

Entrevistar Lobão não é uma tarefa das mais simples. Você pode até aparecer com um pauta organizada com os temas a serem abordados, mas ele, de outro lado, já vem com os assuntos todos na cabeça, pronto para despejar tudo de uma vez só, numa seqüência que tem uma certa lógica, e onde tudo se entrelaça. E como tem coisas a falar, e como tem assunto esse menino de 47 anos.
Também pudera. Desde que se desligou da indústria fonográfica estabelecida, por opção ou “exílio” involuntário, Lobão trilhou um caminho independente dos mais interessantes. Como empreendedor, montou a própria gravadora e produtora – a Universo Paralelo; passou a lançar seus discos em bancas de jornal (o último vendeu 100 mil cópias); liderou o grupo que transformou a numeração de CDs em lei (o que protege os direitos autorais de todos os músicos); criou uma revista independente que lança artistas ignorados pelo mercadão – a outracoisa; estreou como apresentador de um programa de TV, e hoje, prestes a lançar o primeiro disco em cinco anos, percebe que dominou todo o processo. Composição, gravação, prensagem, distribuição, divulgação... É tudo com ele mesmo.
No início de maio, a recompensa: Lobão faturou o Prêmio Claro de Música Independente como personalidade, a outracoisa levou o de melhor revista, e dois de artistas lançados por ela, Cachorro Grande e Rogério Skylab, também saíram premiados. Como músico, segundo ele próprio, acabou aprendendo a cantar, compor e tocar melhor, incluindo computadores, teclados, baixo e guitarra. Um avanço e tanto, para quem, nos anos 80, só queria tocar bateria.
E é nos anos 80, que Lobão tanto achincalha, que estão as referências de “Canções Dentro da Noite Escura”, o disco que chegou às lojas, ops, às bancas, no início de junho. O músico empreendedor foi buscar em parceiros de fé como Cazuza e Julio Barroso a inspiração para o disco, que tem também homenagem à Cássia Eller, bossa nova atualizada e muitas guitarras, tudo com um Leblon psicodélico como cenário.
Tivemos acesso ao material e comparecemos ao estúdio onde Lobão, aos 45 do segundo tempo, ainda finalizaria mais uma parte de bateria. E saímos de lá com essa entrevista que você confere agora. Com exclusividade, claro.
Rock em Geral: Desde quando você está fazendo as músicas desse disco?
Lobão: Começou aqui em 2001, e eu comecei aleatoriamente, acho que com “Lullaby”, que não entrou nesse disco, só no ao vivo. Nós não botamos nele porque achamos que já tava demais. O disco tem 56 minutos e eu queria fazer uma espécie de ópera rock, uma opereta do material que eu tinha... Por exemplo, eu gravei uma coisa com o Cachorro Grande que eu não botei no disco, mas quero lançar em single, numa edição de comemoração no Natal. Nós pinçamos só as músicas que eram pertinentes a um tema específico, que era criar um Baixo Leblon imaginário. Eu estava fazendo o disco, já tinha umas coisas no repertório, como “Balada do Inimigo”, feita inclusive para um inimigo, que eu não vou dizer o nome jamais, mesmo porque eu acho que ela se resolve de uma maneira doce. O que aconteceu é que a Lucinha Araújo (mãe de Cazuza) me telefonou e me deu o livro do Cazuza para que eu pudesse musicar umas letras.
RG: Você queria fazer isso ou foi uma iniciativa dela?
Lobão: Eu tive que bolar o disco para poder caber o argumento. Isso é minha vida também, o Cazuza e o Júlio eram os meus melhores amigos. Primeiro veio a “Balada do Inimigo”, que também é da minha geração e faz parte do negócio todo. Não tinha um conceito. Aí eu comprei um monte de teclado - e eu tô morando no Leblon - e fiz uma bossa nova para o Leblon, meio descompromissada. Então a Lucinha me vem com a música do Cazuza para o Ney Matogrosso, para um projeto dele de gravar músicas inéditas do Cazuza com todos os parceiros do Cazuza, que acabou adiado. Mas eu no mesmo dia fiz, e tive uma emoção incrível. Eu botei o retrato do Cazuza e falei: vamos lá, com a sensação de ele estar ali comigo. E eu falei: vamos fazer daqui pra frente, aí saiu “Seda”. Eu fiquei muito emocionado com aquilo, que sensação legal poder estar trabalhando com o meu amigo, tinha aquele inimigo que também era importante, fazia parte de uma turma só, de uma forma ou de outra. Aí uns 15 dias depois eu fui para Campinas fazer um trabalho, e o Gilvan, que foi baixista da última formação da Gang 90, apareceu com um manuscrito do Júlio barroso e me deu pra fazer alguma coisa. O manuscrito foi a última coisa que ele escreveu, 24 horas antes de se matar. O título era “Quente”, eu não entendi muito bem a letra, tô entendendo agora, pra dizer a verdade. Fiz uma música, gravei com violão, peguei só as cordas finas de um violão 12 cordas e botei num violão de 6, uma guitarra e um synth, e foi a última música em que nós trabalhamos. Eu fiquei muito feliz de ter uma música inédita com manuscrito do Júlio. E tava com outra do Cazuza. Aí tem o Leblon, nós éramos do Baixo Leblon, o Júlio também, fizemos um monte de música ali. Então a Cássia Eller morreu. E a Cássia estava apartada de mim. Eu tava compondo pra ela, ela desapareceu. Eu comecei a mexer com música independente, ela foi fazer a parceria dela com o Nando Reis, o Herbert Vianna, eu saí de cena e fiquei muito triste, porque ela era a nossa intérprete.
RG: Da galera dos anos 80?
Lobão: É a intérprete do Cazuza, do Renato e minha, a nossa intérprete, de todos nós, e pra mim é a maior cantora do Brasil de todos os tempos. A gente fez um show no Olímpia em que a gente teve que se encontrar, ela acabou quebrando o tornozelo porque ela se jogou em mim, porque ela não ensaiou comigo, foi proibida de falar comigo e ela não verbalizava, e eu tenho pra mim que ela morreu porque tava muito infeliz, porque ela não conseguia verbalizar e não queria nada daquilo que estava acontecendo com ela, eu tenho certeza disso. E aí ela se jogou no meu colo, eu não segurei e ela quebrou o tornozelo. Fizemos o “Vida Bandida” e nunca mais a vi. E eu adoro, amo ela. Quando eu estava voltando de um show de Florianópolis, no avião, indo para o Sul, soube que a Cássia morreu. Quando eu cheguei na cidade da Regina (Lopes, esposa e produtora) em 15 minutos eu fiz a música “Boa Noite Cinderela”. Fiz ela como um vômito. Eu tinha o Baixo Leblon, o amigo, o inimigo, tinha vários amigos e eu tinha a Cássia, que o Ezequiel Neves disse que era o “Lobão de saias”; e eu disse: “eu sou a Cássia de saias”. Mas tanta gente querida e eu sempre com uma postura de fazer uma coisa pra frente, não quero saber de anos 80. Não quero saber porque todos morreram e os que ficaram são totalmente desinteressantes. Quando eu vi que tinha uma bossa nova, meio João Gilberto, que é a primeira música, eu não queria fazer uma coisa meio Fernanda Porto, aí toquei bateria pra não ter programação...
RG: Praticamente virou rock...
