
Pois é da China que vem uma das notícias mais interessantes. Na verdade um fato que só deve ter virado notícia, aqui no Brasil, por considerado inusitado. Costumo dizer que está no inusitado a chave para a melhoria de vida das pessoas. O improvável, muitas vezes, se torna óbvio. O imponderável, rotina. Tudo é possível nesse mundo que eu vivo. Uma vez eu disse para um colega, num show - não me lembro de quem – que se o mundo fosse rock, aquele fulano ali no palco seria preso e algemado e iria em cana na hora. Porque, num lugar onde se deve fazer um show ao vivo, uma apresentação, o dito cujo se valia de um playback para fazer não sei o que. Evidentemente era uma expressão pra mostrar a revolta de um espectador que se sentia enganado, não exatamente um desejo literal. Afinal não sou um reaça pré 68. Mas se o mundo fosse rock, que aquele sicrano ia parar no xilindró, ah, isso ia.
Não sei se o amigo entende sobre o que estou falando. É sabido que playback é o ato de dublar sua própria música, ao invés de executá-la verdadeiramente. É um recurso muito usado em urgentes programas de TV, para, de certa forma, não “perder” tempo com a montagem e afinação de equipamentos, etc. É também muito usado para turnês caça-níqueis que acontecem numa única noite, quando grupos musicais varam a madrugada fazendo oito, dez shows em vários clubes. É clássica a história das bandas dos anos 80 que, para aparecer no Chacrinha, um programa de TV no sábado à tarde, eram “obrigadas” a tocar com a caravana do Velho Guerreiro durante toda a madrugada no subúrbio carioca. Até hoje grande parte dos bailes funk acontece dessa forma, usando o subterfúgio do playback. No rock, eu postulo, essa prática é inadmissível. E repito: playback, no rock, é crime. Inafiançável.
Mas falava da China, o país com a maior população do mundo. Lá os caras não estão pra brincadeira, não. Segundo notícia apurada na web, os chineses querem multar severamente e até levar para a cadeia que fizer playback. A idéia é parte de um projeto de lei que está sendo estudado pelo Comitê Permanente do Congresso Nacional do Povo, e pode, no voto, ser aprovado. Quem está por trás disso é um tal Ma Bomim, que é membro do conselho consultivo do congresso chinês, e está preocupado com a velocidade da expansão do mercado de entretenimento na China. Ele está abrindo os olhos para aquilo que nos assola há tempos. Para ele, fingir que se canta é a mesma coisa que comercializar produtos piratas, já que nos dois casos o público consumidor está sendo enganado.
Enquanto Ma é a voz no congresso chinês, nas ruas a iniciativa vem do rock. Segundo consta, Cui Jian é um popular cantor de rock chinês. E já há um tempão milita no Movimento Pelo Vocal Ao Vivo, grupo que reúne artistas definitivamente contra o uso do playback, não só em shows ao vivo, mas também em gravações. O argumento? É que, para eles, o artifício engana o público, seja ele o espectador num show ou o ouvinte de um disco. Cui vê uma grande gama de pessoas sem talento que se beneficiam de recursos tecnológicos, e acha um absurdo que empresas públicas banquem eventos com esses “artistas”. Lá na China a coisa está assim. E por aqui?
Falamos de playback. Então fui dar uma olhadinha nos dicionários. Para o Aurélio, é o “processo de sonorização que utiliza gravação prévia de trilha sonora (diálogo, música, acompanhamento, etc.)”. Para o Michaelis, simplesmente “reprodução de gravação fonográfica”. Mas, se o leitor me permite, vou mais longe. Porque, eis o que eu queria dizer: não agüento mais enganação do rock. E nem estou me referindo a cantar ou tocar mal, a ter bom ou péssimo gosto. Nem cheguei lá ainda. Me refiro a quem finge que toca, compõe sem compor, não sabe nem tocar, a ponto de a gente sequer poder avaliar se tocam mal ou bem.
Estamos no mundo da valorização da tal eletrônica (como se o rock fosse o mais acústico dos gêneros musicais) e, nesse contexto, pouco se faz, muito se reproduz. O que são os DJs, senão enganadores que dizem fazer música quando apenas reproduzem músicas dos outros. Ou, como dizem por aí, “pervertem” essas músicas? O que são as chamadas “bases” em cima das quais “músicos” costumam compor, senão seqüências de som cuidadosamente retiradas do trabalho alheio? O que é um disco de remixes senão uma tentativa de enganar o ouvinte interessado em ouvir música? E o que é o Cansey de Ser Sexy no palco senão um amontoado de oportunistas fingindo fazer uma música que já vem gravada de fábrica? Para mim, meus amigos, isso é tudo encenação, é tudo playback.
Se o mundo é globalizado, os problemas são os mesmos, no Brasil, na China e na tonga da mironga do cabuletê. A diferença é como cada sociedade percebe a coisa. E aqui não cabe qualquer avaliação rasteira de ser contra ou a favor do regime político que a China vive há anos (hoje até bem aberto), mas o fato é que, a história que eles têm nas costas pesa numa hora dessas. Enquanto aqui, para o bem ou para o mal, vale a máxima capitalista de faturar o quanto mais melhor, passando-se por cima de tudo e de todos. É a lei do oeste.
Eu falava da China e do playback. Mas, a rigor, aquilo foi só uma notícia. Ás vezes, a coisa nem é do jeito que parece. Se for, pode ser até que o tal projeto de lei seja reprovado com veemência pelo parlamento chinês. Pode ser que esses caras que querem combater o playback na terra de Mao Tse Tung sejam uns fundamentalistas inveterados. Eu só não poderia era perder a oportunidade de, de certa forma, validar uma das teses que me surgem no dia-a-dia do rock. Senão Rock é Rock Mesmo não existiria e era melhor eu fechar o meu botequim.
Até a próxima, e long live rock’n’roll!!!
Olha, achei legal o site e os comentários de vocês, mas infelizmente nao era isso que estava procurando, mas sim O ROCK NA CHINA...