Rock é Rock Mesmo
03 de novembro de 2005
Tarja Turunen se foi, mas o mundo está cheio de sopranos por aí
Não é de hoje que o Nightwish mostrava que, com o sucesso, cedo ou tarde iria dar um bilhete azul para a cantora Tarja Turunen. Tuomas Holopainen escreveu a carta de dispensa e todos assinaram embaixo, para desespero dos inconsoláveis fãs.

Meus amigos, o que não tem remédio, remediado está. Já disse aqui numa dessas colunas passadas que as bandas vão e vêm, nascem, crescem e morrem. O rock, jamais. Pode parecer, numa primeira leitura, que a afirmativa carrega um certo paradoxo, afinal, sem bandas não há rock, sem rock não há nada. Mas postulo isso porque, em todos esses anos, vi bandas que eu gostava muito irem para o saco, e vi nascerem grupos fenomenais, que mais tarde também acabariam, e nada disso impedia que o rock prosseguisse na suas eterna vocação para o novo.

Comecei assim o texto desta coluna porque ela – a coluna – já foi iniciada há mais de uma semana. Tal qual o rock, e, sobretudo, o show de rock, Rock é Rock Mesmo também antecede a si própria. Mas dizia que começava assim para chegar na verdade inapelável: a saída de Tarja Turunen do Nightwish. A cantora foi expulsa da banda através de uma lamentável carta escrita por Tuomas Holopainen e assinada por todos os outros integrantes. A carta é uma verdadeira lista de reclamações infantis nas quais é difícil de se acreditar. Ou, por outra, difícil mesmo é acreditar que alguém escreveu aquilo e divulgou na mídia para explicar a saída de uma vocalista. Uma atitude de uma pequenez atroz. Que fique claro: não sou contra nem a favor de um nem de outro lado; muito pelo contrário, muro total.

Não sei se exatamente por esses motivos, mas para mim, desde o show de 2003, aqui no Rio (aquele do Claro Hall) achava que Tarja, cedo ou tarde, deixaria a banda. Tava na cara. E explico. O Nightwish é uma banda criada por Tuomas Holopainen, tecladista, compositor, arranjador e idealizador de tudo no grupo, incluindo a voz de uma soprano que ele decidiu ter para cantar as músicas que compunha. Tarja era só a vocalista, e, como tal, a front woman da parada. Isso no começo. Aos poucos, mais e mais a imagem da vocalista foi sendo usada como referência para o grupo, e Tuomas foi se sentindo meio “para trás”.

Digo isso não com uma certeza absoluta, ou depois de ter apurado jornalisticamente os fatos. Mas por pura intuição, acompanhamento e observação. Nesse show do Claro Hall era notável o esforço que Tuomas fazia para se destacar no palco atrás da estante de teclados, enquanto Tarja, exuberante e com toda naturalidade, ganha o inapelavelmente o público. A cantora de voz de anjo e beleza assustadora era a dona da situação, e isso incomodava Tuomas, afinal, tudo ali, inclusive ela, era a criação dele. Saí daquele show com a certeza de que o Nightwish estava com os dias contados.

Mas nem sempre foi assim. Quem tem os discos do Nightwish, pode ir lá na estante pegar e acompanhar o raciocínio. No início, as fotos do encarte (e também as de divulgação) mostravam uma Tarja com vários quilinhos a mais, mas parecendo uma pândega lavadeira viking em trajes dominicais. Aos poucos, por orientação de gravadoras ou marketing, Tarja acertou as formas e praticamente se transformou numa sex symbol em pleno meio do heavy metal. Sua imagem foi colocada à frente da banda, o que incomodou Tuomas, afinal, tudo ali, inclusive ela, era a criação dele. Na carta que publicamos aqui no site, a história não é bem essa. Tarja é colocada como verdadeira vilã, e coisas muito baixas são desnecessariamente colocadas em praça pública. Não precisava, bastava dizer que ela saiu e pronto; era a hora de realçar as tais “diferenças musicais”.

Sei que os fãs estão inconsoláveis, mas afirmo que, logo, tudo vai passar. Grupos geniais, em todos os subgêneros já passaram, e o rock está aí. E, ademais, o Nightwish não acabou, só vai substituir a vocalista. Muitos dirão, tomados pela emoção, que a bela finlandesa é insubstituível, mas, na verdade nua e crua, não é. Tarja é uma soprano, e até de sopranos o mundo anda cheio. Basta Tuomas procurar com calma que vai encontrar uma. Pode não ser a escolhida igualzinha a Tarja, mas vai dar conta do recado. Ele soube escolher Tarja, vai saber encontrar outra. E olha que agora ele está bem mais experiente. Gato escaldado sabe escolher vocalista.

Outro fator que deve ter contribuído para a situação de desentendimento no Nightwish foi o fato de a banda ter se tornado um sucesso formidável, não da noite pra o dia como o Evanescence, mas com força comercial semelhante. O Nightwish foi um caso típico das “correntes negras” de Edgar Morin, teoria segundo a qual, resumidamente, o esquemão absorve implacavelmente as crias do underground e as transforma de acordo com interesses e regras que lhe são próprias. Dizer que a banda sucumbiu ao sucesso seria um exagero, mesmo porque, repito, o que aconteceu foi só a saída de uma dos integrantes.

Eu poderia ficar aqui a dar exemplo de bandas que substituíram vocalistas e prosperaram. Poderia citar Iron Maiden, Genesis, Deep Purple, Black Sabbath, Faith No More (tinha que aparecer um Patton aqui), e assim por diante. Mas sinceramente acho desnecessário. Poderia, ainda, de outro lado, enumerar bandas excepcionas que já acabaram, como Police, Led Zeppelin, Nirvana, The Sisters of Mercy e The Smiths, entre outras. Mas, vamos e venhamos, não é o caso. Porque, como dizia o velho locutor de rádio AM que virou político, o ontem já era, o hoje é o dia, e o amanhã poderá não mais chegar.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

Nota: não sou dado a homenagens, mas a coluna de hoje deve registrar o passamento do professor Roberto Moura, um dos que contribuiu para a formação deste que vos escreve. Vai na fé, mestre.

em março 12, 2006 07:45 PM [Gabriel (Salsixa)]

E aí cara, beleza?

Bemm.... essa história da Tarja com o NW é bem controversa.
Particularmente, acredito na hipótese q coloca a Tarja como "vilã" da história, por causa do depoimento de Estevão Ferraz no Whiplash (http://whiplash.net/materias/opinioes/026802-nightwish.html)

No mais o texto ficou ótimo como sempre. Só não concordo com você ter citado o Evanescence, parece ser mais uma das milhares de comparações entre as duas bandas.



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