Lobão: Eu fiz isso pra ter esse contraste pra justamente desafiar, e fiz a batida do João Gilberto. Mesmo porque eu não tenho nada contra a bossa nova especificamente. Só acho babaca, e quis fazer uma bossa nova não babaca, que tenha “paudurescência”. E aí eu vi que essas músicas - por exemplo, a “Seda” - elas me encaminhavam para um determinado tipo de clima. Apesar de ela ter ficado muito pesada com o arranjo, é uma bossa nova, um samba canção praticamente. O “Quente” é quase etérea, e “Eu Não Quero Seu Perdão” é um mantra, viajandona, quase um trip hop. Só “Na Caixa” que é vomitada, é um blues pesadíssimo. Então o peso e a dinâmica do disco foi sendo me dado na medida em que esse tema começou a prevalecer e eu tinha que fazer uma história. E aí eu comecei a fazer essa história.
RG: Mas você vem pensando nisso a cada passo ou foi quando você partiu para fazer o disco?
Lobão: Eu tava a fim de fazer um disco, tava recolhendo e queria alinhavar todas essas informações pra poder fazer um conceito pra esse disco. Aí eu usei o Leblon, um Leblon, diga-se de passagem, ideal, imaginário, porque a prosódia da bossa nova é o sol, a palmeira, uma malhação a céu aberto. E o meu Leblon é invernal, escuro, frio, à noite e chovendo, esse é o meu Leblon, com todos os personagens ali dentro. Porque o que eu costumo dizer é que eu estou morto, eu tenho que estar morto pra falar com os meus mortos, pra que esses mortos estejam vivos em mim, esse era o conceito da coisa. E aí é um Leblon psicodélico, em que as ilhas flutuam. Eu começo com a frase “através desse céu azul, vou caminhando pelas ruas do Leblon”, eu vou caminhando através do céu, porque há uma certa irrealidade dentro de toda aquela coisa. E aí gravamos todos os sons do Leblon, na Cruzada, na esquina do Guanabara, no mar.
RG: Por que Leblon?
Lobão: Eu moro no Leblon, sou no guia Michelam (referência internacional como guia gastronômico) uma atração turística do Leblon, assim como o Cazuza, como todas essas pessoas que freqüentaram; e não só freqüentaram, a gente fez a maior parte do nosso repertório em guardanapos do Guanabara, do Diagonal ou do Real Astoria (bares e restaurantes do Baixo Leblon). Quase todas as músicas que eu fiz com o Cazuza e com o Júlio Barroso eu fiz ali, a nossa história nós fizemos ali. Eu penso assim: vamos refazer a nossa história agora. Eu sou um médium desses caras que não estão aqui fisicamente, mas pela força da obra deles estão em mim, e eu vou querer falar pra todo mundo que eu tenho a moral de dizer que se o Cazuza estivesse vivo, e o Julio, eles estariam fazendo um som mais ou menos assim. O Cazuza era inclinado a fazer uma coisa... Ele adorava Dolores Duran, Maísa, e eu pensando nisso, puxei para um samba, para acordes bossanovísticos, porque eu sei que ele gostaria que fosse assim. Pro Júlio, a letra era uma letra crepuscular de uma vida. E aí eu tirei bateria, tirei tudo, deixei ela subir mesmo. Eu precisava mostrar pra essa rapaziada o quanto ele era genial, porque ele não teve tempo para mostrar. Eu comecei a interferir na letra, escrevendo dentro do livro, e você acaba não notando - porque o livro é todo desenhado - que aquilo é uma interferência de um cara que rabiscou tudo. Emendei, costurei, fui colocando coisas e montei, olhando sempre ele, como se ele estivesse aqui, porque eu trabalhava com eles assim. Eu quis tirar uma frase da letra do Cazuza, liguei pra Lucinha e ela autorizou, foi um exercício muito emocionante, trabalhar com esse tipo de coisa com toda a minha emoção. O Jim Capaldi (baterista do Traffic que morou no Brasil) me ensinou a fazer canção, não a tocar bateria. Ele dizia que só com os acordes da introdução ele faria um disco duplo. Ele me ensinou coisa pra caramba. E esse disco é dedicado aos quatro: Júlio, Cazuza, Cássia e Capaldi.
RG: O Capaldi você conhece de quando?
Lobão: No final dos anos 70, início dos 80 nós éramos unha e carne, íamos para o Maracanã juntos. Na última vez ele tava na TV Cultura e disse “eu te criei”. Eu tenho maior amor pelo Jim, ele me ensinou coisa pra caramba. Um reino de emocionalidade muito grande no disco. E eu botei o título “Canções Dentro da Noite Escura”. O disco é o meu álbum preto, vai ser todo preto. Ele tem morte, exílio, eu sou um cara exilado. Se eu não tivesse criado o Universo Paralelo eu estaria como o Léo Jaime, fazendo anos 80, uma caricatura de si próprio. E a beleza de tudo isso é mostrar pra mim que a escuridão é imperativa para a sua luz, porque você só pode brilhar na escuridão. Tem uma música que chama “Tranqüilo”, que eu não quero mostrar que tô com uma pena de mim, pelo meu exílio. Eu quero dizer que descobri um lugar que é maravilhoso, que apesar de todos os percalços, as derrotas que eu embelezei, eu reverti muita coisa. Eu trabalhei com muito ódio... “Homem Bomba” é fruto de muito ódio, mas eu transformei em amor. A “Balada do Inimigo” veio com muito ódio, mas ela me pediu o amor, termina numa doçura. Então o disco me impôs uma série de coisas, eu queria fazer coisas industriais, e queria fazer mais assim ou mais assado, eletrônico.
RG: Pois é, musicalmente você queria fazer uma coisa mais rock mesmo, ou foi saindo assim?
Lobão: Eu acho que a música é como vírgula e ponto. Eu uso a música como uma calça que eu tenho que usar, uma árvore que tem que ter no cenário. Eu raciocino como um cineasta, eu não tenho compromisso nenhum, sou um traidor o rock’n’roll ou da bossa nova, não tenho o menor compromisso com nenhum deles, eu os uso como se usasse um amendoim, uma azeitona...
RG: Mas você não pensa, antes, “essa música vai ser mais isso”; “essa outra mais aquilo”...
Lobão: Não. O “Homem Bomba” eu logo falei, vou compor um rock suicida, realmente violento. E compus a da “Cássia Eller” como um blues, porque ela era uma blues woman. Mas um blues violentíssimo, asfaltante. A “Balada do Inimigo” já é híbrida, porque eu tenho ressentimento, mas eu tinha que me curar daquele ódio, não que o inimigo mereça, mas porque eu não mereço carregar um ódio que foi causado por ele, cabe a mim extirpa-lo, e uma vez extirpado você sublima aquilo e se cura através da poesia e da música. Eu sou cruel o suficiente para não ligar para o que ele é. A música me faz incorporar um personagem que me cura, ao menos dentro do disco. E eu não sei se fora do disco eu sou tão legal assim.
RG: Nos últimos discos você fugiu dessa estética rock. Isso porque era a época do Chemical Brothers, Prodigy, etc, em que o rock estava em baixa?
Lobão: Não, eu falei que o rock errou em 86, levei lata no Maracanã porque disse que o samba era metal pesado, e depois o Sepultura fez a mesma coisa. Eu sempre fui assim, sou um cara que não tenho o menor escrúpulo musical, eu quero fazer o que me fascina. Eu comecei a fazer eletrônica em 95, com “A Queda”, ao mesmo tempo fiz música popular brasileira. Eu sou Exu o suficiente pra poder não precisar me afirmar em peso ou em leveza. Ou essas tendências, eu uso as informações pra minha cenografia.
RG: Mas você não pensa no que rola de novo no mercado e pode ser legal você incorporar...
