Ano passado escrevi aqui sobre o primeiro festival de música independente Se Rasgum no Rock. Tentei até botar emoção porque trabalhei no evento e, por contrato, tinha que fazer isso. Pois nesse final de semana, dias 15 e 16, Belém recebe a segunda edição do evento e eu, mais uma vez para não ter que pagar ingresso, sujeito-me a trabalhar com os caras. Por mais que esse ano o local não seja o charmoso Parque dos Igarapés e sim uma casa noturna do centro da cidade a qualidade das bandas continua a mesma. Móveis Coloniais de Acaju, Cabaret, Nashville Pussy, MQN, Sarapatel do Cor.... ôpa, Cordel do Fogo Encantado são atrações para ninguém torcer o nariz.
Quem esteve no evento de 2006 sabe que diversão não faltou, sendo que agora há o diferencial de que os shows serão, como já citado, bem no centro da cidade, o que facilita e tanto o acesso. Algumas das melhores bandas locais estarão lá mais uma vez, como Johny Rockstar (só um "n" mesmo), Madame Saatan, Norman Bates, Delinqüentes, Cravo Carbono, La Pupuña e mais uma penca delas.
Nós do Ressaca Moral tentamos durante a última semana entrevistar os organizadores do festival, mas sem sucesso. Um misto de falta de tempo, estrelismo e baitolagem (por parte deles) impediu o encontro. Sem saber o que fazer dona Magda, a contínua da redação nos lembrou que fizemos uma entrevista com o pessoal do The Feitos meses atrás e a engavetamos por total falta de graça. Mas, a situação faz o homem. O trio niteroiense foi uma das grandes revelações do festival do ano passado e voltou a Belém para a festa de lançamento do Se Rasgum 2007.
Ramon, Alexandre (Alê Poser) e Andrei foram de uma simpatia ímpar e contaram histórias do arco da velha sobre o mundinho fashion brasileiro, aquecimento global, a alta sociedade da cidade com a vista mais bonita do Rio de Janeiro e de como se conquistar uma boneca inflável. Nada que fizesse muito sentido, mas ficou um bate-papo pândego.
(Da esquerda) Alê Poser entediado com a entrevista, Andrei rabiscando obscenidades e Ramon feliz da vida com mais um copo de cerveja. O click rupestre bem que poderia ser de Messias Jardan, mas na verdade é do amigo Marcel Arêde.
TUNAK TUNAK TUN / TUNAK TUNAK TUN / TUNAK TUNAK TUN / DA DA DA / TUNAK TUNAK TUN / TUNAK TUNAK TUN / TUNAK TUNAK TUN / DA DA DA / TUNAK TUNAK TUN / TUNAK TUNAK TUN / TUNAK TUNAK TUN / DA DA DA (N.R.: Ramon passou a noite cantando o clássico "Tunak" de Daler Mehndi ao notar que sou uma versão melhorada do cantor galã indiano)
Tylon - Tá bom de Tunak, por favor. Contaê o papo do escorpião...
Rafael - Que papo do escorpião?
Tylon - Calma aê que vem coisa boa.... eu acho.
Ramon - Foi um caso verídico onde provei que não temo o Mal e nem escorpiões. Fui guardar minhas coisas na mala e fui picado duas vezes. O dedo ficou imobilizado. Os bombeiros olharam e disseram: foi um escorpião. Isso só de olhar o ferimento. Mas não me abalei e fiz o show mesmo assim, com a mão inchada e dolorida.
Vlad - Porra, era essa história do escorpião? Sem-graça...
Tylon - Vlad, tu não tava lá. Na hora foi dramático.
Rafael - Quem chupou o dedo dele pra tirar o veneno?
Vlad - Deve ter sido a mesma groupie que, dizem, atendeu o Cachorro Grande atrás do palco.
Rafael - Não é o escorpião que a gente tem que mijar em cima para cortar o efeito?
