Rock é Rock Mesmo
10 de novembro de 2005
Durante umas duas horas, no dia da Proclamação da República, a capital nacional do hard rock vai ser a Cidade Maravilhosa
Sebastian Bach vem ao Brasil para fazer dois shows com sua banda solo: um no Rio de Janeiro e outro em Porto Alegre. A questão é qual dos Sebastian Bach vai desembarcar no Galeão. A baleia encalhada em Gragoatá ou o ereto vocalista que ajudou a revigorar o hard rock mundo afora?

Meus amigos, eu não sou o mudo balbuciando querendo falar. Tampouco sou a política voz, embora a política está aí e eu não quero ser o analfabeto de Bertold Brecht. O mundo, aliás, anda politicamente correto demais, e num ano histórico para o rock no Brasil, com shows rolando aos borbotões, é preciso, quem sabe, trazer o que se vê nos palcos para o dia-a-dia: um pouco de pé na porta, vamos fazer um barulhão.

Pensava no que escrever na coluna dessa semana quando bateu o telefone. Ou, por outra, começou a piscar o ícone do msn. Estava eu no meio do texto, sendo que, ao mesmo tempo, respondia uns comentários que tenho lido aqui no site. Se antes tinha um certo retorno nas ruas e portas de bares e casas de show, hoje, como qualquer colunista moderno, verifico o que estão achando daquilo que aparece aqui no site mesmo, virtualmente. Lembro que, no passado, uma coisa de existência virtual era algo com potencial para ser real, quase real. Hoje, não. Virtual é tudo o que acontece dentro do computador e não pode ser atomizado. Lembro-me de um repórter da Globo descobrindo a pólvora e dizendo, numa reportagem, que ele próprio, no futuro, entraria dentro da TV e interagiria com imagens. Eu não entendia lhufas. Hoje o cromakey é a rotina dos estúdios de gravação.

Mas falava que iniciava um assunto qualquer e fui interrompido pelo msn. Não me lembro de ter adicionado o impávido Fã de Hard Rock, mas o fato é que ele estava ali, em tese, por duas razões. A primeira porque ele vibrou com uma das frases postadas na seção Verbalizando, a que diz que o mundo precisa aceitar a volta do hard rock. Na verdade, meu amigo Fã de Hard Rock achava que eu desprezava o gênero adorado por ele, e se surpreendeu com minha iniciativa. Ele não leu a coluna de uns três anos atrás na qual este que vos escreve previu a volta do hard rock à mídia via a banda inglesa The Darkness, que sacudiu o mundo dos modernos novidadeiros da vanguarda das novidades mais novinhas em folha tocando o bom e velho hard rock. Ademais, ele cansa de me espinafrar aos quatro ventos só porque eu não fui (ainda) ao show de bandas como o Lion Heart, já clássica no underground carioca e até com certa projeção Brasil afora. Desfeita as barreiras dos preconceitos, estereótipos e afins, a conversa teclada fluiu.

O segundo motivo pela intervenção sempre inoportuna do msn foi, na verdade, o de maior relevância. Meu amigo Fã de Hard Rock estava era vibrando com a confirmação do show de Sebastian Bach no Rio. Sim, o ex-vocalista do Skid Row, sub ícone do hard rock versão início dos anos 90, na cola do Guns N’Roses. Que toucou no Brasil em três momentos distintos, um numa das edições do Hollywood Rock, outro no ano posterior, se a memória não me falha, ambos com a banda praticamente no auge; e o terceiro em 1996, quando o grupo era o retrato da decadência e foi engolida por Motörhead e Iron Maiden (mesmo com Blaze Bayley), outras duas atrações de peso do Monsters Of Rock daquele ano, que tocaram em São Paulo e também no Rio. Blaze parecia uma estátua no palco, e Bach, uma baleia encalha numa praia de Niterói. Lemmy, que, repito, é Deus, deitou e rolou.

A alegria do meu amigo Fã de Hard Rock era intensa, obviamente, pela vinda do ícone Sebastian Bach – aliás, acompanhado por uma bandaça – mas, mesmo no msn, eu percebia o veneno que lhe escorria pelo no canto da boca. Ele acabara de saber que a banda de Bach vai tocar no Rio e em Porto Alegre, e que, súbito, São Paulo ficou de fora. De tanto ver shows internacionais serem marcados o tempo todo em São Paulo, e não no Rio, ele considerou uma espécie de “forra”, o fato de que, caso os paulistas queiram ver o show de Sebastian Bach, vão ter que rumar para as duas únicas saídas viáveis para a terra da garota: o aeroporto e a Via Dutra.

Eu, entretanto, recuei. Gato escaldado, me lembrei da vez em que apontei as mazelas da crônica novidadeira paulistana, e, entre os leitores paulistas, o texto foi considerado bairrista. Sorte, fui salvo pelos leitores de todos os cantos do país, que, se não entenderam completamente a mensagem, gostaram do “dedo na ferida”, tão ausente na mídia que ora se impõe. Quando disse leitores de todos os canto do país, disse que nenhum deles viu bairrismo naquilo tudo. Eis a mais pura verdade: só vê bairrismo quem o carrega dentro de si. Mas, como disse, estou fora. Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas.

A verdade é que, embora já tivesse ouvido boatos desse show, achei que, no fim das contas, assim como o do Twisted Sister, em cima da hora iria furar. E a euforia do meu amigo Fã de Hard Rock até que me contagiou, de certa forma. A questão é qual dos Sebastian Bach vai desembarcar no Galeão. A baleia encalhada em Gragoatá ou o ereto vocalista que ajudou a revigorar o hard rock mundo afora?

Digo isso porque, se a hora de saber parar é difícil e só sabe que ela chega quem ela vive, de outro lado músicos de bandas de rock precisam de amigos, verdadeiros gurus que aconselhem a estratégica retirada de cena antes que prevaleça a decadência e o desrespeito pela história de cada um. Digo isso depois de ter visto Ian Gillan, o homem que inventou o agudo no rock e que passou os anos setenta colocando os bofes para fora à frente do Deep Purple, tossir pateticamente ao cantar uma das músicas no show da última sexta, no Rio. A verdade é que, nunca vi, em vídeo ou ao vivo, nem ouvi ninguém me contar nada parecido. Mas isso é assunto para uma nova Rock é Rock Mesmo. Mesmo porque ícones do msn não param de piscar.

Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!

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