No Mundo do Rock
01 de novembro de 2005
Depois do sucesso de dois discos de inéditas, Capital Inicial volta no tempo e desenterra músicas do Aborto Elétrico, precursor do rock de Brasília
Repertório da histórica banda - parte gravada pela Legião Urbana, Capital Inicial e Paralamas, e parte inédita - renasce em versões fiéis às originais. Em entrevista exclusiva, o baixista Flávio Lemos conta tudo. Fotos de Marcelo Rossi.

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Num tempo em que bandas surgiam antes dos músicos e até dos instrumentos, três adolescentes de Brasília montaram um tal Aborto Elétrico. Era o ano de 1978 quando André Pretórius, Renato Russo e Fê Lemos se conheceram numa festa, passaram a freqüentar a Colina – conjunto de blocos residenciais que fica dentro da Universidade de Brasília, referência do rock candango da época – e logo decidiram fazer uma banda. O nome veio da junção de parte do nome de uma banda americana (Electric Flag) e de uma lenda segundo a qual a polícia do Planalto Central, naquela época, usava cassetetes elétricos até contra grávidas.

Mais tarde Flávio Lemos, irmão de Fê, entrou no lugar de Pretórius, que voltou para sua terra natal, na África. Até o início de 1982, quando Renato desencanou da banda e virou uma espécie de Bob Dylan do cerrado, o Aborto Elétrico compôs um repertório que serviria de base para bandas de grande sucesso no rock nacional, como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Capital Inicial. São da época do Aborto músicas como “Fátima”, “Química”, “Que País é Esse?”, “Música Urbana” e “Geração Coca-Cola”, entre outras. Depois disso a banda virou lenda, e hoje é tida, ao lado do Condutores de Cadáveres, de São Paulo, como a primeira banda punk do Brasil.

Agora, em 2005, o Capital Inicial resolve colocar em prática uma idéia antiga: registrar em disco e vídeo todo o repertório do Aborto Elétrico. Num intenso trabalho de pesquisa, Fê e Flávio Lemos (baterista e baixista) recuperaram gravações de ensaios e show perdidos em fitas cassetes, forçaram a memória e gravaram um disco com 18 músicas, sendo dez inéditas, mas todas em versões fiéis às originais, ou seja, no melhor e mais básico punk rock. Um disco, muito mais que revivalista, desde já histórico. Conversamos com Flávio Lemos, que nos contou os detalhes deste processo.

Rock em Geral: Por que vocês decidiram fazer esse disco só com músicas da época do Aborto Elétrico?

Flávio Lemos: É uma vontade antiga que nós tínhamos. Essa banda foi importante para nós e tem o lado de fazer um registro histórico, porque ela foi a semente que gerou todo o rock de Brasília. Uma banda pioneira numa cidade improvável, do interior, embora capital, extremamente provinciana na época, mas que gerou bastante frutos. E também achamos esse material muito bom, parte dele estava desconhecido e ia acabar se perdendo. Achamos que o material é relevante, importante, até pelo fato do Renato ter se tornado o grande artista que se tornou. Essa fase da vida dele é parcialmente desconhecida, ele adolescente, raivoso, quando começava a escrever, diferente do que ele foi na Legião Urbana. Ele tem a fase, digamos, messiânica, e depois uma fase mais melancólica. Esse começo adolescente, botando a boca no mundo, precisava ser registrado. Também fizemos um DVD, onde contamos a história, em que contexto surgiu o Aborto Elétrico, o estado de espírito dessa turma naquela época, o que nos fez começar a tocar e chegar até aqui.

RG: O DVD tem cenas da época ou foi todo gravado agora?