Ramon - Isso! Mas não foi preciso nem mijar e nem chupar. Milagrosamente eu me recuperei sozinho e fiz o show mesmo assim. Nem precisei de ajuda dos bombeiros. Agora eu conto essa história para todo mundo. Dando uma de macho, né? "Porra, quase gangrenou e tal".
Os Ressacas presentes. Eu com sorriso contido, Rafael Guedes rindo não se sabe do quê e Vladimir Cunha bebendo parece um gambá. O click etílico mais uma vez é do Arêde.
Rafael - Eu queria que vocês falassem dos shows daqui. Fala do show do festival, porque esse de ontem...
Ramon - Ninguém assistiu?
Vlad - Eu não assisti...
Rafael - Eu não lembro.
Tylon - Eu sou surdo-mudo. Mas como leio lábios adorei as letras.
Ramon - A história do The Feitos no Pará...porra, tem fita suficiente pra eu contar essa história?
Vlad - Duas caixas de TDK.
Ramon - Então...eu entro naquele serviço chamado "gâgou" (N.R: Ramon se enrola todo na pronúncia).
Tylon - Ah, rapaz, esse Google é uma novidade. Diz que tá arrebentando.
Vlad - Eu prefiro o Cadê...
Ramon - Eu gosto de sala de chat. Já viu como é? Dá pra conversar com gente do mundo inteiro. É uma das grandes novidades da internet. Voltando: em 2005 eu digitei "The Feitos" no "gâgou" e apareceu uma matéria de um jornal chamado Diário do Pará. Diário do Pará, que porra era essa? Era uns caras vendendo um disquinho safado, uma coletânea pirata que tinha e uma porrada de banda, entre elas o The Feitos. Até Flamming Lips os safados colocaram. Depois descobri que era um disco com as músicas que mais tocavam nas festas da Dançum Se Rasgum. E na maior cara de pau, os caras da Dançum tavam vendendo a nossa música sem nem me avisar. "Vou processar", pensei.
Vlad - Igual ao Lars Ulrich, do Metallica.
Ramon - Exatamente. Eu queria fechar o Soulseek, o Emule e a Se Rasgum de uma vez só (risos).
Tylon - Só com o que tu ia ganhar processando a Se Rasgum já dava para garantir uma aposentadoria confortável.
Ramon - Pois é. Mas aí ao mesmo tempo achei do caralho a doidice dos caras. Tanto que quando viemos para o festival, o Se Rasgum no Rock do ano passado, foi uma loucura. Todo mundo conhecia as nossas músicas por causa das festas da galera e por causa do tal disco. Tava espalhado geral, tipo um veneno de escorpião.
(Nessa hora, os entrevistadores protestam contra a tentativa de Ramon de criar uma metáfora para explicar o seu sucesso underground no norte do país)
Vlad - Só a Bruna Surfistinha desceu tão baixo.
Um dos vários desenhos imorais do baixista Andrei. Em breve à venda no Mercado Livre.
Rafael - Não vai falar do show?
Tylon - Que show?
Rafael - O daqui.
Ramon - Aqui em Belém foi foda. O festival foi do caralho, o público foi insano. E quando chamaram a gente pra tocar de novo aqui achei do caralho. Você não foi, você não lembra e você é surdo. Mas posso dizer que foi sensacional. Sempre que a gente toca aqui em Belém é foda.
Vlad - Nas outras cidades é assim também?
Ramon - Em Duque de Caxias foi massa.
Rafael - Vocês já tocaram em Mossoró?
Ramon - É a próxima parada da turnê. Estamos fazendo Niterói/Belém/Mossoró.
Tylon - Depois de Niterói qual foi o lugar mais estranho que vocês tocaram?
(N.E: Ramon se enrola todo e não consegue parar de rir)
Tylon - Poser, como foi substituir o velhinho na banda?
Ale Poser (mais pra lá do que pra cá) - Foi massa...andei de avião...tomei refrigerante...comi maniçoba...provei tapioca...estou amarrado.
Vlad - Uau...
