
Falar desse assunto hoje soa até uma coisa ultrapassada, já que tudo é muito rápido nesse início de século, mas esta coluna nunca teve como virtude ser novidadeira, e depois de tanto ver, ouvir e ler sobre o assunto, não poderia (com sugerem muitos) me omitir, e também vou meter minha colher.
Primeiro precisamos de uma série de negativas. O Coldplay não é maior banda de rock da Inglaterra na atualidade (quiçá do mundo), não tem carreira consolidada (são só dois discos), não possui bom repertório (as músicas são simplesmente ruins), não está no auge (só se enxerga o topo depois da queda), não é igual ao Radiohead (de certo modo, é bem melhor), não é cópia de Echo & The Bunnymen (embora seja influenciado por Ian McCulloch e cia), Chris Martin, o vocalista, não tem carisma (apenas se esforça para ser menos tímido, o que já lhe vale certo mérito), e, por fim, o show da última semana não foi o melhor do ano (só Silverchair, em maio, que eu me lembre, deu de goleada).
Ainda assim o que se viu nas duas melhores casas nas respectivas cidades foi um bom show. Porque um bom espetáculo de rock se faz fundamentalmente com duas coisas. Primeiro com o público, ávido para participar, cantar, pedir a música preferida e, perfumado ou não, propício a ser feliz em 90 minutos. Depois, com uma boa banda (isso, sim, o Coldplay é), com músicas razoavelmente conhecidas, de modo que até os pouco iniciados possam cantarolá-las. Uma banda que esteja em ponto de bala (semana passada o Coldplay estava) e que faça uso, no palco, de todos os clichês do rock, porque, ora bolas, o clichê foi feito para ser usado e deve ser usado. Com criatividade, claro, sempre explorando o que ele tem de melhor, que é sua obviedade. Circunstancialmente, fugir do óbvio pode não ser necessário. Exemplo? Uma das coisas mais comentadas por dez entre dez pessoas que estiveram no Via Funchal ou no ATL Hall foi o bom gosto e a precisão das luzes lançadas à meia altura e do feixe de raios laser (a la RPM) guardado estrategicamente para o bis. Existe coisa mais simples e de resultado mais agradável? É como a pirotecnia de festim dos shows de hard rock. Essas mesmas luzes, entretanto, fizeram um moderno colunista quarentão ir gastar outros módicos R$ 100 num restaurante classemediano.
O Coldplay, ainda não faz muito tempo, era só uma bandinha que tocava em universidades na Inglaterra. Tocava tanto que foi ganhando fama, até internacionalmente. Tudo foi rápido demais, e quando viu, Chris Martin já estava encerrando a turnê mundial da banda em pleno Rio de Janeiro, tendo que se mostrar "bom de palco" e lendo frases mal traduzidas (coisa fácil para canastrões do naipe de um Sting ou Mick Jagger) ainda sem se sentir tão à vontade assim nele. Para piorar, o pianinho que ele usa o tolhia mais ainda. Não há instrumento mais ingrato para uma boa performance, sobretudo na música contemporânea. Talvez só mesmo os jurássicos Jon Lord (ex-Deep Purple), que curte uma estadia no retiro dos artistas inglês, Carl Palmer, que "esfaqueava" o instrumento e Little Richards, que tocava de pé, e com um pé sobre as teclas, é que tenham conseguido uma boa performance. Daí o desempenho de Chris Martin ter sido tão elogiado. Mas carisma o moço ainda não tem, sobretudo porque ainda não soltou a franga para ser classudo como Morrissey, tampouco consegue ser macho como Lemmy Kilmister.
É claro que não é necessário que determinada banda esteja no auge para se apresentar no Brasil. Ótimo seria que todas viessem ao País uma vez por ano, ou a cada novo lançamento. Como isso quase não acontece, essa superlativização de um show (bom, repito) como esse do Coldplay é até natural, assim como, injustamente, muitos críticos consideram decadentes artistas que se apresentam com certa freqüência por aqui.
Resta saber agora o que vai acontecer com os "indies", termo para o qual, aliás, sob a aura solar dos trópicos, ainda não descobri o significado (assunto, claro, para uma coluna específica). Mas segundo meu amigo Moderninho de Plantão, entre outras características, ser "indie" pressupõe estar no gueto, gostar de um tipo de som que pouca gente gosta e, acima de tudo, estar sempre à frente daquele seu amigo que descobriu a última grande novidade que vai ser o novo hype do rock mundial, pelo menos até amanhã. Sob essa ótica, o Coldplay, que veio ao Brasil com apenas dois discos lançados, ainda sem chegar ao aclamado auge, é praticamente um veterano. Como, então, explicar a apoteose "indie" da semana passada? No total, cerca de 12 mil pagaram (R$ 100 em Sampa, R$ 60 no Rio) para ver o Coldplay, e isso não é nada "indie". Estaria o Coldplay jurado de morte em seu próprio gueto e fadado o sucesso odiado por sua tribo de origem? Ou seria apenas mais uma nuvem passageira?
É meus amigos, esse é o rock, mais uma vez descoberto pela imprensa musical, ainda que, a essa altura, ela já estivesse no restaurante classemediano mais próximo. Bebendo um bom vinho, saboreando uma boa comida, e, claro, ouvindo uma boa música.
Até a próxima, e long live rock'n'roll!!!