Lobão: Imagina... Senão eu poria o Cachorro Grande no meu disco. Eu já gravei, é um hit, e eu não botei no disco. Eu sei que o Cachorro vai lançar um disso que tá bom pra caramba e vai estourar. Eu vou lançar um single posteriormente, porque eles não cabem na cenografia do meu disco. É uma questão de estética, e eu trabalho com estética. Mas eu sou muito Lobão demais pra ficar acompanhando... Eu tenho 47 anos... Eu vejo as tendências... O que tá rolando eu quero que se foda. “I’m a leader, I’m not a follow”, diria Lou Reed. Eu não tenho nada a ver com isso, eu tô lançando uma estética, isso aqui é o meu manifesto, que também é um manifesto antitropicalista. Porque o tropicalismo é sol, é coqueiro, é bossa nova. E eu tô dizendo: não! Não é isso que a gente quer. A gente não acredita em fé, a gente é anticristão e a gente não acredita em Caetano Veloso, não acredita em Papai Noel, não acreditamos nos baianos dessa maneira, não acreditamos em quem fede a ACM. Então o disco tem um texto, no sentido de texto e subtexto musical muito fechado nesse sentido. E eu vi agora ele fechado, já com o áudio do Leblon e tudo o mais, com o cinema, e decidi fazer dele uma ópera, tem 56 minutos e provavelmente a gente vai ensaiar até agosto. Já convidei o Marcelo Tas, ele vai fazer a cenografia, vamos tocar o disco todo. Porque às vezes você faz um disco... Por exemplo, se eu quisesse fazer um show pesadaço, eu pegava o “Homem Bomba”, as músicas pesadas, “Robô Robôa” - provavelmente eu vá fazer isso no feijão com arroz - mas eu queria fazer um 5.1, uma ópera e gravar um DVD. Porque eu sou um grande crítico dos anos 80, mas ao mesmo tempo isso aqui é uma elegia do que foi bem produzido nos anos 80, das cabeças legais. O Renato Russo eu não posso excluir daí. Mas o Renato não era da minha turma, infelizmente ele trabalhava com uma outra turma, e nós nos encontramos no final da vida dele, quase viramos parceiros. Fizemos uma entrevista enorme, passamos oito horas juntos, começamos a trocar telefonemas, idéias, já estávamos pronto pra trabalhar juntos, e ele morreu no dia do meu aniversário. E aí, por tudo isso, as pessoas falam que eu falo mal da geração dos anos 80. Eu falo mal, mas como poetas e pessoas que pensaram, antes de nós era nada.
RG: E a jovem guarda?
Lobão: Eu toquei agora com o The Originals, o Erasmo (Carlos), Netinho, fiquei emocionadíssimo, eles são os pioneiros. Eles são rockeiros, esses caras foram muito importantes, sim. A diferença de tudo isso é que nós temos um Erasmo e um Roberto (Carlos) fortes, fazendo letras, com uma outra rapaziada. Mas num nível poético mais existencial, vamos dizer assim, nós temos o Júlio Barroso, o Cazuza, o Renato (Russo), tínhamos o Arnaldo Antunes, um grande letrista que acabou ficando baiano pra caralho, arrumou uma turma ruim pra estacionar. Eu adoro o Arnaldo, outro dia ele me chutou carinhosamente a canela e disse “pô, você anda falando mal de mim”, e eu, “pô, dos Tribalistas você quer que fale o que? Você tá com sotaque de baiano, amigo”. E nesse sentido nós temos grandes coisas na Bahia, evidentemente. Mas no sentido ACM da coisa, de Caetano, Gil, essas porras todas, isso é a maior vergonha. E esses caras tão na França nos representando, Caetano, Gil, Ivete Sangalo, Daniela Mercury e Carlinhos Brown, isso é uma vergonha, nós temos que dizer: eles fedem à ACM, à trambique, à apartheid social. Porque o carnaval de rua da Bahia é uma merda, tem que comprar um abadá por mil, dois mil reais pra não ser espancado pelos seguranças. Eles privatizam o que é público e dizem que tem o maior carnaval de rua do mundo. Isso é uma mentira, uma falácia. E esse tipo de coisa não pode ser assim. Isso, com toda certeza, eu, Júlio, Cazuza, a gente no Baixo dizia: a gente não pode deixar isso. A gente tava a fim de criar um plano para destituir esses caras, porque eles se infiltraram como um parasita no intestino e criaram um presente contínuo como um eterno retorno do mesmo. Mas o eterno retorno só vale quando é o eterno retorno do outro. Eles fizeram um moto perpétuo e tão aí. Eu não quero tirá-los da cena, mas eles não podem ser a voz inteligente do Brasil, porque eles não têm essa inteligência, nunca tiveram. Quem é esse cara, rapá? Um passo à frente, como já dizia o trocador do ônibus.
RG: Se o Cazuza fosse vivo, você acha que ele estaria nessa linha de pensamento? Ele andava flertando com a bossa nova...
Lobão: Nós poderíamos estar brigados também. Por que eu fiz “Seda” no sentido da bossa nova que eu acho que não é música de elevador. Porque o grande problema da bossa nova é que ela é anêmica, chata pra caralho, deprimida e é feita pra inglês ver. Porque bossa nova só quem compra é lá fora. É um imperativo categórico das pessoas lá fora acharem que brasileiro faz aquilo, e a gente não faz aquilo. Eu dizia para o Cazuza, do Caetano: não visita esse cara, você é muito melhor que esse cara, você fica como tiete, porra, que isso! O Júlio já não tinha isso, muito menos o Renato Russo. Eu acho o cocô do cavalo do bandido a obra deles, é uma mentira, é ruim, mal gravado, mal feito, mal escrito, é tudo que eu não gostaria de ouvir, muito menos que me representasse. Eu também tenho influência da bossa nova, e quando eu ponho alguma coisa bossanovística, procuro apresentar de uma outra forma. Não é Fernando Porto chamando Chico Buarque pra cantar “Roda Viva”... Ele pode até escrever, quem sabe, bem, mas pensa mal, pensa errado, ele é um culpado achando singela a pobreza do pobre. Aquela coisa da gente humilde, que merda é essa, mpb de protesto, que é tão paumolescente como a bossa nova. E você tem Fernanda Porto, e aquela necrófila, Maria Rita, aquilo é uma merda. Tem o Pedro Camargo Mariano, esse cara é um cantor de terceira de boate de xilindró. Ele diz que não faz música, faz história. Você tem uma capitania hereditária de bunda moles: Ed Motta, Lenine, isso tem que dar um tiro, é tudo uma merda. O Chico César, aquela beterraba, aquilo é uma porcaria. Paulinho Moska... E todos são asseclas, o que é pior, são esses todos que ficam embevecidos por uma pseudodignidade intelectual que eles acham que é o fio da história brasileira. Quem é mais brasileiro, Sepultura ou Carmem Miranda? Claro que é o Sepultura, é produto de garotada que viveu aqui, fazendo música aqui, pra cá. Carmem Miranda é um produto do Walt Disney, em troca de uma base militar em Natal, na época da Segunda Guerra Mundial, que virou rumba. Eu não tenho nada contra a Carmem Miranda, é uma grande cantora. Era portuguesa, mas brasileiríssima enquanto cantora. Quando ela virou um mito em Hollywood ficou um falso absoluto, ela nunca mais representou a gente e virou um mito da tropicália. Não! A gente não quer assim a nossa imagem lá fora, ser vendido como primitivo, exótico, ou, na melhor das hipóteses como “lounge”, música de loja de apartamentos, de elevador, “Garota de Ipanema”. Isso é uma merda. Quem nos faz justiça lá fora, diga-se de passagem, são os DJs, Ratos de Porão e Sepultura. O BNegão agora tá de headliner, é o quinto, no Roskylde (famoso festival da Dinamarca). A música independente tá mostrando a esses idiotas de gravadora... Como o Schiavo (Alexandre Schiavo, executivo da Sony/BMG), dizendo que “a nossa crise vai além da pirataria, é uma crise de criatividade porque nós não temos um movimento como o axé, ou como o pagode”, como se não tivesse nada. Eu fiz uma entrevista pra Bravo, e falo sempre, assim como teve o Festival da Canção, que nos doou todos aqueles caras, tanto para o bem como para o mal, a música independente, nesse exato momento tá fazendo um papel de revelação que as gravadoras não conseguem ver. E a história vai ser feita por esses caras, por nós, e não vai ser dentro de gravadora, não. Porque nós vamos ser a gravadora.
