Fazendo Historia
06 de janeiro de 2006
Inconsciente coletivo reacionário
Extra! Extra! Extra! Avalanche reacionária invade o planeta e tenta acabar com o rock’n’roll!!! Publicado na Dynamite número 17, de abril de 1995.

Desde sempre o mundo vive em constante mutação. A disputa pelo poder e pelo comando da situação tem sido uma constante em todos os cantos do planeta, gerando às vezes conflitos armados onde uma maioria se mata, sob ideais de líderes que nem sempre têm consciência do que estão fazendo. Politicamente falando o mundo sempre se dividiu em direita esquerda. A direita sempre representou o conservadorismo, o reacionarismo e a intenção de não se mudar o estabelecido. A esquerda, ao contrário, representa a ousadia, o ímpeto de mudar e de estabelecer a vontade da maioria.

Agora, no entanto, o que vemos em todos os segmentos das sociedades em todo o mundo? Lei reacionária inglesa se espalhando por toda a Europa, racismo científico nos Estados Unidos, exército nas ruas do Brasil, investidas contra o rock em todo o planeta. E as pessoas, mais passivas do que nunca, aceitam tudo como se você essa a vontade de todos. Parece que, de modo subliminar, criou-se na cabeça das pessoas o Inconsciente Coletivo Reacionário. De repente, inconscientemente, tôo mundo fica careta e acaba apoiando, ou no mínimo não se contrapondo a uma avalanche reacionária que parece ser intrínseca a todas as pessoas.

Em outubro do ano passado, um pacote de leis chamado Criminal Justice Bill foi aprovado pelo parlamento inglês, e a pretexto de coibir índices de criminalidade (como no Brasil), novas leis reprimem a liberdade democrática e o direito à vida de uma forma geral. O absurdo é tão grande que, se um adolescente como você estiver ouvindo um som alto em casa e o vizinho não gostar e reclamar com a polícia, você vai preso. Apesar de inglesa, essa lei reaça já se espalhou por toda a Europa. Na Holanda, país tradicionalmente vanguardista no que diz respeito ao avanço das liberdades individuais, os mais afetados são os squatters, grupos formados por jovens e sem teto em geral, que, por não ter emprego e moradia, invadem casas e prédios abandonados. Para o governo, isso sempre foi considerado normal, uma vez que não se conseguiria providenciar moradia para todos mesmo. Mas agora, aos poucos, o governo vem retirando os direitos conquistados pelos invasores e reprimindo novas invasões. A crescente onda neonazista na Alemanha unificada é outro sinal. Grupos organizados já possuem uma rede de computação onde trocam informações e negam as atrocidades praticadas por Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.

Nos Estados Unidos parece que tudo começou um pouco mais cedo. Além do selinho “Parental Advisory: Explicit Lyrics”, que as gravadoras americanas são obrigadas a colocar nos discos de seus artistas, denunciando sabe-se lá o que, e do Partido Conservador que vive reprimindo e processando artistas de rock como Ozzy Osbourne e Judas Priest, a nova pérola da terra do Tio Sam é o racismo científico. O livro “The Bell Curve”, lançado pelos fodões em ciência política e psicologia Charles Murray e Richard Hermestein, diz que os negros são inferiores aos brancos, e estes aos amarelos. O interessante é que o livro enfatiza mais a suposta inferioridade negra em relação aos brancos, do que a dos brancos em relação aos amarelos, ficando clara a intenção discriminatória da pesquisa. O fato é que, em uma sociedade tradicionalmente conservadora e preconceituosa como a americana, o livro vende mais do que banana em feira.

No Brasil não é diferente, aqui também o conservadorismo (ufanista) rola solto. O veto do aumento do salário mínimo e a reforma da Previdência de FHC (leia-se ACM) já mostram o que vem por aí. E ainda falam da descriminalização da maconha, como fachada, para arrebanhar os jovens de classe média à política neoliberal. A Operação Rio, deflagrada no Rio de Janeiro para combater a criminalidade é outro exemplo de retrocesso social. Graças a uma rixa pessoal do então governador do Rio, Leonel Brizola, com a Rede Globo (perpetuada há anos no poder por governos incapazes de controlá-la), uma campanha sem precedentes na mídia foi instalada. O objetivo era tirar a credibilidade do Estado quanto ao seu potencial econômico-industrial. Com o fracasso de Brizola e a eleição do novo governador do Rio, da linha neoliberal do Presidente, só havia uma forma de mudar essa situação tão rapidamente: Operação Rio. Prova disso é que nenhum nome significativo envolvido com o tráfico de drogas foi preso, e nunca mais o Cid Moreira abriu o Jornal Nacional falando de violência no Rio.

