
Era a crônica da exaltação anunciada. Se o U2 vendeu todos os 150 mil ingressos de uma hora para a outra, para o show de ontem, no Circo Voador, o Franz Ferdinand conseguiu o mesmo feito para 2500 fãs, antes mesmo de o próprio Circo divulgar o show. O lugar ficou abarrotado, e, aconchegante, causou uma interação público/banda impossível de se ver nos mega shows da última semana. A banda que estava no palco – um quarteto escocês que fala enrolado – teve ares de que não estava acreditando, mas curtiu adoidado, afinal, segundo consta, esse foi o show que eles queriam porque queriam fazer, e até reduziram o valor do cachê para isso. Coisa típica da Cidade Maravilhosa, aliás.
O refrão de “This Boy” (“quero gozar, quero gozar”), que abriu a noite já dizia ao que vinha: colocou a pequena massa de fãs para pular junto com cada acorde de guitarras com poucos efeitos, às vezes até limpas, e num alucinante ritmo imposto pelo baterista Paul Thomson. Em “Walk Away”, ele trocou de lugar com o guitarrista Nick McCarthy para mais uma – entre tantas – música em que o público cantou tudinho junto com a banda. A vantagem de ser uma banda das novas é que o curto repertório não deixa dúvida entre os fãs, é tudo do primeiro ou segundo disco mesmo. O vocalista Alex Kapranos, num modelito vermelho e branco adquirido num dos brechós de Candem (como são bregas esses meninos) perdeu a linha diversas vezes, empolgado com uma receptividade inusitada, ao menos para quem veio dos cafundós da Escócia.
“Come On Home” e “Do You Want To”, espécie de hino do underground, foram as outras duas músicas que formaram a trinca de abertura, que já aquela altura parecia o bis. Para tocar “Take Me Out”, no entanto, talvez o maior hit, eles demoraram cerca de 50 minutos, o que de certa forma demonstrou cuidado na elaboração do set list. Antes de anunciá-la, Kapranos diz que o Rio é “um lugar especial, sobretudo visto da janelinha do avião”. O público, que desde o início enchia o palco de confetes e serpentinas, desabou de vez. Até “Eleanor Out Your Boots On”, a lentinha com cara de Beatles e que valeu à banda comparações das mais estapafúrdias, caiu bem.
O show do Franz Ferdinand flui que é uma beleza. Todas as músicas são tocadas numa velocidade bem maior que as versões de disco; algumas, menos bombadas (como a boa “Evil And a Heaten”) só são reconhecidas no refrão. As mais bacanas são a que têm mudança de andamento, pois funcionam bem ao vivo, como “Well What Was Easy” e a própria “Take Me Out”. E até uma ou outra canção nova foi testada. Mas a cada início não dá para não notar (mais do que nos discos) um ar de nostalgia que nos leva direto aos bons anos 80. Um Duran Duran aqui, um Devo acolá, uma A-ha escondido mais adiante. Pouco importa, se considerarmos a idade dos fãs e a lei de Lavoisier. Com uma hora de palco o grupo, suando em bicas, faz que encerra o show para voltar e fazer um bis com nada menos que seis músicas. Em mais de uma vez Kapranos se joga no chão e rodopia tocando guitarra; no final, ele e McCarthy erguem as guitarras como há anos faz, imaginem, o Judas Priest. Apenas alguns flashes de quem sabe fazer do rock aquilo que ele deve ser: um espetáculo.
Depois de hora e meia de êxtase e troca de energia, teorias se perdem nas cabeças dos fãs, mas fica uma certeza que não se cala. As bandas internacionais mais novas que tocaram no Brasil – considerando que White Stripes ainda não é uma – estão muito longe de viver, no palco, o rock como fizeram esses escoceses que falam grego. Os pálidos Strokes que se cuidem. E podem dar a chave da cidade para o Rei Momo que o Carnaval, agora sim, já pode começar.
O Urbe disponibilizou uma vídeo para "Take Me Out". Veja aqui.
Foi bom, não foi? Botei um videoziho de "Take me out" no URBe.
desculpe a minha burrice, mas não entendi a parte do "considerando que White Stripes ainda não é uma"... Gostaria de maior elaboração nessa parte, porque do jeito que está pode levar o leitor a conclusões completamente opostas umas das outras.
No mais, adoro o site, sempre leio mas nunca tinha comentado antes.
É que para o White Stripes virar banda, precisa entrar um baixista.
E obrigado pelos elogios, Daniel.
Abraço!
O show do Franz no Circo Voador foi ótimo, aliás eu consegui tirar foto com o Alex e o Nick. Uauuuu... E ainda peguei autógrafo de todos da banda!! Poxa, eles são d+++ muito lindos e simpáticos. Amei conhece-los!!
bjs