RG: Como vai ser então, porque a gravadora não investe mais, mas as independentes também não conseguem lançar e distribuir para todo mundo ainda...
Lobão: Isso é uma questão de tempo, pode escrever, é como dois e dois são quatro, de dois a quatro anos isso acontece. A BMG tá querendo comprar o meu disco agora. Vamos conversar... Vou pedir 8 milhões de dólares, quero comprar a Sony... Vou acabar comprando, parece loucura, mas a gente vai tomar o mainstream. Agora eu tô fazendo um programa de televisão em rede nacional (“Saca-Rolha”, na Rede 21), a estratégia é forte. Uma das partes do meu ordenado para fazer o programa é “cross mídia” da revista pra televisão, vai sair todo dia dez chamadas, compre outracoisa. E na rede 21, que por ironia do destino comprou várias rádios de São Paulo, incluindo a Rádio 89, a rádio rock, que faz a programação dela e da Rádio Cidade. Então eu vou falar com o cara da rádio, do lado do patrão dele: eu quero botar os produtos da revista aí, porque a revista outracoisa vai ser anunciada toda hora na Rede 21. E nós vamos querer entrar na 89, porque é uma rádio rock. Tem uma coisa também, o disco é rock’n’roll pelo simples fato que nós estamos filosofando sobre isso. Samba é um ritmo, bossa nova é um ritmo, jazz é um ritmo, mpb é um ritmo. Rock não é um ritmo.
RG: É esporro, distorção...
Lobão: Não, e atitude, é poder de síntese. Rock é um poder de síntese de final de século/início de século. Rock pode ser uma coisa, você pode pegar o Radiohead, o Black Sabbath, o Kiss e o Elvis, totalmente diferente uma coisa da outra, e todos são rock.
RG: Porque todos têm guitarras distorcidas...
Lobão: Não, não é isso que é o rock. Você pode pegar um disco de rock e ser totalmente leve, não é distorção que faz o rock. Godard é rock, Santos Dumont era rock’n’roll.
RG: Você tá indo para um lado mais amplo...
Lobão: Por isso que o rock é rock, por isso que o rock influenciou o hip hop. O rock é uma questão dionisíaca, não é apolíneo; e a música brasileira é apolínea. Porque eles primam pela forma antes do conteúdo; o rock pelo conteúdo antes da forma. O rock é visceral, e o outro não é. Você entende isso não por uma guitarra distorcida, nem por um cara gritando, não necessariamente. Mas sente que aquilo é rock porque aquilo é dionisíaco, te provoca um êxtase qualquer. Então pra mim rock é música eletrônica, na maioria das vezes.
RG: Eu já não acho... Música eletrônica não pode ser visceral nem rock, pode ser até bacana, mas rock não é... Eu não vejo o rock sem guitarra.
Lobão: Porra, eu pego bateria e toco pra você, e você vai dizer que isso não é rock?
RG: Tem a atitude rock’n’roll...
Lobão: Eu faço a levada rock, sem guitarra e você vai dizer que não é rock?
RG: Você não vai fazer isso sozinho, tem que ter uma guitarra...
Lobão: Mas eu posso fazer, o que eu quero dizer é que o rock é muito mais que uma guitarra distorcida...
RG: Claro, mas não sobrevive sem esse elemento, até por uma questão simbólica.
Lobão: O foco, a importância dele não tá na guitarra, nem no diferencial, e isso é que é o mais importante. Isso eu aprendi com John Lennon, com Bob Dylan, porra. Pelo amor de Deus, isso é uma caricatura, pessoas que se atém a isso acabam fazendo rock farofa...
RG: Com guitarra também se pode fazer coisa ruim; tem rock ruim também...
Lobão: Mas partindo de uma premissa, é claro que a guitarra tá intrinsecamente ligada ao rock, mas o que eu quero dizer é: vamos nos abstrair disso, porque o rock é muito maior que isso.
RG: Você tá associando o rock a atitude, num contexto geral, não só musical...
Lobão: É um conceito de síntese, as artes plásticas, Salvador Dali é rock, porque o rock é uma linguagem de fim de século. Depois dos anos 50, depois da guerra, o mundo ficou rock’n’roll.
RG: Com a invenção da juventude.
Lobão: O rock tem uma missão fortíssima de transformação do mundo mesmo. É isso que me fascina no rock’n’roll. Tanto é que eu traio o rock’n’roll tocando bossa nova porque eu acho que é a meta linguagem do rock’n’roll. Eu levei lata no Rock In Rio, não fui mais rock’n’roll do que aquilo...
RG: Mas não foi proposital, né?
Lobão: Claro que foi, eu fiz de propósito!
RG: Pra levar latada?
Lobão: Eu sabia que eu ia ser hostilizado. O grande acidente daquilo... Eu fiz por contrato, ensaiei no dia anterior, o palco tinha 40 metros de boca, eu ia estar bem distante da platéia.
RG: Era a noite do metal...
Lobão: Eu escolhi porque eu sabia que não tinha nada mais pesado do que a bateria da Mangueira. Metal pesado, tambores, e a gente ia massacrar os caras, mostrar: isso é o metal produzido no Brasil! Mas não metal circense e punheteiro como Iron Maiden, isso é uma merda. Esse é o metal. Mas sabe o que é? Associam o samba a uma linguagem melindrosa, brejeira. Mas vai dentro de uma escola de samba, estica uma carreira de um bumbo e sai tocando com a mão cheia de sangue pra saber se aquilo não é heavy metal. É isso que eu queria dizer com aquilo. Eu escolhi aquela noite a dedo, os caras queriam me colocar do lado do Prince, e eu disse: não! Disseram que eu fui uma vítima, mas não. A única coisa que eu me fudi ali é que de última hora puseram o Judas Priest e esculhambaram o palco, puseram um palco dentro do meu palco, e eu fiquei com dois metros de profundidade, como se fosse um pelotão de fuzilamento, vulnerável ao que iriam jogar, que eu sabia que iam jogar. Já estavam me hostilizando no Canecão, pedindo rock puro, e eu disse: “vocês parecem a torcida do Corinthians”. Querem que eu fique copiando Iron Maiden e Black Sabbath? Eu sou eu, vou copiar fulano ou beltrano? Eu metabolizo as influências. O brasileiro tá careca de ficar copiando. Eu fico puto com os anos 80 porque todo mundo imitava o Police, o U2...

RG: No começo cada banda era uma cópia, mas depois foram mudando. O Paralamas, por exemplo, achou um caminho...
Lobão: Mudou passando a me imitar, isso sim. Pegaram a bateria da Mangueira depois que eu peguei, 20 anos me imitando o tempo todo. “Revanche” é “Alagados”, “Me Chama” é “Me Liga”, vinte anos assim. A mediocridade pra eles seria uma utopia. Era uma das bandas que mais me envergonhava, porque representava uma coisa de uma qualidade que iam associar a mim. Não! Esses caras não fazem parte da minha turma, isso é tudo que eu acho vergonhoso, medíocre, corporativista, lobista, hipócrita, ursinho carinhoso e o caralho a quatro. Aquilo é uma merda, merda, lambe saco de Gil, assecla de baiano. Não quero saber dessa turma, chupador, porque chupa todo mundo, e não era só comigo, não. Pagou um monte de gente para não serem processados, uma vergonha ver aquelas pessoas assim, enquanto vivos ainda, porque agora nem tanto, agora tá melhor, o Herbert tá muito mais legal, uma pessoa mais querida, perdeu aquela carapaça arrogante dele. Mas isso não significa nada, como trabalho. Aquilo ali é um dos piores momentos da música brasileira, aquele momento ali é um momento negro, de 20 anos. Caralho, ali está talvez o epicentro do meu nojo pelos anos 80.
