No Mundo do Rock
09 de fevereiro de 2006
Wry tenta a sorte no mercado britânico
Grupo de Sorocaba lança o primeiro disco desde que se mudou em definitivo para Londres. Fotos: Divulgação

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A banda indie brasileira mais britânica da Inglaterra

Que grupo, no mundo independente nacional, nunca sonhou em ser uma banda indie de verdade, dessas faladas pelos semanários britânicos? O Wry botou fé nessa história, e os quatro integrantes se mandaram para Londres de mala e cuia. Lá preparam o lançamento de “Flames In The Head”, o primeiro disco composto totalmente em terras inglesas, e que aqui no Brasil foi lançado em turnê nacional no final do ano passado.

A banda é das antigas. Para quem não sabe, chegou a tocar na segunda edição do lendário festival Juntatribo, em Campinas, em 1994, e tem dois discos lançados antes de “Flames In The Head”: “Direct”, de 1998, e o afamado “Heart-Experience”, de 2000. Em 2001, o Wry organizou seu próprio festival, o Circadélica, que reuniu cerca de 5 mil pessoas para ver 30 bandas, e arrecadou alimentos para instituições de caridade. Em 2002, numa espécie de despedida, a banda fez uma grande turnê nacional, e voltou a repetir a façanha no final do ano passado, quando estreou no Brasil como banda “gringa”.

Escolados no underground brasileiro, os integrantes do Wry não encontraram moleza lá na Velha Ilha, e logo arregaçaram as mangas. Mario Bross e Renato Bizar, por exemplo, promovem duas noites, uma no Buffalo Bar, freqüentada por gente do Franz Ferdinand e Bloc Party, e outra no The Garage, famoso point de bandas novas. Chokito e Lou Marcello trabalham em cafés, sendo que o primeiro aperfeiçoa o inglês e o segundo estuda engenharia de som. Foi assim que eles descolaram os contatos que levaram a escolha de Tim Wheeler, guitarrista do Ash, e de Gordon Raphael, responsável pelos dois primeiros dos Strokes, para a produção do disco. É mole?

Bem, isso foi o que nos contou Mario Bross, por e-mail, assim que a banda retornou da turnê pelo Brasil. Ele ainda deu uma geral na situação do Wry junto à imprensa britânica, falou das coletâneas que o grupo vai participar, e de como seus dotes na pintura podem ajudar no combate ao tabagismo. Confira:

Rock em Geral: “Flames In The Head” é o primeiro disco que vocês gravaram como banda “inglesa”. Como vocês fecharam os contatos para ter o Tim Wheeler e o Gordon Raphael como produtores?

Mario Bross: Mandamos músicas para eles e eles adoram até optarem por nos produzir. O Tim foi muito mais atencioso, até viramos bons amigos até o momento, e o Gordon Raphael é mais velho e mais “low fi”, fez tudo bem rápido, tipo um mágico grunge. Um dia Tim ouviu “Come And Fall”, o single, e me ligou dizendo que havia gostado. Disse a ele que mandaria uma musica nova, “In The Hell Of My Head”, a qual ele amou, e decidiu então trabalhar conosco. O Gordon era figurinha na noite londrina e sempre conversávamos, até um dia surgir o papo de produção. Passou-se um ano e ele me ligou também, dizendo que topava produzir. Yeah! Conseguimos!

RG: Vocês gravaram no Estúdio Miloco. Por que escolheram esse? Deve existir milhões de opções em Londres...

Mario: Porque era o melhor em termos de equipamento e locação e tinha o Jimmy Robertson como engenheiro. Ele já trabalhou com muita gente famosa e importante, como Slipknot, Future Heads e Razorlight, entre outros.

RG: Como foi gravar pela primeira vez num estúdio de primeiro mundo, com produtores idem?

Mario: Foi parecido com quando gravamos o “Heart-Experience”, em São Paulo, mas com um equipamento melhor e “vintage” também. Parecia que estávamos em LA, pelo tamanho dos amplificadores de guitarra. Foi incrível.

