Rock é Rock Mesmo
24 de setembro de 2003
O que importa mais, o rock ou a mensagem?
O que chama mais a atenção do fã de rock ao ouvir uma música pela primeira vez? A música ou a letra? Se a resposta for os dois, não deixe de ouvir o Sem Destino, a trilha sonora da juventude. Publicado originalmente no Dynamite on line.

Até que ponto a letra de uma música é importante para o rock? Ao ouvir uma música pela primeira vez, o que desperta mais o interesse de um fã de rock, a letra (não vou nem falar em conteúdo) ou a música por si só? Será que, no Brasil, quem gosta de rock se esforça para entender o que dizem as letras de bandas que cantam em inglês, ou passa a vida toda cantando no "embromation" mesmo?

Já tive testemunhos dos mais diversos sobre esse assunto. O jornalista Jéferson Araújo Pereira, por exemplo, em seu livro sobre rock progressivo, chega a afirmar que quem quiser letra deve ler um livro de poesias. Já os analistas da mpb conseguem escrever teses inteiras analisando ícones do gênero (Caetano, Chico, Paulino da Viola), praticamente sem entrar no mérito musical, ficando somente na mensagem que a letra pretende transmitir. Alto lá, não é bem assim.

Para o fã de rock, único gênero universal, que floresce em qualquer canto do planeta e certamente já foi cantado em todos os idiomas e dialetos que existem, o que apetece o ouvinte certamente não é a letra, mas a capacidade da música de cativar o ouvinte e fazê-lo cantarolar ou assoviar a melodia da canção. Uma vez conhecida a música e o autor, aí sim, ele vai tomar conhecimento da tal mensagem que a letra transmite. Não é a toa que, se qualquer um resolver enumerar as bandas das quais gosta, aquelas que tem como preferidas, estarão no mesmo bloco grupos com letras de alto teor político, como o Clash, e outras com letras sem significado algum, como o Deep Purple (sem nenhum demérito para este). Quantas vezes só vamos descobrir que determinada banda fala de coisas com as quais não concordamos bem de pois de ter comprado vários discos e visto outros tantos shows?

Em se tratando de rock nacional, de outro lado, fica difícil não captarmos a mensagem logo de cara. Por exemplo, como alguém que não fume maconha e nem goste dela, pode sair por aí cantando "eu canto assim porque fumo maconha", mesmo sendo fã de Planet Hemp e Marcelo D2?

Há uns meses atrás, ao entrevistar o grupo Los Hermanos, enquanto discutíamos as mudanças no som da banda, Marcelo Camelo afirmava que o importante era que a banda tinha uma mensagem a passar e que a força dessa mensagem estava nas letras do grupo. Na hora fiquei um pouco confuso, pois sempre achei que o conteúdo da mensagem depende da forma como ela é transmitida. Por exemplo, não há letra genial de um artista como o Caetano Veloso (sem dúvida um dos maiores poetas da mpb) que me desperte interesse. Porque ela vem embalada numa música chata pacas. Mas quando fui ao Canecão para checar o show dos Hermanos, entendi o que Marcelo dizia. Aliás, eu e mais as 4 mil pessoas que lotavam a casa, que cantaram (portanto, entenderam a tal mensagem) todas as 15 músicas do novo disco, que a banda corajosamente tocou. Ou todos estavam muito mais interessados nas boas letras da banda, e não estão nem aí para a música, que sofreu uma brutal transformação desde "Anna Júlia", ou estão todos na crista da onda com o hype da vez.

Mas é possível, e também muito bom, quando aparece uma banda que faz boas letras, passa a mensagem e dentro num "formato rock". Se o conteúdo dessas letras falar de coisas sobre as quais a juventude se interessa, com as quais ela se identifica, bingo, temos aí a o rock perfeito. Foi o que aconteceu com "Smells Like Teen Spirit", do Nirvana, que traz a juventude já no título, e, num outro patamar, com "Máscara", na qual Pitty pede para que o adolescente seja ele mesmo, ainda "que seja bizarro". Mas existe uma banda (foras das rádios, claro) que bem pode levar a alcunha de estar fazendo a trilha sonora da juventude. É o Sem Destino, que acaba de lançar o segundo álbum, "Cem Anos de Solidão".

A banda existe praticamente para que Marcelo Rocha (vocal, guitarra e teclados) despeje toda a angústia de uma adolescência indecisa em forma de poesia e sentimento. Marcelo é da fina linhagem de letristas brasileiros que inclui gente do naipe de Renato Russo e Cazuza, só para ficar com dois exemplos mais eloqüentes. Não é clone nem de um nem de outro, longe disso, mas radiografa, com a precisão deles, os problemas, desejos, e idas e vindas de uma fase da vida foi feita para ser a melhor de todas, muito embora tenha uma validade curtíssima. Entre guitarras, voltas e revoltas, ele protesta, questiona, se questiona e busca respostas para coisas que todos nós já pensamos um dia, e para as quais muitos ainda hoje não encontraram as respostas. Ele também não.

Marcelo mesmo costuma dizer que o disco do Sem Destino é para ser ouvido com o encarte nas mãos, dada a importância do que ele tem para dizer. Frases como "se o mundo inteiro diz que eu estou errado, eu tô em guerra contra tudo e contra todos", "de todas as ilusões que eu vendo para mim mesmo, liberdade sempre foi a palavra mais bonita", "a vida parece uma bandeja de sonhos trazendo histórias de repetição" e "tenho todos os caminhos e estou perdido" são tão emblemáticas para a juventude quanto as de poetas beatniks e da própria história do rock.

Mas não é só isso. O som do Sem Destino (já que isso, à primeira vista é o que importa mesmo) é um rock pungente e com guitarras, com berço no punk rock de verdade, e cheio de referências à música rebelde e juvenil, desde Nirvana e Clash até Bob Dylan e (é sério) Raul Seixas, o mais velho de todos os adolescentes da música brasileira.

"Cem Anos e Solidão" é o segundo disco do Sem Destino. O primeiro é de 1998 e leva o nome da banda. Ambos, claro, são independentes. A banda é da periferia de Brasília e no início era formada por um padeiro e dois balconistas, que sequer sabiam tocar qualquer instrumento, mas acreditaram na máxima "do it yourself" e foram em frente. Atualmente, a banda é formada por Eder Vieira (guitarra), Nicko Bonaventura (baixo) e Lucas Carmo (bateria), além do próprio Marcelo. No último Rock In Rio, em 2001, a banda foi umas das selecionadas para tocar na Tenda Brasil do festival. Naqueles dias um empresário caô ofereceu o sucesso ao Sem Destino. Em troca a banda teria que fazer um som "mais na moda", tipo aquela música da "Malhação". Claro que a banda recusou, e o trambiqueiro ficou sem entender nada.

Difícil é entender a lógica que explica o fato de até hoje a indústria do disco (e também a mídia estabelecida) viver requentando o "produto" Legião Urbana, enquanto bandas como o Sem Destino poderiam tranqüilamente suprir a necessidade que essa parcela do público parece ter infinitamente. Ou seja, até para escolher a chamada "bola da vez" e manter um público fiel a uma única tendência, nossos geniais diretores artísticos de gravadoras parecem ser incompetentes. Mas o Sem Destino não está nem aí, e a verve de Marcelo Rocha não pode depender desse tipo de coisa, seu destino é outro.

Até a próxima, e long live rock'n'roll!!!

em julho 21, 2006 12:17 AM [v@l trigueiro]

Ai, chique que nem diz a burguesia... Sou de Brasília, mas tô morando no Rio... Me amarro no som do Sem Destino... Abraços...



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