RG: Você achava isso desde o começo, naquela época?
Lobão: Claro. Em 98, 99, eu fui pra cadeia, fui para o Comando Vermelho pra poder entrar na bateria da Mangueira, fiz um núcleo. O cara pegou o mesmo núcleo, e foi tocar no Metropolitan (casa de shows do Rio, atual Claro Hall) com a bateria do Ivo Meireles, que é a minha célula. Eu ia pro buraco quente e botava a minha bateria pra tocar com eles... Alguma coisa tava errada. “Cinema Mudo”, “Cena de Cinema”, as temáticas, lambreta, capa preta, a voz igual a minha. Eu não sabia mais como cantar, e eu nem sabia cantar direito, o cara cantava igual a mim, virou aquilo que fazia. Se você ouvir... Nem eu consigo distinguir. Se tocar no rádio eu não sei quem é quem, pra você entender a loucura. Não é uma questão apenas pessoal, porque isso me prejudicou pra caralho, porque eu sou um cara explosivo, virei vilão. Mas aconteceu uma chupação de todo mundo. O Liminha é um chupador, como produtor ele estereotipou um monte. Ele produzia o Kid Abelha como Duran Duran, você pega “Como Eu Quero”, é uma base. Uma falta de auto-estima e eu disse: eu não quero isso pra mim! Eu quero fazer uma coisa que ninguém fez antes e eu não tinha parceria. A própria imprensa da época tava achando aquilo ótimo, elogiava. Por isso que eu tenho esse ódio dos anos 80, não pessoalmente, porque neguinho me chupou, porque isso até me ajudava, no sentido de quando me chupavam, eu abandonava e partia para outra coisa. Isso me ajudou a ser eclético, a procurar outras coisas. Mas como conceito de fazer música, porque tinha muita gente que falava assim, “pro Brasil ta legal, né?”. Mas eu quero para o universo, quero arrebentar, surpreender quem quer que seja, quero ter autonomia de dizer que meu trabalho não foi feito em lugar nenhum, apesar de eu ter bebido na fonte de todo mundo, mas eu sublimei isso. Isso que eu mais senti falta nas pessoas ali naquela época. A não ser essas pessoas que estão sendo homenageadas aqui no disco, que por mais que o Cazuza tivesse essa coisa com a mpb, era, como ele falou, porque o rock ficou muito xiita, por isso levei lata. E ele dizia que tinha que esconder os discos da nora Ney, da Dolores Duran, que são sensacionais, porque aquilo era uma forma de transgressão. Quando eu fiz o “Nostalgia da Modernidade”, em 95, eu fiz um disco nada rock’n’roll porque eu era rock’n’roll. Era a única maneira de transgredir aquela farofada que tava rolando. Era uma metalinguagem, as pessoas não entendem isso, mas ainda bem que tá lá. Ele vai para o “Noite” e depois vem chegar aqui. O discurso é o mesmo, a trajetória é essa, é assim que eu quero que as pessoas entendam, é uma questão de transformação, porque eu acho que nossa sociedade, principalmente a classe média, tem que parar de se embevecer pela singeleza da pobreza, ser católica, somos o maior país católico do mundo, isso é uma catástrofe para todos nós. E a classe média, que já é escravocrata, tanto é culpada, que nosso mestiço Lula foi pedir perdão na África. Perdão é o caralho! Pedir perdão talvez para os capatazes que arrecadavam os escravos lá. Esse é que é o grande erro da culpa que promove toda a nossa cultura, toda a nossa forma de pensar o mundo. E talvez a minha grande labuta seja justamente dizer: além de não concordar, eu tenho isso aqui a oferecer. A gente às vezes tem que ser cruel, emitir uma opinião. As únicas pessoas que emitiam opinião eram eu ou o Cazuza. O Cazuza tem aquela célebre declaração: ”porra, eu tive que pegar AIDS e o Lobão ir pra cadeia pra gente ter alguma relevância pra vocês”. E é isso mesmo. No país da fofoca, a opinião é um tabu. Dizem que o Lobão é um falastrão, mas eu tô emitindo opinião, tô opinando, isso é coisa de civilizado. O pau come lá fora, porque é democrático, antes de qualquer coisa. E aqui, não. Você encontra as pessoas que dizem parabéns pelo seu trabalho, e é hipocrisia, ninguém nem ouve o trabalho dos outros. A opinião é um gesto de amor, mesmo que você esteja defenestrando. Eu acho que é mais ou menos isso que eu quero dizer sobre o meu trabalho, o que ta aí no disco.
RG: Você tem mantido contato com muitas bandas do novo cenário do rock independente brasileiro. O seu disco se situa onde nesse contexto?
Lobão: É um disco independente meu, como eu sempre fiz, é um disco “lobônico”, pra galera maluca. Toma alguma coisa, fuma um, pega o disco e vai ouvir. Eu sou um cara seletivo, se eu não tiver paciência pra ouvir um disco, vou ouvir outra coisa. Eu continuo fazendo o meu som, eu não modifiquei meu som em detrimento de andar com fulano ou com beltrano. Eu posso fazer coisas. Por exemplo, fiz uma música com o Cachorro Grande que ficou muito boa, apesar de não ter entrado no disco porque eu acho que não tem nada a ver. Mas eu sou amigo de todos. A nossa amizade, BNegão, Mombojó, Cachorro Grande, o Arnaldo Batista, Rogério Skylab, De Leve, todo mundo é amigo, se telefona, vai ao show do outro. Fiz um show com o Eddie aqui, com o Otto, são pessoas que a gente se troca, diferentemente do que existe no mainstream. A própria revista tem esse lance, não tem um estilo consagrado, você pode pegar o Mr. Catra - funk carioca é do caralho, diga-se de passagem - Black Alien, o D2, que tá numa gravadora grande, mas fazendo um negócio do caralho. Esses caras tão revolucionando a parada, e cada um tem o seu som. Eu não me enquadro, não acho um disco de rock. Tem gente que diz, porque tem guitarra. Eu acho um disco de rock no sentido que eu te falei, porque é um disco de transgressão, ácido, mas transborda amor, é um disco amoroso, ele me disse isso. Meu disco é assim, e em termos de som, não pretende se enquadrar...
RG: Não era sua intenção, mas depois de pronto, o que você achou?
Lobão: Ele não tem cara de ninguém, a não ser a minha, do Júlio, do Cazuza e da Cássia, é uma coisa muito pessoal esse disco, não cabe outra coisa que não seja isso. Talvez no próximo eu faça outra coisa.
RG: Você pretende lançar discos com mais freqüência?
Lobão: Tem um detalhe, eu ia lançar esse disco em 2002. Mas na numeração tinha só eu, Beth Carvalho, Frejat, eu tive que fazer a numeração, que foi uma grande conquista pra nós.
RG: O que mudou com a numeração?
Lobão: Primeiro que eles se ajoelharam diante da gente. E hoje em dia a gente tem um órgão que pode chegar e pedir uma auditoria. A gente pega um disco do Roberto Carlos, ou da Sandy e Júnior, ou do BNegão e presta conta. Se tiver algum tipo de adulteração eles são enquadrados como piratas e vão presos.
RG: Que órgão é esse?