Flávio: Na época não existia vídeo e ninguém pensou em filmar em super 8. Na verdade ninguém pensou em nada, nem tiramos fotos juntos, nunca pensamos que um dia fôssemos gravar. O engraçado é que aos 45 do segundo tempo eu achei um negativo em Brasília que eu mandei fazer e tem a única foto que existe. Mas o DVD registra a gravação do disco, é filmado no estúdio, com a banda tocando de verdade. Entre as músicas tem entrevistas, depoimentos. Fomos à Brasília, aos lugares onde o Aborto Elétrico tocava, e tem depoimentos de outras pessoas que também estavam lá, o pessoal da Plebe Rude, dos Paralamas, o Dado (Vila Lobos, guitarrista da Legião Urbana). A Carminha, que é irmã do Renato, também participa, alguns amigos, pessoas que estavam lá e contam como eles viram aquilo.

RG: A gravadora topou fazer esse disco logo de cara ou estava esperando um de inéditas?

Flávio: Eles toparam, gostaram da idéia. Nós voltamos com um disco inédito, em 98, depois fizemos um acústico em 2000. Já tínhamos vontade de fazer isso na época, mas sabíamos que depois do acústico não poderíamos fazer uma outra compilação, ainda mais de uma outra banda. Então gravamos dois discos de carreira, bem sucedidos, e agora podemos nos dar ao luxo, eu diria, de realizar um sonho e mostrar aquele material. E a gravadora topou, acharam bem legal a idéia. A MTV nos procurou e falou que tinha interesse. Eles queriam fazer esse DVD, fazer o programa, não é tudo que tem no DVD. As pessoas se interessaram, o que foi bacana, porque achávamos importante ter o DVD para mostrar o contexto. Porque uma pessoa vê na loja: “ah, é o disco novo do Capital Inicial”. Vão dizer “nossa, mas tá muito diferente”. Ficamos felizes com o disco, é um bom disco de rock. Como vai ser percebido eu não sei, o público do Capital pode achar muito pesado.

RG: É que o público do Capital hoje é outro, talvez ele não tenha essa referência que as pessoas mais antigas têm. Isso preocupa vocês, se eles vão curtir ou não?

Flávio: O disco foi feito para nós. Mas tem muita gente que conhece e gosta do Capital, que pode achar muito pesado. Tem gente que pode gostar do lado pesado, mas torcer o nariz porque é o Capital fazendo, e o Capital, para o pessoal que gosta do rock pesado, é tido como “pop”, de uma forma depreciativa. Somos uma banda pop e pode acontecer de torcerem o nariz. Mas esse disco não soa como de outro planeta, tem o Green Day, Offspring, bandas que são descendentes do punk, e sabemos que a molecada ouve isso. Acho que esse disco é pra jovem, não é para quem viveu aquela época e tem 40 anos hoje. Era uma banda de adolescentes, eu tinha 16 anos quando entrei no Aborto Elétrico. O Renato era adolescente. O texto, embora tenha coisas de uma qualidade incrível, tem coisas de adolescentes, e é para adolescente.

RG: Você acha que aquelas letras mais políticas desse repertório continuam se aplicando à realidade de hoje?

Flávio: Acho que sim, o momento político é outro, mas a podridão tá lá. Nesse ano ela aflorou como nunca. E tem letras que são atemporais, como as de “Fátima” ou “Construção Civil”. “Despertar dos Mortos” também fala, você vê neguinho roubando tudo. Eu adoro a frase que diz: “roubaram o verde, o amarelo também / deixem o azul e o branco alguém”. “Helicópteros do Céu” foi feita quando os Estados Unidos foram tentar resgatar os reféns da embaixada americana no Irã. Aconteceu um acidente, deu tudo errado. A música é baseada nisso, e hoje em dia os Estados Unidos estão lá no deserto com os helicópteros, num país vizinho, mas estão lá.

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RG: Para recuperar a sonoridade da época vocês usaram gravações antigas ou foi mais um exercício de memória?

Flávio: O registro que nós temos são muito ruins, gravados em cassete, com esse gravador que vocês jornalistas usam. Colocávamos lá no meio do quarto e ficávamos ensaiando, ou então tem um show que gravaram, nem sei quem, mas da platéia, com um gravadorzinho. Tínhamos várias fitas e conseguimos achar, depois de procurar muito, porque tava tudo perdido em fitas sem rótulo, não tava escrito na fita o que era.

RG: Aquela BASF cor de abóbora...

