

Numa época em que coletâneas em geral são feitas para salvar carreiras em decadência, há que se suspeitar de um disco que vasculha o repertório do Aborto Elétrico, banda da qual ninguém menos que Renato Russo era o principal compositor. Não é, entretanto, o caso. Também ex-integrantes do Aborto Elétrico, os irmãos Fê e Flávio Lemos (hoje baterista e baixista do Capital Inicial) são realmente as pessoas mais indicadas para trazer a público as músicas que são a pedra fundamental do rock de Brasília, e que serviram de ponto de partida para o próprio Capital, Legião e (até) Paralamas. E o capital Inicial está longe de mostrar sinais de uma derrocada comercial.
Ok, só parte das 18 músicas são inéditas, mas, se levarmos em conta o apuro do grupo em resgatar a sonoridade da época, encontraremos clássicos do naipe de “Geração Coca-Cola”, “Fátima” e “Que País é Esse?” em versões mais próximas possível de como elas seriam se tivessem sido gravadas pelo próprio Aborto em 1980, resguardadas as diferenças tecnológicas entre as duas épocas. E aí é que entramos numa verdadeira máquina do tempo, na qual realçam o punk e o pós punk inglês e americano que tanto influenciaram a tal turma da Colina. Não é exagero afirmar que muitas delas – caso de “Geração Coca-Cola” – se parecem inclusive com as versões das fitas demo que tocaram na saudosa Fluminense FM, época em que todas essas bandas eram apresentadas ao mercado. Depois, embaladas pelas respectivas gravadoras, elas nunca mais foram tão francas, diretas e certeiras, até pelo amadurecimento de todos.
Assim, além de uma “Fátima” sem teclados e cheia de riffs, e uma “Conexão Amazônica” totalmente sem censura, há, no repertório inédito, perolas como “Despertar dos Mortos” (Você de esquerda, você de direita / São todos uns babacas e velhos demais / Vivendo intrigas e tempos atrás / Acabe com a merda e nos deixem em paz”) e “Construção Civil”, que são bem o retrato de uma época, do ponto de vista adolescente de uma nova geração que veio para mudar tudo. Vinte e cinco anos depois, porém, apesar dos avanços, restou ainda a censura (interna, da gravadora e da banda) para a letra de “Benzina”, que, por falar em cheirar benzina, ficou instrumental mesmo.
Mas o que fica, no final das contas, é a confirmação de que Renato Russo era mesmo um artista vocacional e visionário. Porque não é qualquer um que escreve o que ele escreveu, numa época tão distante (não só na fria cronologia, mas nos costumes e política) e tudo, hoje, parece tão atual como o que ainda vai acontecer. E os irmãos Lemos e o Capital, coadjuvantes de luxo, ficam com o mérito de ter mantido o “espírito” da época, preservando o momento histórico que hoje é matéria de estudo. Isso sim é que é o rock dos anos 80.