Lobão: Associação Brasileira de Controle do Direito Autoral, que foi criada vinculada à numeração. É um órgão dos músicos, recebe um centavo de cada disco fabricado no Brasil para ser subvencionado. Ele existe, está em formação e tem que ser administrado. Foi criado no bojo da lei e isso é uma conquista pra gente. Eles podem ser presos e isso é sensacional. Em 2003 eu comecei a me convencer que tinha que ter uma revista, e nisso a Bia Grabois foi a nossa madrinha, ela falou: “Lobão, você tem que lançar uma revista”. Eu disse: eu? Uma revista? Que isso... E o BNegão teve proposta da Sony e de um monte de gente, e lançou com a gente porque quis. A revista adiou, adiou, eu parei de fazer o disco porque eu tinha que correr patrocínio. Eu falava que a revista era alternativa, e o cara perguntava: “é mimeografada?” Não, uma revista que pretende ser a cara do acabamento dessa geração, tem que ter um acabamento de luxo, e queria fazer isso como uma derrota pra eles. Porque a revista custa R$ 12,90, tem 70 páginas e R$ 1 vai para o artista. Isso subverte totalmente o que aquele Alexandre Schiavo disse que temos que pagar no mínimo R$ 27, de equalizar o CD com o Mac Donalds, sempre essa mania. Mas pagando insumos promocionais, que é o jabá. O consumidor tem que entender que jabá é criminoso e quem paga pelo jabá é o consumidor. Pensa bem, uma revista por R$ 12,90, só de música independente, uma das maiores do Brasil, a gente consegue fazer esse trampo, conseguimos divulgar essas pessoas. O BNegão tá com 18 mil cópias vendidas, o Cachorro Grande não para de vender, foi contratado pela Deck e vai estourar por aí. O Mombojó ficou celebrizado e cultuado.
RG: Como vocês escolhem as bandas?
Lobão: A gente recebe um monte de CDs, temos uma turma, o Adílson (Pereira, editor), eu, tinha o Silvio Essinger, que trabalhou com a gente um tempão. A gente recebe e vai ouvindo. Nosso critério também é variar a região, às vezes tá muito no sul, teve o Wander Wildner, depois o Cachorro grande. Agora teve o De Leve, vai ter eu, depois tem a mim, que eu queria lançar, tem o Instituto, Los Pirata e altas paradas, só filé. Eu queria muito Walverdes, Pata de Elefante, o Faichecleres, tem uma porrada de coisas. Umas pessoas de música eletrônica que quer fazer tudo com a gente, e a gente quer fazer tudo isso, quer se tornar uma revista mensal, mas não temos condição ainda. Mas eu acredito.
RG: Por quê você botou o disco na revista e não fez uma revista só pra você?
Lobão: Porque é o seguinte: primeiro que não existia a revista. Eu lancei a minha que foi o default dessa. O último disco, “Piratão”, tá indo muito bem, mas por azar o Rogério (Skylab) quebrou o queixo na hora em que o disco tava sendo lançado. Tinha a Jô Soares com dois blocos, tinha tudo e ele não pode comparecer, vendemos pouco e ficamos com a corda super no pescoço. Eu ia lançar esse disco em agosto, e tive que virar noite, e fazendo cinco programas por semana em São Paulo, uma série de coisas, e tendo que vir pra cá fazer o disco pra salvar a revista, porque eu não podia mais investir numa atração que vendesse 4, 5 mil. Aí eu pensei: se eu fizer um disco, vai vender mais de 50 mil, porque o outro vendeu 100 mil. Vai começar com 30 mil e provavelmente vai chegar a 50 mil com facilidade. Então eu penso assim: pra revista vai ser muito bom, e eu to com um programa de televisão que vai ter anúncio da revista toda hora, e que é afiliada a rádio Ipanema - a gente vende no sul 90% da revista. Eu sinto que a gente tá com um esquema de publicidade e com divulgação em televisão e rádio muito maior, vai ser o “shazam”. Eu posso ligar pra o diretor a Globo e dizer: tô com uma música junto com o Cazuza, vamos fazer o “Fantástico”? A gente vai ter uma penetração e tentar de todas as maneiras pegar esse disco como arrimo da própria revista. Mostrar pra um monte de pessoas que têm curiosidade em ver o meu disco, ver todo o resto da revista, e a revista tem uma ampla chance de ter um “spread” maior e de aumentar o patamar de vendagem, porque as pessoas vão ver, independentemente do meu disco, que a revista é do caralho, e depois vão visitar o site e descobrir as anteriores. Eu acredito que é um momento muito crucial e significativo. Raspamos todo o dinheiro e vamos colocar 30 mil ao invés de 15, 20. E com esse disco vamos tentar dar um up grade de vendagem e estabelecer esse patamar, pra gente chegar até novembro, quando faz dois anos. Eu tenho a maior alegria porque eu descobri uma coisa que eu nunca tinha pensado, que é a alegria que eu tô lançando meu trabalho é exatamente igual a alegria de dizer que tô lançando um monte de artistas que nenhuma gravadora ia lançar, e o que é pior, esses caras vão para um jornal e dizem que não existe artista fazendo música no Brasil. Isso é que eu fico puto, era pra ter um órgão, não uma revista. Não tem artista é o caralho. Olha o BNegão e vai dizer que não tem criatividade? Vai pegar o Mombojó? Tem os festivais e a revista é documental, é concreto, chega na mão do cara e do patrocinador. Você chega numa Caixa Econômica, faz um “royal street flash” e mostra para os caras qual é a crise da gravadora. Chega no Governo e diz: Lula, olha só, eu tô levantando o meu traseiro e fazendo isso aqui, brasileiro faz, ó, tu não vai ajudar não? Vamos criminalizar o jabá? A lei já tá pronta...
RG: Em que pé tá isso, jabá já não é crime?
Lobão: A maneira que amarramos isso é o último estágio. Estamos trabalhando no Ministério do Trabalho, porque o Ministério da Cultura virou uma bagunça com aquele negócio de câmara setorial, eu deixei aquilo lá. Somos eu, Fabrício Nobre, Fernando Rosa, Rogê, de Pernambuco, Frank Jorge, Marcelo Yuka, o Artur, da rádio Pop Rock, de Porto Alegre, é essa rapaziada, a gente já se reuniu aqui, vai se reunir em Brasília com o pessoal do Ministério do Trabalho dizendo que a indústria criativa é geradora de emprego (é claro que é) e dentro dessa coisa de promover festivais e promover estúdios, condições, viabilizar, o ponto principal da coisa é a rádio. E você vê bem, o que hoje em dia essas majors são? Não têm dinheiro, estão falimentares e qual é o trunfo que elas têm? Elas são um monopólio de agenciamento pras rádios. Então é uma formação de quadrilhas, aqueles caras, meia dúzia de três ou quatro que estão ali. Tem que acabar com esses caras.
RG: Mas como acabar com isso?
Lobão: Determinando o que é privado e o que é público. Especificar o que é horário comercial e o que é programação, porque eles não podem bancar anúncio, que na verdade é o jabá, durante a programação. Pronto, acaba, se tiver isso no meio da programação, vai preso, porque horário de programação é um horário público, que é a concessão que exige, e isso a gente vai exigir e vai acontecer.
RG: Qual a diferença para você de independente ou não independente?
Lobão: Você ter uma autonomia de não colocar dinheiro na mão de tecnocratas que vão botar esse dinheiro para fora do Brasil. Porque se eles fizessem um serviço legal...
RG: A Deckdisc, por exemplo, é uma gravadora independente?
Lobão: Ela é independente no sentido de que tem um departamento lá, musical, com o Rafa (Rafael Ramos), que tá promovendo, com todos os vícios do mercado, grupos que jamais seriam contratados por outras gravadoras. Nesse aspecto eles são independentes.
RG: Mas os métodos são os mesmos...
