O Homem Baile
10 de novembro de 2005
Nektar mostra peso, virtuose e criatividade no Rio Art Rock Festival
Para um grupo de rock progressivo, alemães fizeram um show bem pesado. Foto: Divulgação / Rock Symphony.

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Se a décima edição do Rio Art Rock Festival não teve tantas atrações ou nomes de peso como aconteceu nas outras nove, os fãs de rock progressivo que compareceram ontem ao Canecão não têm do que reclamar. Durante mais de duas horas o Nektar tocou nove músicas que incluíram aquilo que o gênero tem de melhor: longas músicas, freqüentes mudanças de andamento, músicos com técnica apurada e muita viagem. Quem disse que os anos 70 já se encerraram?

A entrada do quarteto no palco já dá o tom revivalista que perduraria durante toda a apresentação. Randy Dembo chega empunhado um baixo Rickenbacker original, com ares de peça de museu. No outro extremo do palco, um legítimo órgão Hammond é tocado pelo jovem Tom Hughes, o único não remanescente da formação clássica. No centro, Roye Albrighton vem com uma guitarra vermelha (a única usada em todo o show) e uma pedaleira de fazer inveja a Satriani. E, ao fundo, Ron Howden, o que mais tem pinta de “senhor de meia idade”, pilota uma bateria que inclui um daqueles surdos cônicos de aro largo e tem um gongo sobre a cabeça. Era o cenário perfeito para uma célebre volta aos anos 70.

O que se nota logo nas primeiras músicas é que a banda, embora pertença ao rol do rock progressivo, até pela elaboração das harmonias e arranjos, toca com um peso digno do rock pesado setentista, que mais tarde desaguaria no heavy metal. Assim, é comum ver Roy solando a valer, já em “Crying In The Dark”, a segunda música, arrancando aplausos do público. Ovação determinada não só pelo solo em si, mas pela virtuose aplicada pelo guitarrista, outro fato, aliás, latente no Nektar em toda a apresentação. Randy Dembo, por exemplo, não usa o baixo apenas como instrumento de base e marcação, mas retira dele passagens intrincadas e cativantes, como aconteceu em “The Dream Nebula”, na clássica “Remember The Future” e em quase todo o show. As frases de baixo realçavam muito nas músicas, o que só valorizava os solos de Roy, cuja marcação era dada pelo Hammond - com volume um pouco baixo, mas ok.

O público, se não entupia o Canecão, era certamente composto de conhecedores íntimos do Nektar, e vibrou a valer, em clássicos como “Recycle”, pedida desde o início, e que fechou o set, e ainda em “A Day In The Life of a Preacher”, um rockaço dos tempos do rock pauleira, que até citações ao funk do mesmo período embutiu. No bis, a balada heavy “Good Day”, apresentada como “a primeira música composta pelo Nektar”, e um rock’n’roll básico que deixou as cadeiras abandonadas e levou o público para a beirada do palco.

Numa edição com um solitário show internacional, o Rio Art Rock deixou no ar (e nas bilheterias) que precisa trazer, no próximo ano, um nome de maior peso. Tinha gente lá falando em King Crimson...

Antes do Nektar, Kiko Loureiro, um dos guitarristas do Angra, mostrou as músicas do seu primeiro disco solo, “No Gravity”, lançado neste ano. Numa exibição de virtuose, mas também de técnica e feeling, Kiko não decepcionou os fãs de rock progressivo, muito menos os do Angra, que marcaram presença do lado esquerdo da platéia. Tendo como coadjuvantes de luxo o baixista Felipe Andreoli (também Angra) e o baterista Fernandão (ex-Korzus, Rodox, etc), Kiko debulhou a guitarra, arrancando aplausos em músicas como a própria “No Gravity”, “Enfermo” e “La Force de L’Âme”. No meio, um excelente solo de Fernandão quase rouba a cena. Ainda mais num métier em que esse expediente é quase um exercício obrigatório.

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