No Mundo do Rock
08 de novembro de 2005
Para Roger Glover, só Rock And Roll Hall Of Fame pode trazer formação clássica do Deep Purple de volta
Banda fez turnê pelo Brasil para lançar o mais recente disco, “Rapture of The Deep”, e baixista descartou projetos revivalistas. Fotos: Divulgação e Ricardo Ayres & Rodrigo Castro (Photocamera/Ao vivo).

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Quem olha para a árvore genealógica do Deep Purple encontra um sem número de integrantes que tocaram nesses 37 anos de existência do grupo que ajudou a fundar o heavy metal. Jon Lord, o único que havia participado de todas as encarnações da banda, se aposentou há dois discos, e hoje são o baixista Roger Glover e o vocalista Ian Gillan que dão as cartas. Se depender deles, o Purple não vai abandonar os palcos tão cedo, e continua lançando discos regularmente. O último é “Rapture of The Deep”, que teve três músicas incluídas no repertório apresentado na turnê brasileira, encerrada na sexta passada no Rio, com um show no Claro Hall. Completam a formação atual Ian Paice (bateria), Steve Morse (guitarra) e Don Airey (teclados).

“Rapture of The Deep” é o segundo álbum seguido que mostra uma certa volta às raízes da banda, talvez pelos integrantes mais novos – sobretudo Steve Morse – estarem mais integrados como o “modus operandi” do Deep Purple. No dia do show do Rio, Roger Glover recebeu nossa reportagem para uma entrevista exclusiva, no hall do hotel onde a banda estava hospedada. Ele falou do disco novo, da dificuldade de montar um set list curto, com tantos clássicos nas costas, e descartou uma reunião com os ex-integrantes – citou até o desafeto David Coverdale – a menos que seja na mais famosa premiação do mundo do rock, a do Rock And Roll Hall Of Fame. Confira os principais trechos:

Rock em Geral: O que vocês está achando dessa turnê pelo Brasil?

Roger Glover: Está quase acabando, é o último show esta noite e está sendo incrível, verdadeiramente incrível, porque o público é muito jovem. A cada vez que tocamos é mais novo.

RG: Isso no Brasil ou no mundo todo?

Roger: Na maior parte em todo o mundo, mas especialmente aqui no Brasil eu tenho notado isso. Nesse ano de novo, nos shows de São Paulo, tinha centenas de jovens nos shows. Isso quer dizer que temos um público se renovando o tempo todo, o que nos deixa felizes de tocar aqui de novo.

RG: Comparando o disco novo, “Rapture of The Deep”, com o “Bananas”, os dois são como um volta do Deep Purple ao início, uma volta às raízes, no bom sentido. É isso mesmo?

Roger: Quando você está numa banda, como eu, e lança um disco novo, não gosta de comparar com o anterior. Eu simplesmente gosto ou não gosto, isso não depende de comparações. Todo mundo pensa como se estivéssemos nos anos 70. Mas de alguma forma o que você disse faz sentido. Temos um produtor que não perde muito tempo produzindo o disco. Se você não tem um produtor, e um cara como eu ou toda a banda faz este trabalho, passam dois, três, quatro meses e ainda estamos lá presos em detalhes. Michael (Bradford, produtor) é o tipo de cara que, quando você acha que uma coisa vai demorar um tempão ele ajusta rápido. Você vai para o estúdio todo dia sabendo o que tem realmente a fazer, sem ficar buscando novas idéias, fica concentrado naquilo. Mas acho que o que você falou tem a ver com o fato de tudo ter saído muito rápido, muito “ao vivo”. Íamos para o estúdio todos os dias, trabalhávamos durante duas ou três horas e combinávamos como as coisas ficariam, tudo no puro instinto. Teve baixos que eu fiz em duas ou três horas. E logo tínhamos um disco pronto. Me lembro de ter chaga no estúdio, num dia, e ter dito: “podemos fazer isso melhor”. E Michael: “Não, está bom”. Então ficou tudo muito cru.

RG: Ele já trabalhou com artistas pop como Madonna e Terence Trent D’Arby. Isso chegou a atrapalhar o processo com o Deep Purple?

Roger: Não, eu mesmo, como produtor, trabalhei com pessoas bem diferentes, mas é a mesma coisa. Trabalhei com artistas country, heavy metal. Como produtor, a única coisa que você tem é um artista do qual você tem que tirar um bom desempenho. Então não importa com quem ele trabalhou antes.

RG: Desde que Steve Morse entrou para a banda, este é o quarto álbum que o Deep Purple lança, e parece que os dois últimos estão mais pesados porque ele se integrou melhor ao “jeito Purple” de trocar...

