O Homem Baile
05 de dezembro de 2005
No show do Pearl Jam, público é que surpreende e rouba a festa
Em noite de muita emoção, Eddie Vedder se rasga em elogios aos fãs cariocas. Fotos: Kerensa Wight/Divulgação site oficial

pearljamrio1.jpg

Fazia tempo que não se via uma Praça da Apoteose tão vibrante, incluindo aí os dois finais e semana a que o Carnaval tem direito. E também fazia tempo que todo mundo no Rio clamava por um show do Pearl Jam, ao menos desde o início dos anos 90, quando, a cada edição do extinto Hollywood Rock a banda de Seattle era anunciada/pedida para o ano seguinte. Uma demanda de várias gerações só poderia mesmo acarretar num espetáculo cercado de fortes emoções e que mobilizou uma cidade inteira, incluindo até a mídia desespecializada.

Em setores da especializada, aliás, a surpresa talvez tenha sido maior ainda. Não é de hoje que se reclama horrores quando as ditas rádios rock tocam “Alive”, primeiro grande sucesso da banda, o tempo todo na programação. Dava a entender que, no Brasil, a fase do álbum “Ten”, que catapultou o Pearl Jam para o mundo, era a única conhecida do público, e que os demais álbuns eram meramente ignorados. Pois o show do histórico 4 de dezembro de 2005, além de toda aura, teve também o mérito de desfazer essa máxima. Tanto que “Last Exit”, do (fraco) álbum “Vitalogy”, abriu o show com praticamente um só coro de 40 mil vozes. Fosse qual fosse o repertório escolhido pela banda (e ele muda a cada noite) e essas insistentes vozes continuariam a cantar sílaba por sílaba.

Mesmo sem lançar um disco de inéditas desde 2002 – o ótimo “Riot Act” - o Pearl Jam é hoje uma banda de rock feroz que tem a força no excelente baterista Matt Cameron, e no impecável entrosamento entre os dois guitarristas: o comedido Stone Gossard, um dos melhores guitarristas base do rock contemporâneo, e o nervoso Mike McCready, que por mais de uma vez solou alucinadamente, chegando a usar os dentes para tirar som da guitarra. Mas é Eddie Vedder quem melhor emblematiza a banda. Nesta turnê ele estava, inclusive, bem caracterizado, como um messias do rock que regia e interagia com um rebanho fiel. Com barba e cabelos longos, e um casaco desses de estudante que entra pra a UNE, só faltou mesmo a bolsa de couro atravessada a tronco. Tomado pela emoção da platéia, ele não se conteve. Citou as escolas de samba, disse que o Rio era melhor que Seattle, puxou um corinho de “Hey! Ho! Rio! ” (numa alusão aos Ramones, sua banda predileta), e elogiou e agradeceu à platéia se cobrindo com uma bandeira brasileira jogada a palco. No final, chegou a descer no fosso que separa o palco do público e quase não voltou. E tudo isso gastando um português lido num caderninho que carregava com ele, junto com a já tradicional uma garrafa de vinho tinto.

Difícil, em meio a um verdadeiro ritual de adoração, apontar momentos melhores que os outros. E nem dá para reclamar quando absolutamente tudo é aplaudido e cantado por todos. Talvez tenha sido a seqüência “Even Flow”, “Leatherman”, “Given To Fly” e “Daughter”, até porque nesta última o público inventou na hora um “ô ô ô” percebido pela banda e que seria repetido em outros intervalos. Talvez fosse o encerramento do primeiro bis, com a já citada “Alive” – foi nela que McCready escovou os dentes com a guitarra. Ou até nas covers para “I Believe In Miracles” (Ramones), em homenagem a Johnny Ramone, falecido este ano, seguido de “Kick Out The Jams” (MC5), tocado junto com integrantes do conterrâneo Mudhoney, que abrira o show. Ou, ainda, quem sabe, o espetacular segundo bis, com nada menos que “Last Kiss”, “Black”, “Jeremy”, “Yellow Ledbetter” e a inesperada “Baba O'Riley”, do Who. Não dá pra saber.

O certo mesmo é que duas horas e meia e 28 músicas depois, a Praça da Apoteose era uma terra devastada e feliz. Cada minuto de espera valera à pena. Coisas que, diria o filósofo, só o rock’n’roll pode proporcionar.

pearljamrio2.jpg

Set list oficial
Last Exit
Do The Evolution
Save You
Animal
Insignificance
Interstellar Overdrive/Corduroy
Dissident
Even Flow
Leatherman
Given To Fly
Daughter
Don't Gimme No Lip
Not For You
Small Town
Down
Once
Go
Bis
Soon Forget
Better Man
I Believe in Miracles
Blood
Kick Out The Jams
Alive
Bis
Last Kiss
Black
Jeremy
Yellow Ledbetter
Baba O'Riley

ESCREVA UM COMENTÁRIO

Nome
Email
Site
Salvar informações pessoais?
Sim       Não
Comentário (you may use HTML tags for style)















desenvolvido por
Gabriel Lupi / zupa.net

ilustrações por
Flávio Flock


© 2005 - 2006 - Rock em Geral: gardenal.org/rockemgeral
Os textos publicados em Rock é Rock Mesmo podem ser reproduzidos total ou parcialmente, desde que sejam citados fonte, autoria e endreço do site. O sistema de comentários disponibilizado aos leitores do Rock em Geral é exclusivamente para a publicação de opiniões e comentários relacionados ao conteúdo deste site. Todo e qualquer texto publicado na internet através deste sistema, assim como os links oferecidos, não refletem, necessariamente, a opinião de seu autor. Os comentários publicados através deste sistema são de exclusiva e integral responsabilidade e autoria dos leitores que dele fizerem uso, e podem ser excluídos, a critério do autor do site.