Máquina fotográfica em mãos, todos a postos para a pose e, quando a imagem é revelada - hoje se diria quando ela é vista no computador - eis que aparece uma surpresa. Um componente a mais, algo ou alguém que não estava lá. Não é um caso raro, muito menos isolado. A tentativa de captar imagens de espíritos por meio de máquinas fotográficas ou de vídeo tem sido uma constante na história da investigação do mundo espiritual. Existem fotos clássicas a esse respeito, como a de lorde escocês Combermere. Em 1891, no mesmo momento em que Combermere era enterrado, uma foto da biblioteca de sua mansão registrava um vulto. Depois de uma hora de exposição uma figura difusa surgiu numa cadeira, sugerindo a imagem de um homem de idade. Os parentes do lorde garantiram que era o tal que aparecia na foto.
Em Belém, em 1921, o então advogado e futuro desembargador Nogueira de Faria lançou "O Trabalho dos Mortos (O Livro do João)", livro com nome de ficção científica de última qualidade que relata as experiências mediúnicas da família de Eurípedes Prado, " guarda-livros da firma Albuquerque & Cia., desta praça, e cavalheiro muito conceituado nesta Capital", tal como explica a reportagem de 20 de maio de 1920 da Folha do Norte, jornal que já não existe. Os fenômenos de materialização foram fotografados pelo maestro Ettore Bosio. Considerado o primeiro documento de prestígio do fenômeno no Brasil e um dos pioneiros no mundo, a publicação ganhou o país entre os adeptos do Espiritismo. A fama das médiuns da família paraense ganhou corpo por conta das fotos que mostravam vários espíritos materializando-se através do ectoplasma. O João do título refere-se ao espírito de mesmo nome, o mais assíduo das sessões entre os Prado.
O ectoplasma, aí um aposto para o tecnicismo, é uma substância amorfa e vaporosa com tendência à solidificação e que, por influência de um campo organizador específico, a mente dos encarnados (vivos) e desencarnados (mortos), pode tomar diversas formas. Podendo ser fotografado, tem cor branco-acinzentada, pode ser desde uma névoa transparente até a uma forma tangível. O Ectoplasma é doado pelo médium depois da moldagem pelo processo de condensação e, posteriormente, retorna à sua fonte (o médium) por mecanismo inverso.
O fotógrafo e artista-plástico paulista Mário Ramiro estudou em 1991 na Alemanha a técnica fotográfica Schlieren, que permite registrar as emanações de calor em volta de corpos quentes. Lá se aprofundou nas pesquisas sobre a fotografia e conheceu os muitos estudos que já haviam sido realizados não só na Alemanha, mas também na França, nos EUA e no Canadá sobre o registro do invisível. Ao retornar ao Brasil, percebeu que aqui ainda não havia sido feito nenhum trabalho sobre esse universo chamado da "Fotografia dos Espíritos no Brasil". Foi então que chegou ao trabalho dos paraenses.
"A minha tese é a de que essas fotografias, produzidas no contexto do espiritismo ou ainda da chamada parapsicologia (hoje conhecida como "psi"), apresentam uma gramática visual, uma composição fotográfica muito semelhante à chamada "Fotografia encenada" (em inglês "staged photography"), estética artística muito em voga ao longo dos anos 80 do último século e que foi, em grande parte, responsável pela conquista definitiva do estudo da fotografia como arte", explica Ramiro.
Os fenômenos na casa dos Prados foram amplamente relatados pelos jornais mais importantes da época, a Folha do Norte e O Estado do Pará. A primeira vista, tanto para quem é cético quanto aos leigos, as imagens aparentam ser montagens ou simples sobreposições de negativos. No entanto, as fraudes sempre estiveram sob a ferrenha ótica do Espiritismo, doutrina que sempre teve um pé fortemente fincado na legitimação científica. Até hoje, com todas as técnicas avançadas de análise fotográfica não se provou nenhuma fraude do caso paraense.