Flávio: Exatamente... Íamos gravar um ensaio, não tinha fita virgem e pegávamos uma fita qualquer e gravávamos por cima. Tivemos que ouvir muita fita. Outro dia achei umas coisas punks, bandas estrangeiras, inglesas, muito antigas que eu nem lembrava que existia. Claro que mal dá pra ouvir, mas eu lembrava de todos os baixos. No disco são os mesmos que eu trocava na época, e a bateria também, o que precisava mais era a melodia vocal, porque não teria como eu passar para o Dinho (Ouro Preto, vocalista), mesmo lembrando na minha cabeça. Mas eu lembrava de muitos riffs e temas de guitarra, e passei para o Yves (Passarell, guitarrista). Outras coisas são os solos, que são do Yves. Solo é uma coisa muito pessoal, e na verdade não tinha muito solo. Nós fizemos uma lavagem cerebral no Yves, para ele pegar o estilo, como era um solo do Steve Jones (guitarrista do Sex Pistols), músicas de uma nota só, para ele captar o espírito da coisa. E ficou bem bacana, a sonoridade que tinha que ser. O que nós tínhamos era um ensaio com uma guitarra e um amplificador Gianinni, não tinha nem pedal de distorção, tudo muito tosco, não tínhamos equipamento. Mas é assim que deveria ser, guitarra forte, e o Rafael Ramos (produtor) ajudou muito.

RG: Como apareceu o nome dele e em que ele contribuiu para esse processo?

Flávio: Eu sugeri e o Dinho também, sem eu falar sobre isso com ele. O disco que mais me impressionou foi o primeiro da Pitty, em temos de sonoridade, para o que nós precisávamos. Nós o chamamos, um moleque de 26 anos que me surpreendeu pelo conhecimento, porque ele conhece todas as referências, conhece tudo de punk, sabia do que se tratava. Eu fui testar: “você ouviu o primeiro disco do The Dammed?”. Foi a primeira banda punk a gravar um disco, lá na Inglaterra, em 76. Ele pôs a mão na bolsa e tirou, ele tinha o raio do disco. Ele é diferente do Marcelo Sussekind, que fez nossos últimos discos, que é um grade produtor, mas não tem as referências. E o Rafael tinha todas essas referências, ele soube tirar os timbres de guitarra – eu acho os timbres de guitarra fantásticos nesse disco. É uma forma diferente de gravar, é difícil conseguir isso, tanto que do punk daquela época, você ouve Ramones, que era pesado, a guitarra é pequenininha. Era pesado, mas hoje, em termos de produção, aquilo é pequeno. Queríamos um somzaço.

RG: Tudo que o Aborto Elétrico produziu tá nesse disco ou tem música que ficou de fora?

Flávio: Era o repertório. Ficaram músicas de fora, que nós não lembramos ou que não tinha o registro. Tem uma música que eu lembro que nós tocávamos, mas não tem como fazer, não dá para tirar os acordes. E tem outras que eu lembro, mas não lembro completa, e sem registro fica difícil pegar, principalmente a melodia vocal. Porque as melodias no disco são exatamente como eram no Aborto Elétrico. É o Dinho cantando, mas as melodias são essas, é isso que o Renato tava cantando.

RG: Houve dificuldades de liberação de músicas por parte dos herdeiros do Renato, eles interferiram de alguma forma?

Flávio: Não, pelo contrário, eles basicamente disseram: “demorou”. O pai do Renato, o Renato Manfredini, morreu no ano passado, mas um tempo antes de morrer falou que se alguém fosse gravar o Aborto Elétrico teria que ser o Capital Inicial, nós dois, que somos dois terços da banda. Ele tava lá, via todo mundo carregando as caixas, vivíamos na casa do Renato. E o Dinho era o grande fã que tava em todos os ensaios. A família tinha isso na cabeça, não teve problema nenhum, eles gostaram da idéia. Fizemos uma demo e mostramos para a Carminha, que tava acompanhando. Ela achou que tava exatamente como ela lembrava, fiel ao que era o Aborto. Ela se entusiasmou bastante. Eles tinham o receio de que fôssemos mudar, refazer arranjos, mas queríamos retratar o Aborto, não era para pegar essas canções e rearranjá-las.