Outro fato característico do retrocesso, não só aqui, como em todo o mundo, é o fim das rádios rock. Primeiro foi a pioneira Fluminense FM, do Rio de Janeiro, a primeira rádio rock do Brasil, depois a 97 FM, de São Paulo, a 97 FM, de Santos, e também a KNAC, da Califórnia, todas encerraram suas atividades. O próprio Robert Plant, quando esteve no Rio para divulgar o seu trabalho junto com Jimmy Page, reclamou da postura das rádios inglesas, que não tocam mais artistas novos e praticamente baniram o rock de sua programação. Até a MTV americana acabou com o programa semanal de três horas que enfocava o metal e o rock pesado em geral, o “Headbanger’s Ball”, versão yankee do “Fúria Metal”, que só não acaba porque Gastão Moreira segura as pontas. Ora, meus amigos, o rock sempre representou a ousadia, a liberdade de expressão, a vanguarda da cultura mundial, e apesar de às vezes manipulado e consumido pelo sistema, sempre foi (e será) a bandeira das conquistas da juventude, em todos os tempos e em todos os lugares. É claro que não se trata de um processo cíclico, pois rock não é moda, é o Inconsciente Coletivo Reacionário em ação.

Na chamada imprensa especializada no Brasil não há muita diferença. Do fascismo brando de André Forastieri na coluna semanal da Folha de São Paulo ou mesmo no comando da Revista General, à guinada do jornal carioca International Magazine para a mpb, todos se empenham, talvez até inconscientemente, para a óbvia defesa do sistema. A conseqüência disso tudo é que, sob o rótulo de “rock independente” ou “rock alternativo”, o rock tem deixado os meios de comunicação de uma forma geral para habitar guetos, onde o público das bandas são elas próprias, salvo raras exceções ou o caso de bandas já consagradas. Nada do que foi falado aqui tem acontecido por acaso. Tudo está interligado, como se houvesse uma sincronicidade reacionária em todo o mundo. Mas por que isso acontece? Com a queda do muro de Berlim e o fim dos regimes políticos do Leste Europeu, sem entrar aqui no mérito da questão, o mundo constatou o fim do socialismo; mas ninguém assume a ineficácia do capitalismo, um sistema perverso que mantém milhões de famintos no terceiro mundo par sustentar o avanço tecnológico do primeiro. A crise mundial das esquerdas é também responsável por isso.

Assim, aparentemente não há como sair dessa e buscar de novo a ousadia. A não ser se observarmos os focos de resistência ao conservadorismo. O jornal inglês “The Times” documentou em 20 de fevereiro a invasão do Castelo de Windsor, onde manifestantes querem reabrir uma passagem subterrânea fechada há mais de cem anos. Membros do “Coalition Against The Criminal Justice Act”, grupo que luta contra as leis reacionária, só invadiram o castelo como reação ao pacote conservador. Os squatters da Holanda, Itália e de toda a Europa também estão organizados e lutam pelos seus direitos. Nos Estados Unidos, os movimentos a favor do aborto, apoiados por bandas como o L7, entre outras, e a luta do rap contra a discriminação racial também representam focos de defesa das liberdades individuais. No Brasil a coisa não vai tão bem. Enquanto a imprensa manipula a informação e defende sempre o Estado, as rádios rock vão se acabando. E, como na ditadura, quem manda é o Plano Real: “ninguém segura esse País”.

No entanto, uma coisa deve ser lembrada. Todas as vezes que a juventude se viu prejudicada por transformações sociais que contrariavam ou restringiam sua liberdade de expressão, movimentos surgiram em todo o mundo em defesa da rebeldia e do questionamento das imposições. Foi assim no final dos anos 50, na criação do rock’n’roll, no final dos anos 60, com o movimento hippie, e nos anos 70, com o punk. E nesses anos todos, todas as vezes que o rock’n’roll esteve por baixo, como agora, quando todos pensavam que o rock iria acabar, foi aí que ele voltou com mais força ainda. Porque, se me permite Neil Young, “rock’n’roll can never die, rock’n’roll is here to stay”. Por isso, mais cedo ou mais tarde, alguma coisa está para acontecer. Não é previsão, não, é o uso da geografia determinística: “estudar o passado, para entender o presente e prever o seu futuro”. Alguém duvida?

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