
Era de se esperar, então, que essa cobertura fosse algo de extraordinário, praticamente uma superprodução, algo equivalente a um grande evento internacional como uma Copa do Mundo ou Olimpíada. E isso até acontece, se considerarmos em geral a quantidade de câmeras espalhadas pelo gramado, que hoje permite até a interpretação a leitura labial de um xingamento rotineiro. Mas é de impressionar a palidez dos narradores desses jogos, sobretudo aqueles exibidos apenas no pay per view – justamente os mais caros.
Sou do tempo em que, ainda muito jovem para pegar trem, mesmo em companhia de mais velhos, e sem jogos ao vivo na TV, dependia do rádio pra ficar ligado no que estava acontecendo. Me lembro, inclusive, das palavras de Doalcei Camargo na final do Carioca de 1973, onde nem o grande Paulo César Caju conseguiu evitar a derrota do Flamengo para o Fluminense de Manfrini. 4 a 2 numa jornada histórica, numa quarta à noite sob chuva torrencial. E ainda do primeiro título brasileiro conquistado pelo Flamengo de Zico, em 1980, sobre o Atlético Mineiro de Reinaldo, que, mesmo “bichado”, quase impediu a festa rubro-negra consolidada por um Nunes inacreditavelmente inspirado. Essa foi na voz do ainda atuante José Carlos Araújo.
Citei o Garotinho (apelido do qual o político se apropriou por ser radialista no interior do estado) porque ele é, realmente, um dos poucos remanescentes de uma época áurea da cobertura radiofônica esportiva. Um tempo em que, pelo poder do alcance do rádio, esses profissionais exerciam tamanha influência nos ouvintes, que implantou torcedores dos clubes cariocas por todo o Brasil, sobretudo em locais onde futebol era (e ainda é) pouco desenvolvido. E faziam isso com estilo, com élan, com propriedade. Valdir Amaral, Jorge Curi, Doalcei Camargo, Afonso Soares, Orlando Batista, Januário de Oliveira e tantos outros cujos nomes me escapam, criavam bordões, expressões que se tornavam marca registrada das transmissões e davam contornos tão próprios ao espetáculo que era quase impossível imaginar uma peleja sem eles narrando pra gente.
Hoje, na TV, o narrador se transformou numa espécie de conversador. O sujeito pago para transmitir a partida e, no mínimo falar o nome de cada jogador que pega na bola, passa a maior parte do tempo tentando passar informações que perde, por muitas vezes, lances de suma importância para o jogo. Quantas vezes, nos dias de hoje, o gol sai e o narrador só começa a falar dele depois que a bola já entrou? Sou do tempo em que, mesmo na TV, as informações mais genéricas (também importantes) e de cada clube eram fornecidas pelos repórteres responsáveis por cada time. Era assim que fazia, na década de 90, a equipe de Luciano do Valle na TV Bandeirantes. A cobertura do Campeonato Paulista feita pela Band em rede nacional nesse período levou ao surgimento de vários torcedores pelo interior do País, assim como o rádio carioca fizera décadas antes.
Mas falava da cobertura esportiva na TV. E aí é preciso chegar nos comentaristas. E começo lembrando de domingo passado, no Fla-Flu. Mal acaba o jogo, e começa, no Sportv, o programa que se propõe a comentar a rodada dos campeonatos estaduais. Passam os melhores momentos do clássico, faz-se as entrevistas normais do pós jogo, e, súbito, o profissional que comentou o jogo já está ali, sentado junto com os demais no estúdio. Ou, seja, o camarada fez o jogo sem ir ao estádio, pela TV. Como jornalista de música, jamais cobri um evento sem estar presentes. Na concorrente ESPN Brasil ocorre, não raro, mal semelhante, às vezes até pior. Lá, parece que um ou dois cidadãos ficam numa sala rodeados de monitores, cada qual passando um jogo, e eles, sentados em cadeiras com rodinhas, ficam o tempo todo tentando ver tudo ao mesmo tempo. Ao menos na hora de fazer o comentário, logo que a rodada acaba, eles falam como se tivessem visto todas as pelejas. E eu pergunto: dá pra se afiançar nesses comentários?
