
Já disse que, embora acometido por uma crise capilar dos diabos, ainda tenho cancha para ser moderno. E não é de hoje, bota pelo menos uns vinte anos nessa conta. 1984, por exemplo. Escutava eu a Fluminense FM, quando, súbito, Luiz Antonio Mello, o idealizador e chefão geral da Maldita na época, pedia licença para a Milena Ciribelli para anunciar que a partir do ano seguinte a gravadora, através de um acordo com a Island, colocaria no mercado brasileiro os discos do U2 (quatro, até então). Euforia. Festa. Satisfação. Só na Maldita mesmo isso aconteceria assim.
O U2 era a banda da moda, a vanguarda. O hype, só para usar um termo de entendimento fácil por parte das novas gerações. Para mim não passava de mais uma banda britânica que imitava o Police, ícone maior do início dos anos 80. No ano seguinte a Rádio Cidade, depois de ver a Flu-FM passar de passagem, decidiu investir pesado no rock e levou pra lá a inigualável Monika Venerábile, que apresentava, aos domingos, o “102 Decibéis”. O programa promoveu a exibição de um vídeo gravado ao vivo com o U2 em Berlim, a ser exibido, pasmem, no Estádio de Remo da Lagoa. A essa altura o “Live at Red Rocks”, aquele do disco “Under a Blood Red Sky” já era comum até entre o fã de rock menos atento. E a performance de Bono, dançando com uma fã em pleno Live Aid, dia 13 de julho de 85 já tinha corrido o mundo, sendo exibida até no Jornal Nacional. Esse era o U2 há pouco mais de 20 anos. E assim se criou o nefasto Dia Mundial do Rock.
Mas falava de modernidade. E não por acaso. Começo a escrever essas linhas e bate o telefone. É da redação de um grande diário carioca. Trabalha lá um estagiário, bom garoto, filho de um amigo meu. É vidrado em rock, mas foi jogado na editoria de informática. E lá lhe deram, neste dia, a tarefa de averiguar a gama de diversidade entre os usuários de msn, esta moderna ferramenta do mundo virtual. Ele precisava de um contraponto para os depoimentos dados pela turma da faculdade que usara como fonte, daí ligar para este moderno, porém experiente homem da imprensa.
Depois de virar unanimidade mundial, o U2 conquistou a América como álbum “The Joshua Tree” (87), que dasaguaria num longa-metragem – “Rattle And Hum”, 88 - moldado para identificar a banda com o tal do “american way of life”. Quem não se lembra das roupas de caubóis, os cabelos longos, o chapéu de The Edge, e a inesperada paixão de Larry Mullen, Jr. por Elvis Presley? Era esse o U2. No filme, até o ex-motorista de trator e Rei do Blues, BB King, dá o ar da graça na excepcional “When Love Comes To Town”. Saca “Bullet The Blue Sky”, gravada pelo Sepultura? É dessa fase do U2. Na ressaca do sucesso, Bono e sua turma, todos com veia política sempre aberta, foram descobrir a Alemanha pós queda do muro. Eles sabiam que algo iria acontecer ali. Era a época do álbum “Achtung Baby”, de 91. Não sei com que olhos Bono viu, mas eu próprio, em 2001, estive lá e percebi uma verdadeira revolução no heavy metal europeu, que deu às costas ao mercado americano e seus vícios e criou o mais variado mercado para o gênero, com ênfase na Alemanha pós queda do muro. O mesmo para o hardcore. Pergunte para dez entre dez bandas que vão tocar na Europa, em qual país eles trocam mais. Por coincidência, acabei vendo o carrinho que Bono usou no videoclipe para “Mysterious Ways”, em pleno Hard Rock Cafe de Berlim.
Ë difícil escrever pendurado no telefone, mas foi isso mesmo que eu fiz. Fui um dublê de escritor e de atendente de telefone por um bom tempo. Chego até a lembrar daqueles telefones antigos das repartições cujo fone vinha com um apoio para o ombro, de modo a possibilitar à secretária executar outras funções simultaneamente. Não, não vou falar das escarradeiras dos prédios públicos. Mas de msn, o assunto com o jovem estagiário de um grande diário pulou, não me lembro por que, para falar de U2. Não me lembro se foi por minha causa, mas provavelmente, foi, sim. Me lembro agora. Ele é que, do nada, lamentou a ausência do grupo no Rio. O engraçado é que, logo em seguida, segundo me lembro, estava eu a defender o U2, e ele, desandando a chamar o grupo de “fazedor de hinos de igreja”. Assim, do nada.
