais bandas ruins do que antes, seja lá de quem for esse conceito de bom ou ruim.

Muito antes de a Trama Virtual e o orkut existirem, eu mesmo já observava como é fácil montar uma banda, gravar um CD demo e sair por aí “divulgando”. O resultado é que as bandas chegam à uma gravação muito antes de chegarem a um bom estágio, porque pouco tocam. Daí a afirmação virtual de que há muitas bandas ruins. Concomitantemente, cada dia é mais difícil fazer essas bandas chegarem ao consumidor final, por causa do gargalo proporcionado pelo jabá das rádios comerciais e emissoras de TV. Afinal, são elas que levam a música para o público. Falo de público pra valer, não das quatrocentas pessoas que freqüentam os undergrounds da vida. Ou seja, tem banda que não acaba mais.

Já há um certo tempo, aqui no Rio, a Revista Laboratório Pop tem realizado festas de lançamento com bandas tocando ao vivo. O formato é o seguinte: tocam seis bandas numa noite, cada uma seis músicas ou meia hora. Fui em várias dessas festas, e logo de cara achei o número de bandas muito grande para uma noite só. Primeiro porque não daria para ver o show completo de cada uma; depois, porque chegaria uma hora em que faltariam bandas para evitar a repetição. Foi aí que me enganei redondamente. Não faltou banda coisa nenhuma. E mais. A revista está fazendo seletivas para o festival Mada, de Natal, e a cada quarta-feira escolhe uma banda dentre sete candidatas. No total, 42 foram pré-selecionadas dentre mais de 150 que se inscreveram. É banda que não acaba mais.

Citei as festas da Laboratório Pop de propósito, para fazer uma diferença crucial. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Banda foi feita para tocar, não para “divulgar”. Banda se vê no palco, não se ouve no computador, muito embora as duas coisas possam acontecer sem prejuízo uma da outra. A iniciativa da Trama Virtual é das mais interessantes, mesmo porque, se ninguém ganha nada, também não gasta. Mas ela não se encerra em si próprio. Não adianta baixar a música de uma banda formidável e nunca vê-la em cima e um palco. Por isso são importantes os festivais e iniciativas simples como esta da Laboratório Pop. Bem que a Trama poderia pensar em algo do tipo, né?

Falei da Laboratório Pop por causa das bandas tocando ao vivo, e já me lembro de outra conexão. Há um tempo eu fiz uma matéria para a revista outracoisa (a tal do Lobão) com o pessoal dos quadrinhos da revista Mosh. Entre tantas coisas eles me disseram que sobrevivem, em grande parte, de eventos que organizam para lançar a revista. Ganham porque vendem mais nos eventos e com o próprio evento em si. Como a revista é bimestral, eles realizam um bocado desses eventos por toda a cidade. Para eles, não é possível uma revista independente sem eventos. Na verdade, essa tese é compartilhada também por André Pomba, o homem por trás das organizações Dynamite. Mas eu, desde o tempo em que trabalhava lá, insistia no sucesso editorial somente. Hoje, me curvo aos fatos e vejo que os caras da Laboratório Pop, Mosh e Dynamite têm razão. As outras é que precisam acordar.

Quanto à Trama Virtual e às bandas, e a despeito da intrigante afirmação colhida no orkut, sou à favor das duas. Espaço para todos e informação nunca é demais, e se aparecem mais bandas ruins, melhor para as bandas boas, que terão mais espaço. Mas é preciso tocar, e muito, antes de e pensar numa gravação pra valer. Porque é banda que não acaba mais. O que é bom. Como sempre digo, se não há banda, não há rock, não há nada.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

em março 17, 2006 01:11 AM [Marcus Marçal]

O problema não é a profusão de bandas em si, estamos no século XXI. O foda é reparar uma espécie de padrão de "novas oportunidades" para novas bandas, todas elas voltadas a concursos cujo parece muitas das vezes é norteado por motivos diversos e alheios à inventividade musical propriamente dita. Banda que se preza não deveria se ater a estes concursos. Quem ganhou o Skol Rock ou algum daqueles festivais dos 90? Alguém lembra? tsc



em março 20, 2006 06:41 PM [marcelo]

uma coisa que você está esquecendo: pra arrumar show você tem que mostrar como é o seu trabalho primeiro.
e aí, você escolhe:
- leva o produtor/dono do bar até o seu ensaio pra te ouvir
- grava alguma coisa e leva pro cara escutar
- dá o endereço do myspace/trama virtual/site da banda
- usa o famoso "quem indica"
é difícil achar alguém que vá ceder espaço pra uma banda que nunca ouviu.
por isso que todo mundo grava logo.
é barato e te abre portas.



em março 21, 2006 09:42 AM [Bragatto]

Para isso existem as demos. Pular essa fase e gravar um álbum é um erro.



em junho 26, 2007 12:40 PM [edilson albino]

Por mais que pareça estranho comentar um post tão antigo, não resisti. Não sou músico, mas com comunicação e acho que faltou a todos analisar o seguinte: o consumidor é o produto da nova era. Isso mesmo. O consumidor. É ele quem cria o conteúdo e disponibiliza para todos os demais. É ele quem interfere nas sociedades virtuais (secondlife, por exemplo). A mídia, há algum tempo, deixou de ter a mesma posição e importância no consumo. O Youtube é o maior exemplo de que é o consumidor quem escolhe o que quer ver/ler/ouvir. Enfim, tudo isso para dizer que a Trama Virtual (e não sou nenhum fã deles) é uma conseqüência de uma análise mais profunda do mercado. Eles entenderam que a música é conteúdo. E quem faz o conteúdo hoje é o próprio consumidor.



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