E esse controle se faz necessário porque uma fraude pode acontecer propositalmente ou não. No caso dos espíritos que mal aparecem, simples borrões, a explicação mais corriqueira que se trata do excesso de tempo de exposição das chapas à luz. É bom lembrar que no começo do século passado o tempo para que fosse feita uma foto era muito maior que hoje em dia. Quanto maior tempo que o obturador (que regula o tempo da entrada da luz) e o diafragma (que regula o tamanho da abertura da entrada de luz) ficarem aberto maior será a chance de uma pessoa que não está no foco sair borrada. Já a aparição de um corpo estranho pode ser explicada pela reutilização de uma mesma chapa ou negativo. Em tempo, esses são exemplos de erros que podem acontecer, contudo, é bom reforçar novamente, nunca foi provado nada que desautorizasse as fotos do maestro.
As fotografias de fantasmas são consideradas por alguns pesquisadores dos fenômenos parapsíquicos e espirituais como uma fonte confiável de informação e contato com outras dimensões, desde que devida e criteriosamente analisadas. Por conta de seu pioneirismo as fotos sempre foram alvos de olhares enviesados. Mas, nos anos que se seguiram vários outros relatos semelhantes foram registrados. Alguns, inclusive, com a presença de Chico Xavier, o mineiro considerado o principal médium brasileiro.
"Não havia técnicas suficientes pra manipulações das fotos. Fraudes existem, isso é fato, mas, fato é fato e enquanto o homem ver apenas o corpo não verá a alma", comenta Heitor Lacerda, terceiro vice-presidente da União Espírita Paraense. Hoje tais fraudes são facilmente feitas e, da mesma forma desmontadas. Os recursos à mão são enormes e acessíveis até para quem não é profissional da área.
Desde o ano passado, por exemplo, o inglês Richard Wiseman, da Universidade de Heartfordshire, encabeça uma força-tarefa científica para tentar desvendar os mistérios que cercam fotografias que há décadas desafiam a ciência. Considerado o "inimigo número um dos fantasmas", tornou-se célebre após coordenar, em 2003, uma pesquisa que derrubou a aura fantasmagórica dos castelos de Hampton Court (Inglaterra) e South Bridge Vaults, na Escócia, então alguns dos casos mais famosos que se tinha notícia.
A Materialização, segundo a doutrina espírita, se dá com a união de dois componentes do espírito, a alma e o perispírito (o terceiro é o corpo). É um fenômeno material, como é classificado o espírito, que estaria numa freqüência diferente da nossa e que pos isso precisa de um receptáculo humano - os médiuns - para aparecerem. "O espírito tem poderes que o corpo não tem. O corpo é um escafandro abafador desses poderes. Nos sonhos fazemos coisas impossíveis ao corpo, como voar. É o espírito em ação", explica Lacerda.
Mário Ramiro ressalta que seu interesse é puramente científico, sem entrar no mérito religioso dos fenômenos registrados nas fotografias. Isso é assunto para religiosos e estudiosos do assunto. "Eu não tenho nenhuma experiência pessoal nesse campo e não estou interessado em discutir se tais registros de fenômenos são ou não 'verdadeiros'. Eu não estou habilitado a falar sobre isso, pois sou um artista-pesquisador que, por conta do doutorado, está sendo levado a conhecer de perto a história do espiritismo no Brasil".
Matéria publicada na edição de junho, a inaugural, da revista de.lovely, de Belém do Pará. Não acredito em nada dessas coisas, sejam espíritos ou virgens que dão à luz, mas procuro respeitar as crenças dos outros. A minha editora, que também é minha amiga, me esculhambava dia sim e dia sim para eu colocar mais molho na matéria - "cadê humor nessa porra? - me dizia num dos raros momentos de delicadeza. No final ela gostou. Curiosidade: o título foi o mesmo do email que mandei a ela com a matéria para ser editada. Gostaram do chiste e ficou. Vai entender o que se passa na cabeça desse povo.
Messias Jardan garante que já tirou foto de tudo que é vivo ou não nesse mundo, mas esse click é do começo do século e, naquela época, quem mandava ver nas objetivas era seu bisavô Ficário Jardan. A foto ao lado é do maestro Ettore Bosio. O registro mostra o aparecimento de um espírito (de preto) fantasiado de boneca velha... ou quase isso