A partir de 93 a empresa U2 se perdeu em sua própria megalomania. Foi um tal de inventar palco gigante aqui, turbinar a música acolá, inventar muito invólucro para um conteúdo que passou a ficar em último plano. Foi a vez do “Zooropa”, cujo anúncio da turnê superava o interesse do marketing no próprio disco. Convivendo com sucessos de outros gêneros, como grunge, o metal e até da dispensável eletrônica, o U2 se assumiu como medalhão decadente e anacrônico e começou a cavar sua própria sepultura. Iria terminar de moldá-la em 1997, com “Pop”. Um disco de boas músicas, mas que, embalado numa espécie de onda disco por forças de fora da banda, só não foi um fiasco por causa do marketing maciço em cima da banda. Escrevi um texto legal a esse respeito, na época, na Revista Dynamite. Em janeiro de 98 a banda veio ao Brasil. Contratada por um empresário inexperiente, e com o Maracanã em obras, o show do Rio foi marcado para o Autódromo Nélson Piquet, lá nos cafundós do Recreio dos Bandeirantes. Sem esquema de transporte coletivo, o trânsito caiu em colapso. Mesmo saindo quatro horas antes, só cheguei no local na última música do bis. Só deu tempo de ver o Tony Garrido correndo desesperado e para usar um banheiro químico pra descarregar. Sobrou ver o show de São Paulo, pela TV e fazer uma “cobertura” descolada para a Revista Rock Press.
Eis que, do nada, em 2000 Bono e sua trupe decidem vir ao Rio para uma coletiva lotada de jornalistas de toda a América Latina, no pomposo Copacabana Palace. A idéia é fazer as pazes com a cidade e divulgar “All That You Can’t Leave Behind”, o disco que trouxe a banda de volta ao rock, e que, repito, é o melhor deles em todos os tempos. Antes da coletiva, três minutos de fotos e centenas de fotógrafos. Depois de bater quase um filme inteiro, e à frente do pelotão, no chão, enquanto esperava uma nova estripulia de Bono, eis que o próprio me toma a máquina das mãos, sob a alegação de que “eu sempre quis fazer isso”, e tira ele próprio a foto dos fotógrafos. No dia seguinte, não deu outra: Bono e a Canon na capa dos jornais. Depois das fotos, a coletiva. Enquanto The Edge respondia a última pergunta, Bono se levanta e vem na direção do bloco em que eu estava para distribuir autógrafos. Deu pra perceber que ele, assim como Romário, “é o cara”. Exala carisma, altivez, élan, uma coisa de grande personalidade mundial, do rock e do mundo. Não por acaso cada vez mais ele se mete a exigir dos políticos aquilo que considera justo para o mundo.
Como dizia, em 2001, fazendo trabalhos na Europa, acabei me esbarrando com o carro do clipe de Berlim. Mas, também, pude ver um show espetacular no Earls Court, em Londres, com direito photo pass e tudo. Um show, honestamente, muito melhor que o de 98, no Brasil, justamente por ser o da turnê do “All That You Can’t Leave Behind”, e não ter nenhuma – nem uminha – música do “Pop”. 2004 foi o ano do também bom – por ser também rock – “How To Dismantle An Atomic Bomb”, que só confirma a volta às raízes da banda, e de que eles só precisam – a exemplo dos Stones – fazer o simples e pronto. Por isso os shows desse mês em São Paulo, com ou sem confusão de ingressos, são, desde já, imperdíveis. Um bom momento para se reencontrar Bono, não é não?
“Perdoe-os, Senhor, eles não sabem o que dizem”, foi a frase bíblica que encontrei pra dizer ao bom estagiário de um grande diário carioca. Não sou religioso nem nada, mas esse negócio de banda de católicos, hinos de igreja e tudo o mais deve ter me inspirado. Maomé e Jó também, porque sinceramente, há que se ter muita paciência com a juventude. Eis o que eu queria dizer.
Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!
há que se ter muita paciência com a juventude!
Olha, o U2 é uma grande banda, mas quem ouve Pink Floyd se apaixona. Aliás o Pink Floyd é a melhor banda de rock de todos os tempos.
Nossa, demais!