RG: Essa “Benzina” era instrumental mesmo ou tinha uma letra que foi censurada na época?

Flávio: Como várias outras, ela começou instrumental. Foi a primeira letra que o Renato escreveu, é uma pena isso, porque tem uma lado histórico. A primeira música que nós conseguimos tirar, de outra banda, foi “Now I Wanna Sniff Some Glue”, do Ramones, que eu diria que é assim: ”eu não quero mais ir pra escola / agora eu só quero cheirar cola”, numa tradução livre. Achávamos isso divertidíssimo. Não cheirávamos cola, eu tinha 16 anos, maconha eu só fui ver depois, éramos inocentes. De qualquer forma ele fez a versão tropical, até baseado nisso, que era uma piada. “Não tenho mais dinheiro, nem pra perna nem pra quina” - (“perna” e “quina” eram as notas de 100 e 500) / “Só tenho 20 mangos, vou comprar benzina / Em cima do telhado, sentado na esquina / Qualquer lugar é bom pra se cheirar benzina”. Era isso, uma bobagem divertida, só que se publicarmos isso, vamos presos. A gravadora está respondendo processo até hoje pelo Planet Hemp. O Bidê ou Balde tá sendo processado por uma ONG que achou que era pedofilia a música que o cara fez para a filha dele. Qualquer juiz pode achar que isso é apologia a benzina, que é uma droga ilícita, tá no código penal. A gravadora decidiu não fazer, e é uma pena, porque é a primeira letra que o Renato escreveu.

RG: Vocês já tinham músicas novas do Capital, para um disco de inéditas?

Flávio: Várias músicas, poderíamos até gravar um disco, que é o que faríamos no início o ano que vem. Esse disco é só um parênteses, um projeto especial.

RG: Vai ter turnê com essas músicas?

Flávio: Não só com essas, pensamos em fazer o show em duas partes, a primeira metade Capital Inicial e a segunda metade Aborto Elétrico, com uma mudança no cenário. Estamos pensando como fazer isso para separar, porque é diferente. Se você ouvir esse disco como um todo é diferente de um disco do Capital Inicial. E temos vontade de fazer um negócio para a nossa satisfação pessoal, num lugar pequenininho, só nos quatro, só esse repertório, no meio de uma semana, para não atrapalhar nossa turnê dos shows grandes e para nos sentirmos como naquela época. Mas isso é para o ano que vem, vamos terminar a turnê do “Gigante” em dezembro, em janeiro tem os shows de praia, que é só festival, e fevereiro é férias. Depois do Carnaval é que voltamos, teremos tempo para bolar como vamos fazer o show e esses especiaiszinhos também.

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em janeiro 17, 2006 03:42 PM [Cristiano]

O tempo passou, a idade aumentou e alguns se foram. E o que se sentia naquela época. E o que foi vivido naquele momento será que vive ainda hoje.
Hoje percebo que os jovens preferem mais rítimo do que letra, antes tinha essa junção perfeita. Será que todo trabalho ficou esquecido naquela época.
Na cabeça de quem conheceu creio que não..., mas na cabeça de quem não conheceu o que diriam o Capital Inicial e outras bandas da época como Plebe Rude e outras tantas que de lá gritavam para o mundo.
Será que, o que foi dito ainda é ouvido pela juventude de hoje...?



em março 28, 2006 12:05 PM [felipe]

Existe algum vídeo da legião urbana fazendo o show platéia livre? Sou um grande fã do Capital e da Legião.



em abril 9, 2006 12:56 AM [mariana e keren]

Parabéns pela sua fama!!!!
Só queria saber: o que é pop rock?



em junho 22, 2006 11:40 PM [priscila galvão]

Pra você curtir sobre seus idolos



em setembro 24, 2006 09:52 PM [junior]

Vem novas músicas inéditas por aí do tempo do Aborto



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