RG: “Flames In The Head” é um disco mais pesado, mas ainda tem muita melodia, como os anteriores têm. Vocês queriam mesmo fazer uma coisa mais crua?

Mario: Fizemos o que acontecia a nossa volta, nada foi pensado assim. Somente durante a composição da música que algumas vezes precisei mudar. A sonoridade do álbum veio naturalmente daquilo que nos influencia. Afinal, todo mundo é o que esta a sua volta.

RG: O que estava em volta de vocês que influenciou nesse disco?

Mario: As bandas, o clima, o primeiro mundo e o fato de sermos estrangeiros numa terra ainda estranha, apesar de tudo. A melancolia londrina e o fog deixaram nossas músicas com um tom mais triste do que sempre foi.

RG: Comparando com o anterior, este disco parece ser também mais “focado”, com um conceito musical mais fechado, concentrado num conjunto de idéias...

Mario: Sim, é isso mesmo, de uma forma inusitada eu diria. Com uma maturidade, talvez. O disco é mais eu mesmo lidando com meus amigos mais próximos e as situações em que vivemos por aqui. Viemos juntos como banda e também junto veio uma gangue de amigos muito próximos. Vivemos na mesma casa durante dois anos, uma casa de quatro andares e toda a situação de você ter saído da casa de seus pais e ter optado morar com amigos e transformar aquilo numa nova família; foi uma coisa linda e “ensinadora”. Tem partes das letras que são citações de outros amigos, como em “In The Hell Of My Head”, sobre um deles que por amor teve que voltar ao Brasil e não mais fez parte de nossa ligação aqui. “Come And Fall” foi a desilusão de um outro amigo que teve que morar em outro País devido ao rompimento da relação que mantinha com alguém da banda. Existem frases ecoadas pela casa que eu coloquei na música.

RG: A arte da capa foi feita a partir de um quadro que você pintou. Essa é mais uma atividade que você desenvolve? Explique a relação entre a capa e o conteúdo musical do disco:

Mario: Eu pinto umas coisas a óleo e desenho com giz de cera, mas nada assim tão sério. A capa é a Simone, a pessoa mais importante da minha vida e que ajuda o Wry de uma forma que nenhuma outra namorada faria. Ela está ali para tudo que precisarmos, desde dos tempos do começo. Escrevi todas as músicas novas sob o olhar dela e ela sabe de tudo o que se passa, nada mais justo do que ter ela na capa. O quadro é um protesto para ela parar de fumar - o que deu certo. Ele parou de fumar agora em 2006, graças ao quadro!

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"Flames In The Head" é o primeiro disco do Wry todo feito em Londres

RG: Fale sobre a gravação do videoclipe para a música de trabalho, "In The Hell Of My Head":

Mario: Foi feito pelo Rigone, ex-baterista de uma banda indie de Curitiba chamada Tods, que mora em Londres. Filmado na rua e na casa dele, com efeitos de luz e mais emoção. Foi seu primeiro trabalho e está ótimo!

RG: Pelo resultado final do "Flames In The Head", você acha que ele está bem inserido no mercado da música britânica?

Mario: Sim, vai estar a partir do momento que chegar aqui, acabei de chegar a Londres e ainda não tive tempo de ver nada. Nosso empresário está conversando com o Simon William (do selo Fierce Panda) que disse se interessar pelo álbum, quem sabe!

RG: Então o disco ainda não tem gravadora em Londres?

Mario: Ainda não, acabamos de gravar no final do ano passado e fomos direto ao Brasil para o lançamento. Aqui é diferente, às vezes igual. Mas normalmente saem singles antes e o álbum mais tarde. Ainda não tem a gravadora, mas é inevitável que vai sair em breve por aqui.

RG: Vocês vão participar de algumas coletâneas interessantes nesse ano. Pode falar sobre elas?

Mario: Sim, uma será “50Min”, em apoio a Anistia Internacional. Serão 50 bandas, famosas ou não, tocando uma composição inédita de 60 segundos. A nossa chama-se “When I Go” e já está gravada. Estará disponível na net logo. A outra coletânea será “Never Lose That Feeling”, onde faremos uma cover do Jesus And Mary Chain, “Some Candy Talking”. E a outra é a “Sound Issues 2”, coletânea do “Buffalo Bar”, de banda tocando musicas em versões ao vivo.

