Rock é Rock Mesmo
23 de fevereiro de 2006
Stones e U2 reeditaram o bom e velho verão do rock no Brasil
Depois de oito anos do fiasco do show de 1998 no Rio, o U2 voltou ao Brasil para, junto com os Stones, protagonizar uma invasão midiática que só reafirma a viabilidade do rock por estas plagas.

Meus amigos, a coisa é séria. Queria ver o U2 e não consegui. Não consigo ver o U2 tocando ao vivo, ao menos no Brasil. Ao menos no Brasil, tô parecendo até o Lúcio Ribeiro, não consigo ver o U2 tocando ao vivo. Mas, obcecado pela modernidade que sou, vejo tudo pela TV. Sim, rock’n’roll é espetáculo de massa, é que nem futebol. Então para que ir ao estádio? Melhor ver pela televisão, como bem sugere o conforto classemediano.

Não sei onde o amigo leitor estava no dia 31 de janeiro de 1998, um sábado. Mas o U2 se apresentava no Estádio do Morumbi, e eu via tudo pela MTV, fiz até uma cobertura “da minha casa mesmo” publicada na Rock Press de abril do mesmo ano. Dias antes, no meio da semana, fiquei pelo caminho do show que a banda fez no Rio. Fui uma das vítimas da desorganização generalizada daquele evento. Pois bem, na última segunda-feira, cerca de oito anos depois, estava eu, de novo, assistido à transmissão de um show do U2, direto do Morumbi, desta feita transmitido pela poderosa Rede Globo. Fui vítima da desorganização na vendas dos ingressos (não consegui comprar) e dos critérios pouco claros para o credenciamento dos profissionais de imprensa. Em seis anos, nada mudou.

Falo, falo, mas isso aqui não é – nem pode ser – o muro das lamentações. Se de um lado pouca coisa mudou para este escriba quando o assunto é U2, muita coisa mudou, e pra melhor. Por exemplo, o show dos Rolling Stones. Se levarmos em conta que um trecho da Praia de Copacabana estava ocupado por cerca de 1 milhão e 200 mil pessoas, os 300 furtos de pequeno porte e os três esfaqueamentos (segundo dados da polícia divulgados na imprensa) não representam nada. Traço. Ponto fora da curva total. Apesar das dificuldades de se chegar e sair de Copacabana, perfeitamente plausíveis, dada a grandiosidade do evento, tudo correu bem. Muito diferente do fatídico show do U2 no Autódromo, em 1998, para um público bem menor. Mudou pra melhor.

Nossos empresários, contratantes de shows ou algo que o valha, de outro lado, ainda não aprenderam a ganhar dinheiro. Nem a vender ingressos para shows. Um show do U2 no Rio, como já disse, seria uma outra mina de ganhar dinheiro, assim como um do Oasis, assim como vai ser o de Carlos Santana na Praça da Apoteose. Mas os caras, sabe-se lá por que, não fazem isso. E os jornalistas que vão às coletivas que divulgam esses eventos também não perguntam. Um verdadeiro mistério. Outro mistério é a incapacidade de nossos produtores de shows têm de vender ingressos. Acabam sempre fazendo aquela lambança que os que dirigem o esporte no Brasil aprontam nas finais de campeonato. Onde já se viu vender ingressos para um show do U2 num supermercado? E as vendas por telefone? Só faltou bater tambor para encomendar um ingresso. Será o Benedito que esses senhores não conhecem as vendas pela Internet, como já acontece no mundo todo? E as parcerias com o comércio, que tem lojas em todo o País? Banco do Brasil, por exemplo. Tem em tudo o que é canto. Foi muito fácil comprar ingressos em 1998, numa das lojas da C&A. Até hoje a rede de lojas está envolvida num imbróglio com o produtor daquele show, mas isso são outros quinhentos. Mudou pra pior.

Mas e os shows, hein? Espetáculos de grandiosidade e soberba do rock que vieram ao Brasil para quebrar a nefasta seqüência reveillon-verão-Carnaval, como bem fazia o Rock In Rio. As notícias de ídolos de porte como Mick Jagger e Bono Vox ganharam o espaço das matérias sobre os ensaios das escolas de samba, que, aliás, a cada ano que passa parecem que são sempre as mesmas. Pobres repórteres que têm que tirar leite de pedra. Jagger sabe que é o centro das atenções e abusa disso. Uma pesquisa revelou que 97% das mulheres que estavam na Praia de Copacabana gostariam de ir pra cama com ele. E, pasmem, 65% dos homens também. É mole? Já Bono, hoje uma personalidade mundial na defesa dos direitos humanos e no combate à pobreza, foi almoçar com o Presidente Lula. Os antipetistas e conservadores de plantão ficaram bravos, só porque, em 1998, Bono não quis conversa com FHC. Mudou pra melhor.