Lobão: São porque eles também não conseguiriam funcionar de outra maneira. Os métodos são “reprovabilíssimos”, e a gente vai atacar tudo isso, mas a gente não vai atacar nenhuma gravadora em si, não, a gente vai atacar o método, pra que a gente possa ter um acesso mais amplo pra todo mundo. Todo mundo torce pelo fim do jabá, assim como na numeração todo mundo falou que eu era isso, que eu era aquilo, mas nos bastidores todos me dão um abraço carinhoso e apertado, porque sabem o perrengue que foi, 40 anos de luta. E outra coisa que é legal, agora a gente está escrevendo para a Future Music, pra Mojo (revistas estrangeiras), dizendo que estamos com uma jurisprudência internacional, nós somos o primeiro país a numerar, e agora vamos numerar geral. A gente tá só começando.
RG: Como empreendedor você acaba deixando o seu trabalho como músico meio de lado...
Lobão: Não, de jeito nenhum, eu nunca toquei tantos instrumentos, aprendi a tocar guitarra durante tudo isso...
RG: Há 20 anos você já toca guitarra...
Lobão: Não, é mentira. Eu não tocava mal porque eu não sei tocar mal, mas “cagava um balde”. Eu não queria tocar nem cantar, eu queria muito tocar bateria, eu sei tocar bateria pra caralho, toco desde os três anos de idade. A facilidade que eu tenho para me expressar na bateria é infinitamente superior de uma guitarra. Então, a partir de 2001 eu falei assim: eu vou tocar guitarra pra caralho. Então eu fiquei tocando guitarra pra caralho, comprava um novo equipamento, eu não conhecia quase nada. Fora que eu tô tocando sintetizador...
RG: É engraçado você falar isso, porque já fez sucesso com uma porrada de músicas sem saber tocar nada...
Lobão: Não, eu sou musical, sei tocar violão clássico pra caralho, então quando eu pego a guitarra, toco, mas eu não tinha cacoete, não tinha interesse pela guitarra. Eu entrei por acidente... Se eu não aprendesse ia sofrer, eu não sou Phill Collins que toca batera e canta, eu não acho que é bonito você tocar e cantar. Eu aprendi a tocar curtindo, como eu toco bateria. Aprender guitarra era isso, eu vou ter a mesma autonomia de expressão que eu tenho com a bateria, cantar e tocar. Gastei meu tempo assim e tô tocando a contento pra caralho, é um massacre, sai som pra caralho. Estou me divertindo, essa era a intenção, me divertir pra caralho. Nesse meio tempo eu comprei computador, sei fazer programação, aprendi a usar um sintetizador, sei programar, tocar piano legal, a compor com piano, comprei um baixo e toco baixo legal. Só não toquei baixo porque o Daniel (Martins, baixista) veio gravar uma faixa e eu vi que não tirava um som que nem o dele, e aí ele tocou o disco todo. Eu aprendi a ser letrista, porque nos anos 80 eu era um letrista bissexto, fazia uma letra só num disco. Eu tinha parceiros, fazia com o Bernardo (Vilhena), porque eu tinha preguiça mental. A partir de 95 eu comecei a fazer discos inteiramente meus, letra e música. E agora, pela primeira vez desde 98 eu tô fazendo um disco com parceria, só que a maioria do trabalho é meu. E esse é autoral, que eu chamo meus amigos pra participar, já aprendendo as coisas todas. Eu interferi na poesia de poetas que são da maior responsabilidade, e eu acredito que hoje eu seja um bom letrista, mas eu aprendi. Quando entrei no showbizz eu era apenas um baterista, bom pra caralho, mas o resto eu fazia porque sou musical. Fui aprendendo meu ofício, e nesse tempo em que eu não lancei o disco, eu não estava só atribulado na revista, tive tempo de sobra de me tornar um músico melhor e um letrista muito melhor, e, mais importante, um artista, no sentido muito mais amplo, de conceber um disco em que eu não fizesse uma egotrip, não tem nada disso. Tem tudo o que é necessário, no volume certo, na hora certa, com bateristas convidados.
RG: E o papo de que você lançar pela Sony?
Lobão: Eles estão tentando, mas é muito difícil, eu sou um homem de negócios, eles não tem tamanho para me absorver mais. Eu vou falar com eles, fiz um universo, tenho revista, entro no Fantástico, no Faustão, tenho forte penetração no Brasil inteiro, vendo cem mil cópias... O que eles vão me propor melhor do que isso? Mas eu, com humildade, ouvirei o que eles têm a me dizer, porque afinal de contas, eles têm todo o meu acervo lá, 90% do que eu fiz tá lá, e muito me interessa pegar isso. Vamos ver, mas eu acho muito mais plausível eu pegar o que está lá. Eu tenho processos casca grossa contra eles, nos quais eles vão se foder, mas eu posso anistiá-los na medida em que eles me darem minhas master. Mas eu acho muito difícil, porque eu não acredito que eles tenham condições profissionais, operacionais de pode viabilizar o meu disco melhor do que eu. Parece absurdo, mas eu já tenho isso como estatística. E eu faço os programas que eu seleciono, as entrevistas que eu seleciono... Tem uma coisa engraçada, que enquanto eu era da gravadora a minha imagem era de doidão. A BMG, quando lançou o “Vida Bandida” em Portugal, foi com outra capa, outra ordem, e com um “press release” que parecia uma ficha criminal. Eu vou entregar o meu trabalho pra esse tipo de gente? Não vou, não tem como, não tem condição. Eu digo para a nova geração: não vai não que é roubada. Não é nada pessoal, mas esses caras não segurariam nem bandeja de cafezinho no nosso departamento, eles não têm competência. A não ser que a gravadora lá fora mude de filosofia e contrate executivos a altura para poder modificar isso aqui, um André Midani, etc. Enquanto tivermos esses babacas aí, esses idiotas, não tem a menor condição.
RG: Você é muito convidado para da entrevistas em veículos do mainstream. Como acontece lá, você consegue convencer os caras que existe um mercado independente forte e à margem da mídia?
Lobão: Eu não sou convidado, não, eu ligo e digo que preciso fazer um “Roda Viva”. Pra mim é ótimo porque é a hora que eu tenho um recall violento. Podem me bombardear porque eu sei o que eu tô falando, eu sei que eu posso explicar para as pessoas.
RG: Eles entendem ou acham que você tá maluco?
Lobão: Não, imagina, recebi mais de três mil e-mails no último “Roda Viva”, que foi sobre a numeração. Todo mundo dizendo que foi histórico. Eu consegui explicar pra população o que é jabá, vou para o Brasil inteiro e todo mundo saca. Antigamente eu era vítima, neguinho conseguia curtir com a minha cara. Hoje em dia eu consegui construir a minha reputação dando palestras, corpo a corpo, em mais de setecentas universidades no Brasil inteiro. Consegui construir ligações com todos esses grêmios, sou paraninfo em várias turmas, de rádio universitária. Um monte de rádio em comunidade, em periferia, fui para o corpo a corpo. Isso porque eu li uma entrevista com o Chuck D., do Public Enemy. Eles botaram o e-mail, eu fui lá e disse que era um cara branco, brasileiro, contei tudo e pedi a ele para me aconselhar. E ele disse: palestras, corpo a corpo, e eu fechei o micro e fui direto. Quando eles vieram aqui eu fui falar com ele e dei a revista, mostrando que era o fruto do aconselhamento dele, e com o BNegão, que tinha acabado de tocar com ele em Lisboa. Isso é uma coisa que não tem preço, eu não conseguiria nunca numa gravadora, porque uma coisa não atrapalha a outra. Você ser um homem de negócios é a mesma coisa que compor. Pra compor você precisa de arquivo, juntar isso, abstrair com aquilo, ser criativo, ser ousado, funciona a cabeça da mesma maneira. É como falar línguas, fala duas, a terceira é mais fácil.