RG: Onde vocês moram em Londres?

Mario: Eu moro em Stoke Newington, um bairro artístico da cidade, fica no norte e é bem freqüentado. Moram aqui pessoas como Bobby Gillespie, do Primal Scream, e o Tim, do Ash, entre outros.

RG: Fale mais sobre essas noites que você promove na cidade:

Mario: Uma é “Goonite Club”, no Buffalo Bar, que é um dos lugares mais legais da noite londrina. Minhas noites são as de quarta, e coloco banda indie, shoegazer e post-rock. Geralmente três bandas e DJs, das 8 até 1 da manha. Já apareceu por lá Franz Ferdinand, Bloc Party, Test Icicles, entre outros. A outra é “Take Me To The Othe Side”, que é as terceiras sextas do mês no Garage, e é mais focalizado ao shoegazer e space rock. Já tive Sonic Boom, Televise, Telescopes e The Early Years tocando por lá. São também bandas que eu agendo.

RG: O fato de vocês morarem aí mudou a forma de vocês fazerem música? Com um maior domínio da língua, ficou mais fácil para compor em inglês?

Mario: Melhorou, sim, acho que canto, escrevo e componho melhor. Espero que eu esteja certo! Aqui está a veia do rock, velhos e crianças bem novas são muito acostumadas com o barulho no ouvido de bandas de rock, então cresce seu leque em aprender e fica tudo mais fácil quando vai produzir alguma coisa.

RG: Vocês tocam bastante por aí? Há mesmo um cenário forte de rock independente em Londres?

Mario: Tocamos bastante, sim, os lugares aonde sempre vamos são Manchester, no Late Bar, e também no Buffalo e Dublin Castle, em Londres.

RG: Com que bandas conhecidas daqui vocês já tocaram? E festivais, em quais vocês já participaram?

Mario: Willow Festival, Manchester Festival… Já tocamos com The Animals, The Rakes, The Subways, The Cribs e Air Formation.

RG: O Wry hoje pode ser chamado de uma banda indie britânica?

Mario: Como também pode ser chamado de uma banda indie brasileira baseada em Londres.

RG: Como foi essa última turnê no Brasil? O fato de vocês morarem fora diminui o público por aqui, ou, ao contrário, com status de banda “gringa”, ele até aumentou?

Mario: Só aumentou. Com exceção do Rio de Janeiro, todos os outros 15 shows foram lotados e muito apreciados, com as pessoas cantando as músicas novas junto comigo, sem mesmo ter o disco na mão. Graças ao mp3! Nosso público aumentou e rejuvenesceu, tinham muitas garotas e garotos de 18 anos que já nos conheciam, achei isso o máximo. Vendeu CD pra caralho e todas as camisetas se esgotaram. As músicas novas e o status de banda “gringa” ajudaram bastante.

RG: Os jornalistas mais antenados daqui estão sempre em busca das bandas mais novas que aparecem no Reino Unido para mostrar em “primeira mão”. Como funciona aí em Londres? Há mesmo uma fábrica de hypes na mídia? Existe uma forte competição entre os diferentes veículos para ver quem “descobre” o novo hype primeiro?

Mario: Aqui é tudo mais rápido, eu adoro saber que a cada semana tem dezenas de bandas novas que eu não conhecia. Nem todas continuam, mas várias ficam e acabam te agradando. No Brasil falta um semanário para fazer as coisas correrem mais rápido.

RG: Você acha que um semanário musical teria sucesso no Brasil?

Mario: Teria que ser uma coisa mais barata, para colocar toda semana nomes de bandas e coisas dos independentes na boca do povo e com o tempo melhorando a qualidade e tal. Algo informativo, barato e semanal faria o lance correr mais.

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Wry: Lou Marcello (guitarra e vocal), Chokito (baixo), Mario Bross (vocal e guitarra) e Renato Bizar (bateria)

www.wrymusic.com

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