Roger: Para ser honesto eu não analiso muito esse tipo de coisa, mas eu sei que quando Steve entrou para a banda foi uma coisa totalmente fresca e nova. Fui eu quem sugeriu o nome dele. Eu era fã do Dixie Drags (banda da qual Steve Morse fez parte), tinha uma música em particular que eu ouvi no rádio e fiquei curioso, mas nunca pensei que um dia fosse trabalhar com ele. Em 94 estávamos procurando por um guitarrista...

RG: Vocês estavam com o Satriani...

Roger: Joe Satriani fez algumas turnês conosco, mas ele tinha seus próprios compromissos e não poderia ser um integrante permanente. Quando acabamos a turnê que de 94, Joe disse que gostaria de trabalhar mais conosco, mas tinha dois álbuns para lançar pela gravadora dele. Ele quis saber se poderíamos esperá-lo, e dissemos que não. Mas Joe foi um grande substituto para nós, talvez o guitarrista mais importante para a banda depois de Ritchie (Blackmore, ex-guitarrista). Eu acho que muitas pessoas pensam assim, inclusive nós. Ritchie foi um ícone muito importante para a banda. Mas Joe não podia ficar, eu estava no meu estúdio com uns caras e vi um disco do Steve Morse, entre vários CDs, e disse: esse é o cara, Steve Morse. Nós nos encontramos nos Estados Unidos e ele topou fazer uns shows conosco. Ele perguntou: “o que vocês querem de mim?” Eu disse para ele o que eu não queria dele. O que eu não queria era alguém que tocasse como o Ritchie, agisse como o Ritchie, compusesse como o Ritchie... Senão ele seria uma cópia do Ritchie. Para ter sucesso na banda, você deve ser cem por cento você próprio, queremos você como Steve Morse, não um Ritchie Blackmore 2. No estúdio demos a ele conselhos para ele trazer diferentes tipos de música, e quando nós começamos a trabalhar no “Purpendicular” (primeiro disco com Steve Morse como guitarrista, de 1996), ele mostrou umas músicas, mas disse não soava como Deep Purple. E eu disse: soará como Deep Purple se nós fizermos essas músicas, é o que faz virar Deep Purple. Não somos limitados pelo nosso passado, estamos livres para fazer qualquer tipo de música.

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RG: Esse é também o segundo disco com o Don Airey, que substitui Jon Lord, o único integrante que havia participado de todas as formações do Deep Purple. Ele está contribuindo mais com a banda agora?

Roger: Eu acho que no primeiro álbum... Eu não diria que ele fez pouco, porque musicalmente ele é um gigante, mas ele era o cara novo na banda, e como tal, eu acho que ele não participou tanto, não tinha muita idéia de como trabalhar como uma banda, no estúdio. Acho que neste disco ele aprendeu a forma como a qual nós operamos. Não somos uma banda tão profissional assim, não temos horários rígidos ou encontros para discutirmos as coisas. Ficamos juntos tanto quando possível, mas não nos preocupamos tanto com isso, talvez seja uma coisa ruim; mas eu acho que desde então ele tem aprendido o que é uma relação conosco. Ele é um cara muito engraçado e inteligente, além de ser um ótimo músico. É bom ter essa família em turnê.

RG: E o que o Jon Lord está fazendo?

Roger: O Jon tem músicas que tem que vir a público, mas não é nada de hard rock, é algo bem distinto dele, para a voz dele, uma coisa própria. Não seria certo ele compor este tipo de música conosco. Ele só deu um tempo, é um músico que precisa mais tempo do que aquele que nós gastamos viajando. Quando você está numa turnê, mais ou menos 22 horas do dia você está esperando, dormindo, viajando ou esperando. Claro que ele tinha motivos pessoais, e no caso dele, a coisa certa era sair. E acho que foi uma decisão muito difícil, assim como foi para o Ritchie há uns anos, uma coisa muito emocional. A transição dele para o Don foi feita com muito respeito.

RG: Esta é a segunda turnê que vocês começam pela América do Sul antes de ir para Europa e Estados Unidos...

Roger: É mesmo? Não tinha pensado nisso.

RG: É Algo planejado, por causa de um novo mercado aqui, com boa renovação de público, como você disse?

Roger: Talvez seja algo pensado pelo nosso empresário ou agente, nunca sabemos ou escolhemos para onde ir. Acho que o que eles fazem é negociar com as agências de show para saber onde estivemos tocando recentemente, para não ficar muito num lugar só. Fazia dois anos que não vínhamos ao Brasil... Eles devem ter um método de trabalho, mas nós temos que perguntar para eles para onde vamos ou mesmo checar na Internet.

