
Digo isso depois de dar uma olhada geral em tudo o que está sendo feito aqui no Rio para que se torne possível o acontecimento do século: um show gratuito do Rolling Stones para uma platéia de um milhão e meio de pessoas. Eu disse Rolling Stones, a maior banda de rock em todos os tempos. Eu disse gratuito, e pago pelo poder público e seus parceiros/patrocinadores. E eu disse um milhão e meio de pessoas. Só para se ter uma idéia, este público é maior, por exemplo, de todo o comparecimento que teve o último Rock In Rio, somando-se os sete dias de festival. Será, de longe, o maior público para o qual os Stones já tocaram em mais de 40 anos de carreira. Só perde para o reveillon de Copacabana, o maior do mundo, que costuma atrair dois milhões de pessoas a cada ano, só que ocupando toda a orla da Princesinha do Mar.
Para se fazer um evento desse porte, nessas condições, e em plena Praia de Copacabana – não nos cafundós do Recreio doa Bandeirantes, vamos e venhamos, é preciso ter coragem. Anunciados os esquemas de trânsito, transporte, segurança, acesso, palco, policiamento, etc, é que se vê que o negócio não é brincadeira, não. Um outro governante, de uma outra cidade que se diz “do rock” já teria recuado, no primeiro sinal de dificuldade. Como têm acontecido, aliás, nos últimos tempos. Digo isso não para tomar partido de um ou outro governante, mesmo porque nunca fui simpatizante de nenhum deles, muito ao contrário. Mas pra enfatizar que só numa cidade com vocação para o espetáculo como o Rio de Janeiro esse tipo de evento poderia acontecer. E isso uma semana antes do Carnaval, a maior festa popular do Brasil. E repito. Só o Rio poderia abrigar essa festa grandiosa, cujos números são até irrelevantes em face do momento histórico. E mais que um show de rock, num mundo globalizado, trata-se de uma celebração da cidade e para a cidade, o Brasil e o mundo.
Tem gente reclamando, sobretudo além Dutra, de que a Prefeitura do Rio não deveria gastar o dinheiro da população produzindo um evento de rock, mas sim para resolver problemas sociais de maior relevância, como saúde, segurança, etc. Pois eu discordo, porque cabe ao Estado, seja em que esfera for, prover o cidadão de políticas públicas para a cultura, onde o rock se insere. Já disse isso quando Lenny Kravitz tocou no mesmo lugar, no ano passado, e repito: é obrigação do estado promover eventos gratuitos voltados para o rock. Não só dessa magnitude, como também, por exemplo, colocar um palquinho em cada praça para que novos artistas se apresentem. A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.
O engraçado é que é o show da maior banda de rock em todos os tempos, a cidade está em polvorosa, recebendo gente do mundo inteiro e do mais longínquo interior deste Brasil varonil, mas entre aqueles que se dizem “do rock”, a reação chega a ser decepcionante. Como que assustados pela grandiosidade do evento, e ao mesmo tempo acostumados a viver nos guetos do rock, eles acabam por preferir o próprio gueto ao invés daquilo que, contraditoriamente, todos sonham, que é o bom rock na mídia. Como o evento atrai todo tipo de gente – desde fãs de rock mais antigos que das antigas até os tão novos que sequer cantarolam “Satisfaction”, afinal é de graça - aqueles que curtem o rock em todo o seu conhecimento se sentem deslocados, perdem o foco num cenário por demais amplificado; de atores principais, se tornam reles figurantes e jogam a toalha. São os fãs de rock renegando o próprio rock.
Mas o que são os Rolling Stones? O que move esses velhinhos pra continuar tocando por todo o mundo e, vez ou outra, ainda lançando bons discos como este “A Bigger Bang”? Num mundo em que a indústria fonográfica bate cabeça de lado a outro, apostando em fórmulas lamentáveis como os discos ao vivo, de covers, acústico e congêneres, e na expansão do mercado de DVD, os caras mais antigos nessa história do rock continuam compondo e lançando novas músicas. Vamos ser claros: nem precisavam, não é não? Tanto é que, de acordo com o set list que pude apurar, só duas músicas de “A Bigger Bang” devem ser tocadas no próximo sábado, para a alegria geral. Não que o disco seja ruim, mas porque aquela massa ali vai querer é hit. E porque eles são os Rolling Stones, ora essa.
Não é o primeiro show que os Stones fazem no Rio. Já tocaram aqui em 1995, por duas noites seguidas, no Hollywood Rock, em pleno Maracanã, e depois, em 1998, na Praça da Apoteose. Foram shows que encheram, mas não lotaram, mesmo porque tinham ingressos vendidos, não era entrada franca. Nos primeiros, era a época da cobra que cuspia fogo em cima do palco, e no segundo, já tínhamos a tal passarela que vai até o meio do público, e que parece ter sido acrescida de alguns metros neste ano. Em todos um inesquecível espetáculo de qualidade musical e vitalidade dos velhinhos, que, é, a despeito dos grandes hits mundiais, a principal atração de um imbatível show dos Stones.
Como sempre digo, não me envergonha a repetição. Por isso volto a dizer: um show de rock é anterior a si próprio. Na prática, o show dos Stones já começou, no dia a dia da cidade, na mídia, nas cabeças dos fãs de todo o Brasil, e até do mundo. Por isso, deixo aqui o provável set list do show, que deve durar no máximo duas horas. As músicas em negrito são as que eles tocam sempre, não tem jeito. Nas demais, podem ocorrer alterações. Dá uma olhadinha aí e seja feliz.
1 - Jumping Jack Flash
2 - Let's Spend The Night Together
3 - Oh No Not You Again
4 - All Down The Line
5 - Love Is Strong
6 - Wild Horses
7 - Midnight Rambler
8 - Tumbing Dice
9- Gimme Shelter
10 - This Place Is Empty
11 - Happy
12 - Miss You
13 - Start Me Up
14 - Get Off Of My Cloud
15 - Honky Tonk Women
16 - Sympathy For The Devil
17 - Paint It Black
18 - Brown Sugar
19 - You Can't Always Get What You Want
20 - Satisfaction
Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!