
De tanto “evoluir” o homem foi desenvolvendo novas formas de se relacionar com seus alimentos, e a carne de outrora já não é mais a mesma. Nos últimos anos, a mudança na forma de criar o gado de corte levou à Europa a conviver com o mal da vaca louca (encefalopatia espongiforme bovina), doença que causa uma anomalia no cérebro do animal, e que pode ser transmitida para os humanos, através da ingestão da sua carne. O motivo? Os pecuaristas europeus, por falta de espaço para a pastagem, passaram a alimentar seus rebanhos com ração de origem animal, ou mesmo restos de outros animais mortos, transformando o boi num animal não só carnívoro, como também canibal, na medida e que se alimenta de sua própria espécie. E nos Estados Unidos, mesmo com território abundante, o gado é alimentado com sangue do próprio gado, além de restos do abate dos porcos e cavalos mortos.
Não é à toa que, na Europa, dificilmente se come um bom bife, a preços acessíveis. Com a procura reduzida, o preço subiu. No Brasil só não tem vaca louca porque há espaço para o gado pastar. Mas tem febre aftosa, leptospirose, tuberculose, brucelose e raiva, entre outras doenças que atingem nossos rebanhos. Só que aqui, diferentemente, não há o controle rigoroso do primeiro mundo, e a carne chega à mesa do consumidor, de uma forma ou de outra.
A saída poderia estar nas carnes de frango, porco, ou peixe, mas por pouco tempo. Isso porque a industrialização da domesticação de animais, iniciada há mais de dez mil anos, atinge níveis insuportáveis no que tange ao respeito às leis da natureza, com o avanço da genética. A industrialização do processo de criação de animais para o abate e consumo humano é responsável por anomalias desenvolvidas nesses animais que, ou fogem ao controle do homem, ou ainda traz prejuízos de difícil controle.
O frango, por exemplo, que antes era criado solto, se alimentava de milho, raízes, semente e pequenas larvas, hoje passa 24 horas por dia confinado sob luz intensa, para não dormir, comer mais e engordar mais depressa. Como adoece facilmente, toma antibióticos para superar doenças como uma simples gripe, que chegou a condenar um milhão de animais ao sacrifício em Hong Kong, em 98.
Fato semelhante ocorre com o animal suíno, que, por engordar muito mais rápido, em um período menor, sofre de osteoporose (enfraquecimento dos ossos por falta de cálcio). O porco toma também antibióticos, e se alimenta com ração de origem animal. Nos mares, a pesca industrial, que utiliza satélites para localizar cardumes, tem exterminado milhares de espécies, mesmo não conhecidas pelo homem, que se transformarão em um dos diversos produtos enlatados distribuídos pelo mundo afora.
Quem apostar na grande vedete do consumo americano, a carne industrializada, o hambúrguer, acreditando num controle de qualidade mais apurado, pode não ter estomago depois de ler o livro “Fast Food Nation” (A Nação Fast Food), do também americano Eric Schlosser, ainda inédito no Brasil. Além de desvendar todas as tramóias que fizeram a indústria do fast food predominar em todo o mundo, a custa da exploração dos trabalhadores das usinas de processamento de carne, da saúde dos consumidores, e de danos ao meio ambiente, Schlosser revela a face mais cruel da própria carne, enquanto alimento. Segundo ele, existem mais bactérias fecais nas pias de cozinhas dos Estados Unidos do que nos assentos sanitários, e qualquer pessoa que leve carne moída crua para sua cozinha, deve considerá-la um risco biológico potencial, que pode levar um micróbio extremamente perigoso. Não é uma questão de preparo, mas sim de manuseio, uma vez que qualquer coisa que o suco da carne moída toque deve estar extremamente limpa, inclusive as mãos de quem a prepara. Caso contrário esse micróbio se instala e, resistente que é, sobrevive durante vários dias nas pias de cozinha.
Cada vez mais próximo de uma alimentação artificial e desprovida de sabor e prazer, com a decadência da carne, o homem do século XI corre o risco de acelerar sua própria extinção. E olha que ainda nem falamos nos agrotóxicos e transgênicos.