RG: Como vocês solucionam o problema de montar um set list, com tantos discos lançados e ainda com um novo para divulgar?

Roger: Nós não nos preocupamos tanto com isso, na verdade. Fizemos alguns ensaios, principalmente do material novo, para a “Rapture Tour”, que está começando agora. Colocamos umas duas ou três das novas e vamos acertando com o tempo. O set list é um grande problema, porque todos querem ouvir coisas diferentes, cada um tem suas músicas preferidas. Basicamente nós nos restringimos aos clássicos que nós temos que fazer e uma pouco do material novo que achamos legal tocar. Eu acho que deveríamos tocar um pouco mais de tempo, mas não sou a única voz na banda... (Deu a entender que talvez Gillan não suporte).

RG: Vocês tocaram com uma orquestra em 2000. Existe a intenção de fazer o mesmo com o repertório do “Made In Japan”?

Roger: Não, nenhuma chance.

RG: E outros projetos com a participação de integrantes históricos, com Ritchie Blackmore e Jon Lord, tocando todos juntos?

Roger: Não... Eu não vou dizer que isso nunca vai acontecer, mas não é o que nós procuramos, o que nós consideramos. Nós não olhamos para trás, tentamos viver para frente o tempo todo. Mas se, por um milagre, nós entrarmos para o Rock And Roll Hall of Fame - o que eu duvido - acho que Ritchie e o Jon deveriam estar lá, para sermos honestos com eles, eles merecem isso. De outro lado, só fazer uma turnê para as pessoas nos verem com David Coverdale, Glenn Hughes ou Ritchie ou qualquer um dessas pessoas... Estamos muito felizes e temos tudo o que queremos aqui mesmo, não precisamos partir para isso.

RG: O mundo mudou nos últimos 37 anos. O que mudou na carreira do Deep Purple?

Roger: Nós mudamos muito. A medida em que você muda, perde aquele fogo, aquele ímpeto, é o que você dá em troca da idade. Eu e o Gillan discutimos isso outro dia, nós sobrevivemos a todas as coisas que jovens gostam. Temos que considerar isso quando chegamos aos 50, e que não há conclusões, porque nunca fomos cinquentões antes. Então olhando dessa forma ainda somos novos e inexperientes nisso... Mas todos mudamos, e, segundo o Paice, “quanto mais você faz uma coisa, você piora”... Acho que antes tocávamos com o fogo da juventude e agora tocamos com senso de maturidade, é um processo natural. Se você me fizesse essa pergunta há trinta anos, eu não conseguiria colocar duas palavras numa frase e te perguntaria: de que você está falando? Agora eu sei onde estou. RG: Em geral você ouve as novas bandas de rock, ou prefere outro tipo de música?

Roger: Na verdade eu escuto qualquer coisa, menos rock. Prefiro ouvir artistas que têm um outro processo de fazer música, soa mais estimulante para mim, como músico e compositor. Gosto de ser estimulado por música, ouvir música que eu não possa ter feito. Músicas que eu vejo que conseguiria escrever são chatas, antes do segundo verso eu já sei o que vai acontecer. Tento ouvir coisas diferentes.

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em abril 1, 2006 08:38 PM [ciro]

oi



em novembro 19, 2006 02:54 PM [iza maria]

Sou professora e trabalho com música há muito tempo. Tenho esta banda como referência musical, seja pela sensibilidade que apresentam ou pelo trabalho artístico de qualidade, imbatível ao longo desses anos. Creio que haja renovação, sim, a cada álbum lançado, a cada apresentação. E os novos integrantes profundamente enaltecem o espírito vivo do rock.



em janeiro 10, 2007 06:42 AM [Alexandre Pereira dos Santos]

Há um ero na reportagem. Ian Paice é o único integrante original da banda e que esteve em todas as formações. Jon Lord esteve presente também desde o início, mas como saiu em 2002, Paice agora, é o último do grupo original, MK I.



em janeiro 10, 2007 11:18 AM [Marcos Bragatto]

E onde está o erro, Alexandre?



em maio 14, 2007 01:50 AM [João Marcos]

Steve Morse reavivou o Deep Purple, e hoje os shows são esperados pelos riffs, palhetadas, coisas que só o Morse sabe fazer, e eleva o trabalho da banda. São ótimos!



em julho 6, 2007 11:29 AM [Pedro Ciarlini]

O erro que o Alexandre reportou está no fato de a reportagem relatar que apenas Jon Lord estava desde o início.



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