Mas eu citava José Carlos Araújo. Ele é o único remanescente dos áureos tempos, e por isso mesmo, segundo consta, detém cerca de 80% da audiência das transmissões esportivas no Rio. Domingo passado, decidi seguir o conselho dele e fui “assistir ao jogo ouvindo a Rádio Globo”. Mesmo podendo desfrutar de todo o estilo criado por ele e todos os bordões inesquecíveis (“vai mais, vai mais, vai mais garotinho”), pude ver que José Carlos não é mais o mesmo. Garotinho passou o primeiro tempo inteiro chamando o lateral tricolor de “Tissut” (Rissut é o correto), a ponto de um repórter, numa de suas intervenções pronunciar o nome do jogador no estilo Galvão Bueno, forçando o “r”. Em vão. No segundo tempo, no calor da partida, Garotinho por diversas vezes, tal qual o jogador que perde o tempo de bola, perdia (ou prendia) a respiração, dando a entender que iria, com o perdão da expressão, arrotar no microfone. E, acreditem, foi que aconteceu logo em seguida. No meio do Fla-Flu, José Carlos Araújo arrotou o meu ouvido. Lamentável.
Falava também dos conversadores do Sportv que perdem um gol em troca de um bom papo. Mas tenho que registrar que tem gente boa lá também, em geral vinda do interior. E, posso estar enganado, com origem no rádio. Não vou conseguir lembrar dos nomes agora, mas lá no sul tem um camarada que, quando sai um gol, grita: “feito!”. Em Salvador, outro diz, sempre: “ta rede, e é do Vitória...”, ou de outro time que faça gol. Na TV, o melhor grito de gol continua sendo o de Luciano do Valle, muito embora ele tenha que manter em dia o exame de vista. O polido Luiz Carlos Jr. dá show de pronúncia, mas carece de emoção. Tem outros bons, mas a grande maioria padece da falta de bordões e abusa, repito, da conversa que atrapalha a narração em si.
A única saída, como em qualquer outra profissão, é a reciclagem. Palestras com os mais experientes, exibição de imagens e de áudio de coberturas do rádio do passado, troca de informações. Exibição de coberturas dos próprios narradores, para que eles possam ver as gafes que comentem, e como isso pode ser de fácil solução. Reciclagem é o eu há. Aposto que se o Galvão Bueno tivesse assistido a uma única transmissão dele mesmo, já teria se emendado há muito tempo.
Até a próxima, que tá sinistra, muito sinistra essa cobertura esportiva...
Olá! Eu buscava um áudio do José Carlos Araújo para ouvir e acabei encontrando o seu site. Gostei do que acabei de ler. Estou começando a narrar futebol pelo rádio e seu texto é um alerta pra mim! Vou tentar reunir todas as características positivas e indicar seu site para outros colegas! Aquele Abraço!
Concordo com tudo que foi escrito, parabéns.
Sou fã do Affonso Soares .
Parabéns e concordo com tudo que foi escrito.
Gostaria de saber do Affonso Soares, que durante muito tempo foi sucesso na Rádio Globo. Nos programas do Paulo Geovanni, Francisco Barbosa e do Antonio Carlos.
Abraço...
Esta minha procura era para, com imensas saudades, ouvir denovo algumas grandes narrações do inesquecível Jorge Cury, porém, como tricolor fanático, esperava encontrar algumas narrações dos jogos do Flusão o que não foi possível... espero ainda encontrar... Abraço grande.
Affonso Soares faleceu em maio aos 83 anos vítima de infarto em sua casa em Sepetiba (RJ)
Tambêm sou narrador de futebol e gostei do que lí, estou sempre aprendendo alguma coisa e procuro estudar todas as críticas e elogios para me reciclar sempre. Tenho 34 anos e sou narrador da equipe 570 da rádio Cultura de Catalão - GO. Qualquer novidade pode me enviar pelo email ok?!!! Um abraço.
O melhor narrador de futebol foi Doalcei Camargo. Na minha opinião nunca nenhum outro chegará aos pés dele, pois sempre narrou em cima do lance. Sinto uma saudade incrível daqueles tempos que o Fluminense tinha o bom baiano Toninho, Cafu, Gérson, Rivelino (a patada atômica), Manfrini, Cléber, Pintinho, Félix (o papel, o melhor goleiro que eu ja vi atuar). É muito bom ter essas lembrancas, um abraçoo a todos.
Virgílio - DF
O narrador do Sul que grita "Feito" a cada gol é Paulo Brito. Ele trabalha na RBS-TV (rede de emissoras gaúchas e catarinenses afiliadas da Globo) de Porto Alegre.