O Homem Baile
28 de novembro de 2005
No Rio, Claro que é rock tropeça nas próprias pernas e festival naufraga
Caminhão quebra, produção se atrapalha e reduz o tempo de apresentação de algumas bandas; Iggy And The Stooges e Nine Inch Nails fazem os melhores shows. Fotos: Guto Costa / Divulgação.

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O festival tinha tudo para dar certo. Depois de uma bem sucedida primeira etapa em que novas bandas foram pré-selecionadas em oito cidades espalhadas pelo Brasil, que contou com a estonteante turnê do Placebo, a etapa final previa uma escalação diferenciada, contando com artistas internacionais incomuns e fora do esquemão. Até então, os únicos senões do Claro Que é Rock estavam na escolha dos jurados que selecionaram as bandas vencedoras de cada etapa - entre eles havia um ou outro comprometido com as bandas pré-selecionadas. Na véspera, São Paulo viu o gaúcho Cartolas vencer o concurso e levar um disco a ser gravado pela Warner e uma van para um ano de turnê, e um festival que, segundo consta, aconteceu dentro da mais pura normalidade. O caos ficou para o Rio.

Quando os portões da Cidade do Rock se abriram, pouco mais das três da tarde, a montagem dos palcos ainda estava em andamento, ouvia-se o bater de martelos de lado a lado. Era a senha para um atraso sem precedentes num evento do gênero. Tudo por causa de um problema com um dos caminhões que trazia o equipamento de São Paulo para o Rio, segundo informou a assessoria do evento, mas não de forma oficial – em nota à imprensa – e muito menos ao público, que não sabia para que palco ir, já que não se era confirmado que banda tocaria onde. Para se ter uma idéia, a primeira atração, o Cachorro Grande, subiu no palco A (ao invés do B) com 2h40 de atraso; a Nação Zumbi foi limada do evento, por pressões dos empresários das bandas internacionais; o Palco B, onde tocaram somente Sonic Youth e Flaming Lips, funcionou com capacidade de som (potência) reduzidíssima, e as duas tiveram o set list cortados em 40 minutos e duas músicas, respectivamente, segundo Rock em Geral pode apurar, comparando com os shows dessas bandas em São Paulo. E tudo isso sem o público ser avisado de nada.

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Em meio à espera, a entrada do Cachorro Grande veio como um alívio, e a banda acabou se dando melhor do que poderia esperar. Velhacos e bons de palco, os músicos não se intimidaram e mantiveram a boa performance que tem conquistado o país, incluído os contagiantes solos de Marcelo Gross e as viradas do loucaço batera Gabriel Azambuja. As músicas do último disco foram as mais ovacionadas pelo público, mas outras mais antigas, como a clássica “Lunático” também foram bem. Destaque para o final, com o incomum cover para “Helter Skelter”, dos Beatles, e para “As Próximas Horas Serão Muito Boas”, cujo verso “não sei o que eu posso fazer pra me escapar desse fiasco” fazia bem o retrato do Claro Que é Rock. Como a agilidade planejada para a troca de palcos fracassou diante da tal quebra do caminhão, restou esperar para o Good Charlotte, banda detentora de boa parte do público que adentrou a Cidade do Rock em clima de festa. A banda dos gêmeos Madden se tornou rapidamente sensação nos Estados Unidos e até na Europa, fazendo lembrar a época em que o hoje sério e celebrado Green Day apareceu, há mais de dez anos. Mesmo com todo o frenesi do público, dá para destacar músicas mais conhecidas no repertório, como o hit “The Young And The Hopless” (título do primeiro disco), a gritaria geral que foi “We Believe”, quando Joel Madden se aproximou mais do público, e até a semidance “I Just Wanna Live”. Quem foi à Cidade do Rock só para ver o Good Charlotte realmente não teve do que reclamar.

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Depois veio o lado (ainda mais) bizarro do festival. Via-se o próprio Mike Patton, ex-vocalista do Faith No More e dono da banda, dando uma de roadie para o palco do Fantomas. O arranjo reduz o palco e mostra a bateria do lendário Terry Bozzio, com incontáveis peças (incluindo três bumbos) de lado. Patton fica do outro, e durante o show “rege” Bozzio, que com um oclinho de vovô tenta acompanhar sabe-se lá o que. No centro, guitarrista e baixista parecem tocar, cada um uma música, e o resultado final é decepcionante. A figura de Patton, por si só já é o retrato da decadência. Basta lembrar a entrada arrebatadora do FNM no Rock In Rio de 1991 para fazer esta constatação: o Patton de hoje não passa de uma caricatura de si próprio. Em todo o set, nenhuma música chegou a ser tocada, e tudo não passou de um exercício auto-indulgente. Só restou a pérola soltada pelo ex-músico, ao chamar o festival de “claro que é merda”, sabe-se lá com que intenção. Dada a quantidade de problemas no evento, Patton acabou, quem diria, pautando a imprensa nacional.

