
Era um jogo de veteranos, e pela vinheta do placar, parecia ser amigos de não sei quem contra amigos de outro alguém. Num time que jogava de calções azuis e camisas amarelas/verde limão, vi um cara fazendo um cruzamento perfeito. Era Jorginho, o lateral do tetra. Depois, vi um outro, de cabelos arrepiados no meio de campo roubando uma bola. Era Dunga, capitão do tetra. O narrador falava pacas – como conversam esses caras – mas não dizia que evento era aquele. Culpa minha, claro, que peguei o bonde andando. Aos poucos, descobri que se tratava do jogo de despedida do jogador brasileiro Júlio César.
Quem? Júlio César, o zagueiro que Telê Santana pôs no lugar de Oscar na Copa de 86 e que perdeu um dos pênaltis na disputa com a França – Dr. Sócrates perdeu o outro. Essa era a única lembrança que tinha desse jogador, um crioulão forte e de futebol técnico, que, aliás, também freqüentou manchetes ao reclamar de discriminação na Alemanha, onde jogou por boa parte de sua carreira. Mas – pensava – de 86 pra cá são 19 anos, e só agora o cara está se aposentando? Aí, enfim, o narrador explicou que Júlio César parou em 2001, no Rio Branco de Americana, e que só agora, quatro anos depois, decidiu fazer uma despedida em Dortmund, terra do Borussia, clube onde ele foi Rei (descobri isso só no domingo).
O jogo já estava acabando, e enquanto a pelada de Campinas não começava eu secava o Corinthians e acompanhava a festa de despedida do zagueiro que carimbou a trave do goleiro Bats em 96. E que festa. Imaginem vocês que, ao término do jogo as luzes abrandaram, um canhão de luz foi colocado sobre Júlio César, e ele, caminhando, foi saudando todos os torcedores do Borussia, que lotavam o estádio. Eu disse lotavam. O jogo tinha acabado, e as cerca de 40 mil pessoas não arredaram o pé. Saudavam o zagueiro como o grande ídolo do clube.
O narrador, a essa altura, tentava explicar o porquê de tanta admiração pelo zagueiro que um dia barrou Oscar na seleção brasileira. Dizia ele que, com Júlio César, o Borussia foi campeão europeu (nunca sei se da Copa da Uefa ou da Copa dos Campeões) e depois mundial, em 97 – se não me engano jogando contra um cata-cata do Cruzeiro. Descreveu ainda outros grandes feitos da carreira do jogador, e disse inclusive que ele encerrara a carreira em 2001. E ainda assim, quatro anos depois, era ovacionado, tinha o nome gritado por 40 mil pessoas que se recusavam a deixar o estádio. Uma festa belíssima.
Disse isso tudo para fazer a seguinte pergunta: e aqui? Alguém se lembra que jogador atuava em que time em 2001? Alguém sabe que fim levaram craques – ou pernas de pau mesmo – que fizeram a emoção de milhares de torcedores tempos atrás? Somos o país do futebol, mas não guardamos na memória a emoção das nossas glórias. Eis onde eu queria chegar: não estamos nem aí para os nossos craques quando eles precisam parar. Sequer lembramos deles. Adílio, o cérebro do Flamengo campeão do mundo, outro dia, foi flagrado pelas câmeras acossado por torcedores junto a um alambrado, como um qualquer. E olha que ele estava ali trabalhando, como auxiliar técnico do Flamengo. Cláudio Adão, o espetacular artilheiro de vários clubes, se passar no cruzamento das Avenidas Rio Branco e Pres. Vargas não será reconhecido por ninguém. E mesmo Mendonça, o craque do Botafogo nas décadas de 70 e 80, deve ter que pagar ingresso para assistir a um treino na sede de Gal. Severiano.
Os mais otimistas dirão que lá na Alemanha a escassez de craques é tamanha, que só lhes resta idolatrar zagueiros como Júlio César. Pode ser. Mas e aqui, idolatramos quem? Pelé, talvez mais por reconhecimento internacional que doméstico, Zico, que, não sai da mídia, bem como Raí, Rivelino, Roberto Dinamite e assim por diante. Mesmo eles muitas vezes não têm o reconhecimento que merecem. Talvez por isso mesmo Romário se recuse a parar. Ou, por outra, talvez seja esse um dos motivos. O principal é que o baixinho cismou que tem que fazer mil gols e ainda faltam quase uns 70. No domingo, fez dois e foi destaque, embora a vitória do Vasco se deva mais às atuações de Morais, Wagner Diniz e Márcio Rezende de Freitas. Romário se empolgou tanto que já quer viajar para Florianópolis para enfrentar o Figueirense, do seu amigo Edmundo - ou desafeto, dependendo de que história você contar.
Romário não deve sumir da mídia. Falastrão e polêmico, sempre terá espaço, como comentarista, palpiteiro, etc. Ainda assim, é preciso fazer uma festança quando ele, enfim, optar pela aposentadoria. Mais que isso, é preciso revigorar a memória do brasileiro para o esporte que é a sua verdadeira profissão de fé. E nesse sentido, é fundamental a criação do Museu do Futebol, no Pacaembu, em São Paulo, iniciativa só menos pioneira que a do Museu do Maracanã, que como bônus tem a calçada da fama dos craques que ali brilharam nos seus 55 anos. E, ainda, nossos canais a cabo devem produzir e exibir maciçamente, todos os dias, especiais com os nossos craques, os medianos e até os cabeças de bagre. Ou vocês acham que Cafuringa, Josimar, Biro Biro, Sapatão, Manguito e César Maluco não são grandes personagens?
Até a próxima, que ninguém pode parar o gênio da grande área!!!