RG: Será que se você tivesse só trabalhando como músico, não teria lançado uma porrada de discos nesses anos?
Lobão: Eu quero lançar um puta disco, por que lançar de ano em ano um monte de porcarias como esses caras fazem? E eu fui o cara nos anos 90 que mais produziu música no Brasil, lancei cinco discos novos. Tô com esse respaldo, mas alguém ouviu? Ninguém ouviu, e o que é pior, ainda dizem: “esse cara é falastrão, não faz música”. Eu poderia ter lançado um disco triplo agora, tenho música pra caralho, mas aquela coisa, estou lançando aquilo que eu quero, o que eu quero falar agora sobre esse tipo de assunto, que virou uma coisa muito especial. Tô falando sobre o universo criativo meu e dos meus amigos, um universo afetivo nosso, e isso é de uma gentileza e de uma elegância. Mas se eu for desandar a fazer disco, eu adoraria, agora com o computador então... Essa “Galera Maluca” eu comprei uma pedaleira, peguei o computador e fiz uma base rítmica, levei um baixo pra poder testar as guitarras, no meu quarto, fiz um riff e guardei. Aí o Trilha (Carlos Trilha, produtor) ouviu e achou do caralho, pegou, trouxe pra cá, eu botei uma bateria em cima, tem uma base que eu fiz, tudo gravado no meu quarto, gravei várias coisas no meu quarto, pra mim é sensacional. Eu precisei desse tempo pra me tornar independente. Empresarial foi primeiro, depois legislativo e artístico. E demorou mais o artístico, porque agora eu posso fazer um disco sozinho, como eu posso chamar meus amigos, mas eu não vou ficar na mão nunca mais porque agora eu sei fazer todo o processo, desde gravar, compor, escrever, se for preciso eu faço todo esse processo, e faço prazerosamente. O que também aconteceu de maravilhoso com tudo isso é que eu saí de uma solidão, uma orfandade dos meus irmãos que morreram para amigos novos, o Trilha, que foi o primeiro produtor que falou pra mim: “cara, esse disco é do caralho”. Eu já tava achando tudo uma merda, porque eu já tava há três anos com aquele repertório, e eu não conseguia tirar um som, eu gravava e ninguém gostava. Ai eu vim pra cá e ele adorou. Então o Trilha, Fernando (Morello, produtor), o BNegão, Pedrinho Garcia, todo o Cachorro Grande, nós somos amigos, eu tô pertencendo a um grupo, eu sou de uma turma atualmente, é uma história muito interessante, muito bonita. E a turma que morreu continua em mim, isso é do caralho, eu to num momento muito feliz. Lançar esse disco com essa história toda que aconteceu tinha que demorar esse tempo todo. Porque eu me exigi fazer o melhor nesse disco, só tá saindo agora, demorou pra caralho, esteticamente. Hoje mesmo, o disco poderia estar pronto, tá do caralho, e eu vou gravar uma bateria agora, pra amanhã às oito horas da manhã remixar. Esse processo todo pra mim é vida, uma vida intensa pra caralho e me pertencendo... Eu vou te dizer, por mais que eu tenha tocado a maioria dos instrumentos, é um álbum de banda, no sentido de que as pessoas que se envolveram, você sente uma rapaziada, vai se Lobão e a esquadrilha da fumaça, quando formos fazer o show, porque é bonito, emblemático.
Bate bola:
RG: O rock errou?
Lobão: Errou e acertou.
RG: É melhor viver dez anos a mil do que mil a nos a dez?
Lobão: Já que eu tô a mil esses anos todos, eu poderia dizer que é melhor viver mil anos a mil.
RG: Tudo é possível no mundo que você vive?
Lobão: Tudo é possível, tudo é possível...
RG: Continua Bangu 1, polícia zero?
Lobão: Já ta cinco a zero já, né?
RG: Qual seria, hoje, a sua cena de cinema?
Lobão: Seria a noite escura, claro.
RG: O que é o doce da vida pra você, hoje?
Lobão: É viver da maneira que eu vivo, é a maneira que eu encontrei pra viver, o espaço, esse universo paralelo que eu inventei é o doce da minha vida.
RG: Você continua tendo insights às 5 da tarde?
Lobão: Eu tenho insights agora freqüentemente, não somente às cinco da tarde, mas em outras horas também.
RG: O que você não tá entendendo hoje?
Lobão: Não sei, eu tenho muita coisa a entender, como qualquer ser humano, mas eu acho que já tô entendendo muito mais coisa do que daquela época.
RG: Nem sempre se vê lágrimas no escuro?
Lobão: Não, nem sempre se vê mágica no absurdo também, como nem sempre as mágicas funcionam.
RG: Você continua não querendo revanche?
Lobão: Eu sempre disse que não quero, desde aquela época, eu não quero revanche, eu não quero nunca revanche.
RG: Aonde vai o seu pensamento?
Lobão: Meu pensamento vai flutuando pelas ilhas que flutuam no mar, eu to ali, através do céu.
RG: A noite tá no sangue de hoje?
Lobão: A noite tá no sangue da nossa alma.
RG: A sua vida tem te levado, ou você já pode levá-la?
Lobão: A vida sempre nos leva, a grande sabedoria da vida é saber que ela sempre vai nos levar.
RG: Você continua sem poder causar mal nenhum?
Lobão: Eu não posso causar mal nenhum. Imagina, quem sou eu... A não ser a mim mesmo, como já dizia meu irmão...
RG: O inferno é fogo?
Lobão: É fogo e queima mesmo.
Lobão faz o que acredita e gosta mais que critica o que ele mesmo faz.
Ele não sabe, mas uma das coisas que mais chama a atenção é que seus fãs aprendem com ele, entre outras coisas, o neologismo próprio de Lobão.
Sou muito fã!!!
Eu adorei a entrevista. Adoro o Lobão. Só não gostei do modo como ele tratou o Iron Maiden. Tirando essa parte, ele falou a verdade em tudo. Tudo bem até que ele não se identifique com as letras do Iron. Mas os caras tocam seus instrumentos como poucos nesse mundo. Ainda tem o Bruce Dickinson que sempre demonstrou ser ótimo vocalista.
São muito poucas as cabeças pensantes nessa porra de país, as que pensam, se vendem. Lobão é e sempre será uma exceção, dono de uma retórica invejável, de posições claras e definidas como quem fala com muita propriedade. É o cara, sou fã, e isso me dá até o direito de discordar de algumas de suas posições, mas sem suas já tradicionais polêmicas, esse não seria o João, lobo babante que coloca paudurescência em tudo que pensa e faz. Que se mantenha e perdure essa fúria, esse vulcão de sensatez.
Porra d+! Adorei a entrevista com o Lobo, ele é unico! Valeu, Lobão it's only rock!
O Lobão tem uma personalidade única e isso o faz único, é um compositor exemplar, mesmo com tantas apologias a drogas não deixa de ser genial...
Lobão, como sempre, espetacular: fala tudo o que eu quero dizer, e às vezes não consigo. Ele é demais.
Um brasileiro de verdade!
Que merda é essa. E a história de que eles não têm tamanho para absorvê-lo mais, será que cresceram, se excitaram, estaão pronto pra mais uma. O acústico é prova do mesmo discurso hipócrita. Lobão, ou será cordeiro do presépio da Feliz Sony 2007. Anos 80 do caralho, rodou quem vacilou. A propósito o Acústico, algo novo? Ou só um violao plugado, cenário com flores, luzes, platéia em volta do palco....
Esse é um artista completo, só queria que me explicassem onde essa cruz de ferro na sua camiseta se encaixa.