

Se existe um grupo que tem uma relação muito pessoal com o cover, estamos falando do Dream Theater. Não só pelo fato de a banda, nos últimos tempos tocar, quando tem duas datas agendadas para a mesma cidade, um álbum inteiro de outro artista, mas pelo show em si, e isso não é de hoje. É verdade que em Buenos Aires eles optaram pelo clássico “Scenes From a Memory” (oitavo disco da banda), mas o fã de metal mais perspicaz certamente percebeu, durante as três horas do show de ontem, um trechinho de Metallica aqui (“Wherever I May Roam”), um Pink Floyd acolá (“Wish You Were Here”), entre outras citações.
Não seria correto, porém, destacar da exuberante apresentação da banda símbolo do prog metal apenas esta peculiaridade, até porque em grupos de grandes instrumentistas, situações peculiares é que não faltam. Por causa dos oito anos de ausência na cidade a banda decidiu tocar ao menos uma música de cada álbum – como o vocalista James LaBrie falou para a platéia – mas o substancial do show fico mesmo para as músicas do último disco, “Octavarium”. O início, claro, foi com a empolgante “The Root Of Evil”, emendada na excelente “Panick Attack”, que, furiosa, serviu para testar a capacidade da banda de tocar rápido e com correção. Qual não foi a surpresa de ver Mike Portnoy rindo a toa e tocando até as partes mais rápidas com uma tranqüilidade ímpar. Parecia realmente fácil. Durante todo o set ficou claro também, por que ele não faz mais o tradicional solo no meio do show: prefere desaguar sua virtuose a cada música, invertendo seqüências e criando viradas sutis e evoluções personalizadas.
A promessa de LaBrie se cumpre, sobretudo em músicas obscuras como a progressiva “A Fortune In Lies”, e nas óbvias “Peruvian Skies” e “As I Am”, outra agitadíssima, e que serve de abertura para a segunda parte do show – há um interalo de uns vinte minutos. É na segunda parte que entram também “I Walk Beside You”, talvez a mais dramática do novo disco, e, por incrível que pareça, “Octavarium”, a música, com 24 minutos, é tocada com uma perfeição quase erudita. A façanha é acompanhada por uma platéia boquiaberta, às vezes empolgada, mas, na maior parte do tempo, contemplativa. Quem ainda guardava alguma dúvida quanto ao poder da música do grupo de cativar o ouvinte, este show tratou de deixar tudo em pratos limpos: nunca a técnica apurada casou tão bem com canções boas e cativantes.
Outras dúvidas, porém, prevalecem. Quantos dedos tem o baixista John Myung? Como pode, numa banda com tantos virtuosos, o som do teclado de Jordan Rudess não soar chato? Como o guitarrista John Petrucci consegue, num emaranhado sonoro altamente complexo, não dispor, ao menos nos shows, de um guitarrista de apoio? Segredos que só uma banda especial mantém. O bis que completou as três horas de show veio com a baladaça “The Spirit Carries On”, o que acarretou num mar de braços erguidos e celulares iluminados – isqueiro é coisa do passado. Tanto quem apostou se o encerramento seria com “Metropolis”, como quem apontou o clássico dos clássicos “Pull Me Under” saiu satisfeito, com o medley que incluiu as duas. No fim, a banda veio à frente do palco falar com os fãs e quase não conseguiu ir embora. Tomara que voltem logo.