O Homem Baile
19 de janeiro de 2006
Em noite de dois públicos, Luxúria reafirma pecha de bola da vez no Humaitá Pra Peixe
Cidadão Instigado agrada com viagem ampla, diversificada e sem rumo. Fotos: Joca Vidal/Divulgação

Se alguém traçasse ontem uma linha divisória imaginária no Espaço Cultural Sérgio Porto, conseguiria facilmente separar duas fatias distintas o público. De um lado, os antenados nas novidades do rock, e, de outro, aqueles que vêem na mpb cabeça o futuro da música pop nacional. Quem se deu bem foi o Cidadão Instigado, que tocou primeiro e teve a soma dos diferentes a seu favor.

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Catatau viaja com seu Cidadão Instigado
Desde que surgiu no Abril Pro Rock de 2000, Fernando Catatau, o homem por trás da banda, sempre se embrenhou por caminhos inóspitos dentro da música. De lá para cá ele se mudou de Fortaleza para São Paulo, integrou o Coletivo Instituto, e ontem apresentou uma considerável evolução do ponto de vista estético. A música do Cidadão Instigado hoje é um complexo de referências manipuladas por alguém que não parece nada satisfeito com o que ouve por aí. Com o Instituto ele aprendeu a lidar com recursos de estúdio/eletrônicos que permeiam todo o show, e sua guitarra desgovernada dá conta do resto, guiando uma banda igualmente técnica e inovadora.

Sem muita cerimônia, Catatau resgata a mpb dos anos 70 (o nosso rock de então), visita o brega à Odair José, dá uma de King Crimson porra-enlouquecido, desconstrói a música pesada a custa de ruídos aparentemente desconexos, pisca para uma surf music from hell e arranca aplausos de um público que já entrou no local com as mãos em posição para fazê-lo. O apanhado é tão grande e imiscível entre si que determinados trechos do show não parece que foram feitos pelo mesmo artista, quiçá no mesmo palco. É como se cada música fosse tocada por uma banda diferente, o que, se mostra criatividade e amplitude estética, flagra uma certa falta de unidade, resultando num trabalho sem rosto, ou, por outra, com várias faces. Uma vez descoberto o que o instiga, Catatau precisa agora arranjar um jeito de fundir tudo isso. Ou não, a julgar pelo apreço do público de ontem à noite.

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Meg: a força vocal do Luxúria
Revelado no Porão do Rock do ano passado, o Luxúria, que é do interior de São Paulo, constrói carreira no Rio, e já tem um pequeno (porém animado) séqüito de seguidores. E não é à toa: suas músicas são fáceis, têm refrão repetido, e, a bem da verdade, são muito cativantes, embora pesadas. Do repertório que eles apresentaram ontem, praticamente o mesmo que levou a banda à final do Festival Oi Tem Peixe Na Rede, no mínimo umas três músicas têm potencial radiofônico garantido: a ótima “Imperecível”, “Frankstein do Subúrbio” e “Contrariada”. E olha que a tal música de trabalho deve ser “Ódio”, que ontem, inclusive, foi cantada numa segunda vez no bis.

Mas não é só de boas músicas que o Luxúria é feito. No palco, sobra competência instrumental e peso, sobretudo com o batera mão de ferro que há anos integrava o Viper, instituição do metal nacional. E a performance da vocalista Meg é mesmo de arrebentar, muita embora o palco baixo do Espaço Cultural Sérgio Porto tenha privado boa parte do público de aproveitá-la. Meg não estava nem aí e soltou o vozeirão no limite do grito, mantendo o padrão de outras apresentações da banda. De novidade mesmo no set só a substituição do cover de “Sheena Is a Punk Rocker” pelo de “Dance With Myself”, de Billy Idol - piorou, né? No fim ficou a certeza de que a banda é outra revelação de 2005 (como o Moptop) que está na eminência de estourar. Não pela motivação do público de ontem, que até diminuiu em relação ao início da noite, mas por que tá na cara mesmo.

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