
Comecei assim o texto desta coluna porque ela – a coluna – já foi iniciada há mais de uma semana. Tal qual o rock, e, sobretudo, o show de rock, Rock é Rock Mesmo também antecede a si própria. Mas dizia que começava assim para chegar na verdade inapelável: a saída de Tarja Turunen do Nightwish. A cantora foi expulsa da banda através de uma lamentável carta escrita por Tuomas Holopainen e assinada por todos os outros integrantes. A carta é uma verdadeira lista de reclamações infantis nas quais é difícil de se acreditar. Ou, por outra, difícil mesmo é acreditar que alguém escreveu aquilo e divulgou na mídia para explicar a saída de uma vocalista. Uma atitude de uma pequenez atroz. Que fique claro: não sou contra nem a favor de um nem de outro lado; muito pelo contrário, muro total.
Não sei se exatamente por esses motivos, mas para mim, desde o show de 2003, aqui no Rio (aquele do Claro Hall) achava que Tarja, cedo ou tarde, deixaria a banda. Tava na cara. E explico. O Nightwish é uma banda criada por Tuomas Holopainen, tecladista, compositor, arranjador e idealizador de tudo no grupo, incluindo a voz de uma soprano que ele decidiu ter para cantar as músicas que compunha. Tarja era só a vocalista, e, como tal, a front woman da parada. Isso no começo. Aos poucos, mais e mais a imagem da vocalista foi sendo usada como referência para o grupo, e Tuomas foi se sentindo meio “para trás”.
Digo isso não com uma certeza absoluta, ou depois de ter apurado jornalisticamente os fatos. Mas por pura intuição, acompanhamento e observação. Nesse show do Claro Hall era notável o esforço que Tuomas fazia para se destacar no palco atrás da estante de teclados, enquanto Tarja, exuberante e com toda naturalidade, ganha o inapelavelmente o público. A cantora de voz de anjo e beleza assustadora era a dona da situação, e isso incomodava Tuomas, afinal, tudo ali, inclusive ela, era a criação dele. Saí daquele show com a certeza de que o Nightwish estava com os dias contados.
Mas nem sempre foi assim. Quem tem os discos do Nightwish, pode ir lá na estante pegar e acompanhar o raciocínio. No início, as fotos do encarte (e também as de divulgação) mostravam uma Tarja com vários quilinhos a mais, mas parecendo uma pândega lavadeira viking em trajes dominicais. Aos poucos, por orientação de gravadoras ou marketing, Tarja acertou as formas e praticamente se transformou numa sex symbol em pleno meio do heavy metal. Sua imagem foi colocada à frente da banda, o que incomodou Tuomas, afinal, tudo ali, inclusive ela, era a criação dele. Na carta que publicamos aqui no site, a história não é bem essa. Tarja é colocada como verdadeira vilã, e coisas muito baixas são desnecessariamente colocadas em praça pública. Não precisava, bastava dizer que ela saiu e pronto; era a hora de realçar as tais “diferenças musicais”.
Sei que os fãs estão inconsoláveis, mas afirmo que, logo, tudo vai passar. Grupos geniais, em todos os subgêneros já passaram, e o rock está aí. E, ademais, o Nightwish não acabou, só vai substituir a vocalista. Muitos dirão, tomados pela emoção, que a bela finlandesa é insubstituível, mas, na verdade nua e crua, não é. Tarja é uma soprano, e até de sopranos o mundo anda cheio. Basta Tuomas procurar com calma que vai encontrar uma. Pode não ser a escolhida igualzinha a Tarja, mas vai dar conta do recado. Ele soube escolher Tarja, vai saber encontrar outra. E olha que agora ele está bem mais experiente. Gato escaldado sabe escolher vocalista.
Outro fator que deve ter contribuído para a situação de desentendimento no Nightwish foi o fato de a banda ter se tornado um sucesso formidável, não da noite pra o dia como o Evanescence, mas com força comercial semelhante. O Nightwish foi um caso típico das “correntes negras” de Edgar Morin, teoria segundo a qual, resumidamente, o esquemão absorve implacavelmente as crias do underground e as transforma de acordo com interesses e regras que lhe são próprias. Dizer que a banda sucumbiu ao sucesso seria um exagero, mesmo porque, repito, o que aconteceu foi só a saída de uma dos integrantes.
Eu poderia ficar aqui a dar exemplo de bandas que substituíram vocalistas e prosperaram. Poderia citar Iron Maiden, Genesis, Deep Purple, Black Sabbath, Faith No More (tinha que aparecer um Patton aqui), e assim por diante. Mas sinceramente acho desnecessário. Poderia, ainda, de outro lado, enumerar bandas excepcionas que já acabaram, como Police, Led Zeppelin, Nirvana, The Sisters of Mercy e The Smiths, entre outras. Mas, vamos e venhamos, não é o caso. Porque, como dizia o velho locutor de rádio AM que virou político, o ontem já era, o hoje é o dia, e o amanhã poderá não mais chegar.
Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!
Nota: não sou dado a homenagens, mas a coluna de hoje deve registrar o passamento do professor Roberto Moura, um dos que contribuiu para a formação deste que vos escreve. Vai na fé, mestre.
E aí cara, beleza?
Bemm.... essa história da Tarja com o NW é bem controversa.
Particularmente, acredito na hipótese q coloca a Tarja como "vilã" da história, por causa do depoimento de Estevão Ferraz no Whiplash (http://whiplash.net/materias/opinioes/026802-nightwish.html)
No mais o texto ficou ótimo como sempre. Só não concordo com você ter citado o Evanescence, parece ser mais uma das milhares de comparações entre as duas bandas.