Com dois pesos pesados do rock no Brasil num espaço de tempo tão curto, será que ainda tem gente que acha que rock não tem público por aqui? No meio desse bafafá todo, eu até tentei falar com o meu amigo Moderninho de Plantão, mas o danado sumiu do mapa. Dr. Rodivaldo, então, há muito não se tem notícia. Foi visto pela última vez bajulando jornalistas – quem diria, em comunidades do orkut. Os indies devem estar em polvorosa, é o primeiro ano em que eles farão boa parte dos efervescentes festivais sob a chancela de uma associação, a ABRAFIN. E o ano já começa com o rock na mídia, na boca do porteiro, na conversa da velha senhora prostrada na janela, nos botequins, nos pontos de ônibus, quase em todos os lugares. Mudou pra melhor.

Provocativa, a mídia tratou logo de criar uma rivalidade Stones x U2, o que é perfeitamente saudável. Sou mais, por questões histórias e pessoais, o U2. Mas como fechar os olhos para um espetáculo de duas horas cravadas protagonizado por velhinhos com idade para ser meu pai, só que com muito mais disposição que eu? O show dos Stones é um exemplo não só de vitalidade física, mas, sobretudo, artística. Os caras podem fazer uns cinco ou seis set lists diferentes só com os grandes sucessos, mas não se esquivaram de tocar uma pá de músicas novas, do último disco. Um basbaque outro dia veio me dizer “sou mais Beatles”, como se isso, em 2006, fizesse alguma diferença. O mundo mudou pra melhor.

Como tirar a moral do U2, sendo ele o grupo de rock mais importante da atualidade? Que banda, nesse tempo todo, mantém-se no topo, seja gravando discos meia boca como “Pop”, ou de raiz como os dois últimos? E, ainda, mantendo uma singela formação inalterada, com apenas quatro integrantes e sem nenhum músico de apoio? É uma coisa a ser pensada, não é, não? O show do U2 superou em tempo e em número de músicas (24 contra 20) o dos Stones, mas no quesito vitalidade artística, ambos se equipararam. Bono e sua turma mandaram várias do disco novo. E o vocalista, mesmo ostentando uma barriga considerável, continuou mostrando que é o cara. Não importa as patacoadas, a fita na cabeça, o buscapé, o menino no palco, a menina beijada. Messiânico, demagogo, podem falar à vontade, porque é tudo verdade. E, apesar disso, ou talvez por isso, Bono é um dos grandes ícones desse mundo globalizado. Que Sting, que nada. Bono mudou pra melhor.

Para fechar a ressaca da entressafra pós Ano Novo-pré Carnaval, um showzinho com o Franz Ferdinand cairá como aquela coca que se bebe pela manhã. E não é que os caras queimaram minha língua, esgotaram os ingressos (dizem) e ficou um bocado de gente de fora? Bom, ao menos lá o Homem Baile vai conseguir entrar. Mudou pra melhor.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

ESCREVA UM COMENTÁRIO

Nome
Email
Site
Salvar informações pessoais?
Sim       Não
Comentário (you may use HTML tags for style)















desenvolvido por
Gabriel Lupi / zupa.net

ilustrações por
Flávio Flock


© 2005 - 2006 - Rock em Geral: gardenal.org/rockemgeral
Os textos publicados em Rock é Rock Mesmo podem ser reproduzidos total ou parcialmente, desde que sejam citados fonte, autoria e endreço do site. O sistema de comentários disponibilizado aos leitores do Rock em Geral é exclusivamente para a publicação de opiniões e comentários relacionados ao conteúdo deste site. Todo e qualquer texto publicado na internet através deste sistema, assim como os links oferecidos, não refletem, necessariamente, a opinião de seu autor. Os comentários publicados através deste sistema são de exclusiva e integral responsabilidade e autoria dos leitores que dele fizerem uso, e podem ser excluídos, a critério do autor do site.