Rock é Rock Mesmo
09 de abril de 2003
Queremos mais e melhores shows
Se cada banda de rock tocasse no Brasil a cada álbum lançado, isso aqui seria o paraíso. Mas tem gente que não gosta disso e se ultraja com os shows internacionais por estas plagas. Publicado orginalmente no Dynamite on line.

É interessante como o preconceito com determinados segmentos dentro do rock às vezes soa exagerado e absolutamente gratuito. O maior deles talvez seja contra o rock progressivo, gênero que tanto sucesso fez na década de 70 e até hoje é acusado de ser chato. E ainda tem gente que achar ser o progressivo o culpado pelo rock ter se "elitizado", e que foi preciso o punk para "desmascarar" essa face ruim do rock. Pura falta de conhecimento ou até mesmo preguiça de se informar corretamente sobre o assunto.

Na semana passada pude verificar outro grande preconceito contra os guitarristas virtuosos. Estava empolgado com o show de Joe Satriani marcado para a última sexta no Rio. E tinha motivos para tal. O guitarrista já tinha tocado no Brasil duas vezes, e nas duas oportunidades fez shows excelentes, sendo o último, tocando durante cerca de três horas (com intervalo e tudo) e para um público recorde, em se tratando de música pesada, no Rio de Janeiro. Além do mais, seu último disco, "Strange Beautiful Music", no qual ele abandona as investidas eletrônicas usadas no anterior, é realmente muito bom.

No passado já tinha ouvido muitas pessoas "do ramo" chamarem guitarristas como Joe Satriani, Steve Vai, Vinnie Moore, Tony Macalpine e Steve Morse, entre outros, de meros "guitarreiros". O termo, pejorativo e que denuncia um estilo de tocar guitarra meramente técnico, porém não agradável, me incomodava muito, porque o que eu ouvia desses músicos era exatamente o contrário. Agora o preconceito foi tanto, que a reclamação que eu ouvi era de que "Joe Satriani já estava tocando no Brasil pela terceira vez e isso era um absurdo". Tentei explicar que ele continua vindo ao Brasil (apesar da alta do dólar) a cada álbum lançado porque tem público, que costuma encher os shows, como de fato aconteceu na sexta passada, mais uma vez, no ATL Hall, com ingressos custando entre 45 e 90 Reais.

Mas foi quase em vão. Quem falou isso não queria ouvir uma explicação, pois já tinha uma verdade própria pré-estabelecida e definitiva, o que é realmente lamentável. Mas cabe ainda outra explicação. Joe Satriani não é o tipo de artista que vem ao Brasil em turnês caça-níqueis, geralmente em decadência no exterior, e que consegue brilhar em nosso país, mesmo sem lançar qualquer trabalho novo. Nesse campo, posso citar vários nomes: Spy Vs Spy, Pato Banton, Jimmy Cliff, Creedence, etc. Nas três vezes em que esteve no Brasil, Joe Satriani estava na turnê de seus álbuns recém lançados: "Crystal Planet", em 1998, "Engines Of Creation", em 2000, e, agora, "Strange Beautiful Music". Sem entrar no mérito da qualidade desses discos, são trabalhos inéditos e que vão mostrando a face de um artista que busca sempre a inovação dentro do seu estilo, em constante em mutação.

Quando ainda estava no segundo grau e começava a me interessar pelo rock, numa conversa com um amigo mais experiente, que em alguns momentos fazia as vezes de um "guru", confessei certa vez que a banda que eu mais queria que viesse ao Brasil era o Led Zeppelin. "Impossível", ele me respondeu, explicando que com a morte do baterista John Bonham a banda tinha acabado, coisa que eu sequer sabia. Depois, já em 1996, durante o Hollywood Rock, pude ver Robert Plant e Jimmy Page (que literalmente babou ao entrar no palco) junto com o excelente baterista Michael Lee, darem um show a la Zeppelin.

Aqueles é que eram tempos difíceis, nos quais as bandas nem pensavam em passar pelo Brasil. Hoje, se todos os artistas fizessem como Satriani (independente do gosto pessoal de cada um) e a cada novo álbum lançado viessem tocar no Brasil, seria realmente o paraíso. Porque não pensem que um disco é suficiente para convencer, é preciso ver o grupo, qualquer um deles, tocando ao vivo, senão não é rock. Imagine qualquer banda de sua preferência, caro leitor, das consagradas como U2 e Metallica, até as novas sensações como Hives e White Stripes, a cada um ou dois anos, tocando no Brasil. Bom, né?

Entretanto, criou-se um estigma dentro da crônica musical brasileira, que de musical tem muito pouco, infestada que está de profissionais enclausurados em suas redações, de que uma banda de médio porte não pode vir repetidas vezes ao Brasil. Se o faz, passa a ser criticada, taxada de repetitiva, oportunista, etc. É engraçado, pois todos desejam que bandas como o Radiohead e o Coldplay, por exemplo, venham tocar aqui. Mas se virem uma ou duas vezes, na terceira já serão criticadas. Acontece o mesmo com bandas de grande porte. O Pearl Jam, por exemplo, é a mais desejada há muitos anos pelo público brasileiro, como também era o Rush até o ano passado. Mas se essas bandas começarem a tocar por aqui com certa freqüência, ainda que com o aval do público, logo serão detonadas. Aconteceu com o Red Hot quando veio no ano passado, pela terceira vez ao Rio. E acontece agora com o Silverchair. Ao saber da terceira vinda do grupo australiano, todos soltam um sonoro e indignado "de novo?".

Conclusão: no Brasil só pode tocar quem nunca tocou antes. Se essas pessoas que agem dessa forma morassem na Inglaterra, por exemplo, teriam um problema e tanto: um Reading Festival por ano, shows com todos os novos artistas a cada final de semana, uma vida realmente entediante, não caro, leitor? Vai ver que é por isso que os ingleses vivem reclamando de tédio e formando bandas chatas como Radiohead e Coldplay. Mas isso já é assunto para outra coluna, certo?

E você Satriani, pode continuar lançando álbuns criativos e recheados de sentimento, vir a cada turnê ao Brasil e fazer shows ótimos como o de sexta passada, que sempre haverá grandes exceções para essas regras inúteis destiladas na nossa cultura sub tudo.

Até a próxima, e long live rock'n'roll!!!

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