Tylon - E a história da maniçoba?
Ramon - Eu sou de uma região em que a gente não come veneno.
Rafael - De onde vocês são mesmo?
Vlad - Ele tá com vergonha de dizer.
Ramon - De Niterói.
Vlad - (para Rafael) Tá vendo por quê?
Tylon - (tentando retomar a entrevista) "Eu sou de uma região..."
Ramon - Você é de uma região...
Vlad - (para Ramon) Ele não, tu é de uma região.
Ramon - (para Tylon) Qual região que você é?
Vlad - Ele é de Abaeté...
Rafael - A Medellín brasileira.
Tylon - A maniçoba...
Ramon - A maniçoba...Então. Quando eu tive aqui no festival as pessoas diziam "você tem que comer as comidas típicas". Entre elas a maniçoba. Mas, porra. A maniçoba era uma delícia, mas era veneno. Tacacá era uma delícia, mas era veneno. Além de ter uma porra de uma goma que parecia...porra. Eu falei "caralho, não vou comer nada disso aí". Mas comi uma mousse de chocolate no hotel que eu faço questão de recomendar. Foi a melhor comida típica que provei aqui. Eu não consigo entender como um prato demora sete dias para ficar pronto. E se houve desleixo da cozinheira e ela só cozinhou seis dias e meio? E se acabou o gás no meio do processo? Eu não vou arriscar! Acho que nem se a minha mãe fizer maniçoba eu como.
Tylon - Mas comeu...
Ramon - O negócio foi que eu tirei um barato com a Marisa, da banda Euterpia, dizendo que se ela levasse uma maniçoba pro show eu comeria no palco. A merda foi que a doida levou a sério e levou a maniçoba. Aí eu tive que comer. Gostoso pra caralho.
Vlad - Tylon, tu que é o único que conhece a banda, pergunta alguma coisa.
Tylon (para Andrei) Porque no site da banda, na parte onde está a descrição dos integrantes, não tem nenhuma informação sobre ti?
Ramon (para Andrei) - Descreva-se em poucas palavras.
Rafael - Uma cor...
Ramon (interrompendo) - ROSA REDLEY! (risos)
Tylon - Dia ou noite? (risos)
Andrei - (sem nenhuma vontade de responder a pergunta) Er...noite.
Vlad - Um sonho...
Andrei - Mais cerveja.
Tylon - Copacabana ou Leblon? (risos)
Andrei - Niterói.
Leonardo Aquino (um penetra na entrevista, mas como tem a tatuagem mais legal de Belém foi aceito) - A perna mecânica do Roberto Carlos é a esquerda ou a direita?
Tylon - No filme Roberto Carlos em Ritmo de Aventura ele dá uma topada com o pé direito e não solta um "ai".
Vlad - Porra, depois dessa vai ser foda dar um rumo pra essa entrevista...
Rafael - Ah, o Mengão...
Ramon - Obina é uma entidade. Sou apaixonado por ele.
Vlad - Obina Shock, grande banda dos anos 80...
Rafael - Como é essa coisa de compor?
Ramon - É ali...pá! (batendo a mão na mesa).
Rafael - Como?
Ramon - Ah, porra, sei lá. Tem músicas que eu lembro como eu fiz, tem músicas que eu não lembro. É uma cagada explicar isso.
Ramon (apontando com cara de poucos amigos para Rafael) - Que porra de camisa é essa que você tem que tem desenhado um porco e um número de telefone?
Rafael - É que a minha mãe levou pra casa uma peça de porco...
Ramon - Uma peça de teatro?
Vlad - É. Faz parte de um projeto de arte-educação com porcos de rua em situação de risco. É a ressocialização dos porcos através da arte e da cultura. Além disso, eles fazem artesanato e dinâmica de grupo.
Rafael - Enfim...o cara que vende o porco é o Edno - O Rei do Suíno. Ele mandou fazer essas camisetas.
Rafael - E o festival, o primeiro festival independente realizado em Belém.