O que era ruim ficou ainda pior com a inauguração, enfim, do Palco B. Com um som com volume baixo e o set list reduzido em duas canções, o Flaming Lips iniciou um espetáculo de pouca música e gosto duvidoso. Primeiro que os músicos parecem mais empolgados com si próprios, vestidos com roupas ridículas – como um “sol do Neston” e um Papai Noel balofo de ar comprimido – e andando dentro de uma bolha de plástico, do que com a música em si. Depois, que o vocalista Wayne Coyne estava mais preocupado em verificar sua própria imagem no telão do que em fazer a função. O palco mais parecia uma arca de Noé, e seria digno de elogios se, junto com essa pantomima toda, existisse boa música, o que não foi exatamente o caso. Tanto que, em sete músicas, duas eram covers. “Bhoemian Rhapsody”, do Queen, que foi a que teve maior participação do público em todo o festival, e “War Pigs”, do Black Sabbath, que deu início aos verdadeiros shows de rock que viriam depois. A única exceção, honra seja feita, foi “Race For The Prize”, a bela canção que abriu a festa mais sem graça dos últimos tempos.

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Os dois últimos shows do Palco A bem que poderiam fazer esquecer as trapalhadas da produção do festival. Quando Iggy Pop adentrou o palco ao som de “Loose”, já dava para perceber a História passando em frente ao público. Porque não era ali um show de Iggy Pop, com suas “Candys” e outras babas. Era um show dos Stooges, com a formação mais original possível, considerando aqueles que sobreviveram. É interessante ver como os três integrantes resgatados para esta turnê têm a aparência de “senhores de respeito”, enquanto Iggy, que nunca deixou a estrada, mantém a velha forma: logo na quarta música, “I Wanna Be Your Dog”, ele já estava nos braços do público para depois voltar com a bunda de fora. Literalmente. O repertório da banda que ajudou a criar o punk é fantástico - embora uma pendenga judicial tenha impedido que as músicas do álbum “Raw Power” tenham sido executadas – e riff precisos e sujões tomam conta da Cidade do Rock, que enfim, faz jus ao nome. “TV Eye”, “Real Cool Time” e “No Fun”, ao vivo, são nada menos que sensacionais. Nesta última, uma horda de fãs sobe ao palco para pular, cantar e se jogar no chão com Iggy. No final, por uma falha no som, o público ouviu “Rockstar” toda instrumental, mas no bis Iggy manda de novo “I Wanna Be Your Dog”, para deixar completa a redenção contagiante. Quem foi a Cidade do Rock viu o trem da História passar bem ali na frente.

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Já aquele que foi ao Claro Que é Rock para ver o Sonic Youth se deu muito mal. A banda, conhecida por fazer do esporro sua principal virtude, teve uma qualidade de som abaixo da crítica e o set list reduzido à metade. Até os músicos, simpatissíssimos quando estiveram aqui em 2000, estavam com a cara amarrada. Resultado: seis músicas tocadas de forma burocrática. Já o incauto que chagasse ao festival bem atrasado, por volta as três da matina, certamente pensaria que o evento havia sido um sucesso. Isso porque o Nine Inch Nails teve o melhor som de todo o festival – em volume e consistência – além do palco montado de forma idêntica ao que a banda usa no exterior. Trent Reznor preparou um repertório com várias músicas antigas – só quatro do disco novo, “With Teeth” – e detonou o público com peso industrial/paranóico de primeira linha. O arranjo do palco, decorado com uma espécie de entulho cibernético, contribuiu para o clima, tudo bombardeado por uma precisa iluminação praticamente em preto e branco.

O interessante na música proposta pelo NIN é a proporção ideal na qual heavy metal, eletrônica e afins são misturados, sem que nenhuma das partes saia prejudicada. Foi assim na ótima “Terrible Lie”, na nova “You Know What You Are?”, com o batera emendando uma virada atrás da outra, e até em “Only”, outra do disco novo, só que bem pop e dançante. Outros bons momentos ficaram para músicas arrastadas e pesadonas, como a bela “Reptile”, e até no momento lindo, com a babíssima “Hurt”, que ainda conseguiu recolher palmas de um público que resistia a um cansaço de mais de 12 horas. No bis, a porrada com “The Hand That Feeds” e o fechamento com as guitarras sendo detonadas e jogadas ao chão. Um desfecho excelente pra um festival nem tanto.

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SETE SUGESTÕES PARA A PRODUÇÃO DO CLARO QUE É ROCK. POR UM FESTIVAL MELHOR

1- Utilizar dois sets de equipamentos completos, uma para cada cidade, eliminando assim a logística de transporte;

2- Se utilizar o mesmo equipamento, usar transporte aéreo, não rodoviário. Ainda assim, prever um plano B, um outro set à mão para o caso de uma eventualidade;

3- No caso de tudo dar errado, transferir os shows para o dia seguinte, sem custo para o público. Os shows do Palco B, por exemplo, poderiam ter sido transferidos para a segunda, no Claro Hall;

4- No caso de problemas acontecerem, avisar à imprensa e ao público, de modo que todos possam ter a informação correta e decidir o que fazer;

5- Programar o festival, no caso de duas cidades, para sexta e sábado, ao invés de sábado e domingo;

6- Trazer ao menos uma atração de peso, ainda que continue apostando na diversidade. Isso aumentaria o interesse do público e evitaria a queda no preço dos ingressos na porta do evento;

7-Escolher um lugar de fácil acesso para todos, ou, se mantiver o evento na Cidade do Rock, prever um esquema de transporte semelhante ao utilizado no Rock In Rio.

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