Vlad - Porra, de novo essa história...
Rafael - Vai te fuder.
Ramon - E daí?
Rafael - Era isso.
Ramon - Era isso?
Rafael - Era.
Ramon - E você quer que eu diga o que?
Rafael - Já falei.
Ramon - Hmm...
Tylon - Já deu pra pegar mulher com o rock?
Ramon - Você já teve banda de rock?
Tylon - Eu já fui roadie.
Ramon - Mas roadie não pega ninguém. Pegar mulher é o objetivo. Não dá pra ganhar dinheiro com música no Brasil. Não tentem me pagar, me apresentem suas irmãs!
Tylon - De onde surgiu a Emanuelle?
Ramon - Eu fiz uma propaganda de uma sex-shop. E para os anúncios eu fiz uma série de fotos com uma boneca inflável. Eu e a boneca no motel, eu e a boneca jantando, eu e a boneca namorando. Só que a dona da sex-shop espalhou fotos pela cidade toda. Tinha foto em outdoor, em ônibus, em tudo que era lugar. Me fodi e fui sacaneado pra caralho, mas pelo menos saiu uma música.
Ramon e Emanuelle contemplando o que há de melhor em Niterói: a vista.
Tylon - Como o Alexandre entrou pra banda?
Andrei - A gente tava fazendo testes com a galera e o Alexandre apareceu. Ele tocou pra caralho no ensaio. Aí de repente sumiu e deixou o baixo dele no meio da rua. Ficamos eu e o Ramon olhando praquele baixo no meio da rua. Aí ele voltou e saiu de novo para ligar para um amigo dele. E o baixo ficou lá. Quando ele voltou, pegou o baixo e saiu de novo. E, porra, o cara era do caralho, nem pediu pra gente olhar o baixo dele e sumiu, deixando o baixo lá no meio da rua. Um sujeito desses só podia ser tão doente quanto a gente. Por isso ele entrou pra banda.
Rafael - No Rio a recepção do público é tão legal quanto aqui?
Vlad - Porra nenhuma, rapaz, ninguém sabe quem eles são lá...
Ramon - Em Niterói a gente é famoso...
Tylon - Ainda dá pra fazer mais perguntas?
Ramon - Pergunta tudo o que você quis perguntar quando olhou nos meus olhos pela primeira vez... (pintou um clima e ninguém fez questão de esconder)
Vlad - Ai, Jisus!
Rafael - Alôô, século XXI.
Mais um dos impublicáveis desenhos do mais degenerado dos The Feitos. Ao todo foram feitos 53 durante a entrevista.
Tylon - Pra finalizar, deixem uma mensagem para os leitores do Ressaca Moral.
Ramon - Hmmm
Alexandre - Belém tem xotas...
Ramon - Porra, você não tem que descrever Belém, tem que deixar uma mensagem. Xota tem no Brasil inteiro!
Vlad - Até na Antártida tem buceta.
Ramon - Como?
Vlad - Lá tem mulher também, nos centros de pesquisa.
Ramon - Não vai mulher pra Antártida.
Vlad - Claro que vai, porra.
Ramon - Não pode! Não vai mulher pra lá!
Rafael - Como não? Se vai até pro espaço. Porque tu achas que vai mulher pro espaço? Direitos iguais o caralho, é pros caras não se acabarem de bater punheta. Oito meses no espaço, porra, que nem aquele recordista.
Vlad - Que recordista?
Rafael - Aquele que ficou oito meses. Bateu o recorde de ficar mais tempo no espaço.
Ramon (rindo) - Onde saiu isso?
Rafael - Todo mundo conhece o recordista.
Tylon - Tu tá inventando esse papo de recordista.
Rafael - Caralho, eu vou provar pra vocês que tem um recordista que ficou oito meses no espaço. Vocês tão fodidos na minha mão.
Andrei - Qual era a pergunta mesmo?
No dia seguinte Rafael provou que o tal cosmonauta onanista realmente existe.