Inteligência do meu Brasil
Os metidos a sábio estão em toda parte, espalhados em variados grupos sociais. Ressaca Moral continua firme em seu propósito de ir fundo na catalogação das espécies e não desiste, assim, tão facilmente.
Urbano Descolê
Pensa que Renan Calheiros é uma rua ou nome de bairro periférico. Teme que a crise aérea prejudique a vinda do Arctic Monkeys ao Brasil. O último disco brasileiro que ouviu foi do Jota Quest em 1998, quando ainda não havia formado sua personalidade ultradescolada. Jamais admite que freqüentou churrasco com pagode na adolescência. Acha-se no direito de espetar maldosamente quem julga estar mal vestido, discrimina os donos de MP3 Player genéricos e faz questão de acentuar seu inglês com sotaque britânico, apesar do diploma ser do Yázigi. Leu On The Road duas vezes, mas o livro da vida é Please Kill Me (Mate-me Por Favor, título em português que ele finge não existir). Não perde a oportunidade de formular comentários e piadinhas cheias de referência à cultura pop ("a Lú acha que a vida é um romance do Nick Hornby, mas vai acabar em um conto do Bukowski, rsrsrs").
Playboy praiano
Por algum motivo que a razão não explica, a cultura beira-mar conseguiu criar um tipo de inteligente padrão. Aqui a regra é buscar a sabedoria em letras do Armandinho e outros artistas da cena praiana. É importante saber extrair alguns trechos e travesti-los de filosofia para citar naquele puta por-do-sol ao lado da gata. Nas rodinhas de conversa, é importante conhecer os nomes, geografia e dicas de lugarzinho escondido do maior número de praias possível ("Jerê? Puutz, melhor baseado da minha vida! Chega lá e pergunta pelo Camarão, é um pescador que casou com uma gringa e abriu uma pousada"). Gostar de Jack Johnson já foi visto como diferencial, mas hoje é tão básico quanto conhecer o vocabulário básico dos surfistas. O playba praiano gosta da Trip, mas só lê as matérias que contenham fotos de ondas ou mulheres de biquini. Sabe tudo sobre a Austrália ("puta meu, lá cê num vê criancinha vendendo comida na praia, não"), morou lá 8 meses e agora pensa em uma aventura na Nova Zelândia ou África do Sul ("meu, mó vizú, aquilo é Deus cara, é Deus!").
Direitoso Bicudo
Não cansa de repetir que é um absurdo um presidente não ter diploma. Acha Diogo Mainardi um corajoso por dizer o que pensa e não perde uma entrevista de FHC, soltando um sorriso irônico quando o ex cutuca o atual. Acha que "vagabundo tem que apanhar", mas ligou rapidamente para o amigo Delegado quando o filho da dona Laura, do 401, foi pego com maconha em uma blitz ("ele é um bom menino, só anda com o pessoal errado"). Odeia programas de auditório e a banda Calypso, votou no Collor e ficou muito puto quando confiscaram sua poupança. Nunca deixa de comprar o disco do Roberto Carlos no final do ano. Pensa que para diminuir os engarrafamentos a cidade deveria ter menos ônibus. Finge que tolera homossexuais, mas não consegue conter as piadinhas quando uma biba entra no mesmo restaurante onde ele almoça com o pessoal do escritório. Morre de rir com Jô Soares e nas conversas sobre cinema diz, em tom imperioso, que o melhor filme de todos os tempos é Cidadão Kane e fim de papo.
Universitário particular
A sigla da sua faculdade inspira tanta confiança quanto a masculinidade de George Michael, mesmo assim, o universitário particular enche o peito de orgulho quando diz que faz "direito na Flum" ou "administração na Farpa". Acha-se herói por "estudar e trabalhar", mesmo que o trampo seja um estágio de meio-período no marketing de um plano de saúde e, sua principal atividade, seja combinar no MSN a farra depois da aula. Aliás, nos raros momentos em que está na sala de aula, naquelas chatíssimas disciplinas onde o professor dá uma de esperto e deixa a turma debater, o Universitário Particular adora opinar sobre a atual conjuntura. Segundo ele, os problemas do Brasil são basicamente culpa do governo - "que não dá educação e saúde pros mais pobres - ou culpa da mídia - "que esconde a verdade e manipula a opinião das pessoas". Logo após proferir suas certeiras palavras, ele sai no meio da aula para atender o celular e desce direto para o boteco, onde comentará que "o novo disco do Seu Jorge/Lenine/Los Hermanos tá muito bom". Há meses, está querendo comprar "o livro do Nelson Motta", mas não lembra o nome. Tem duas temporadas completas de Friends e A-M-A Woody Allen, do qual viu dois filmes, "desses mais novos".
Esquerdóide Festivo
Enquanto sonha com uma viagem à Cuba, o esquerdóide gaba-se por saber enrolar um fino com uma das mãos, explicando que aprendeu a técnica em Pernambuco, quando participou de um encontro de estudantes e conheceu o maracatu, ritmo pelo qual se apaixonou. Não passa mais de 15 minutos sem falar mal dos EUA e critica os amigos que deixam os filhos assistirem Cartoon Network ("compra uns livros do Monteiro Lobato pro Pedrinho, vi toda a coleção baratinha em um sebo ali na Augusta"). Acha-se desprendido de valores capitalistas, mas sonha em morar na Vila Madalena em um apartamento de móveis rústicos e decorado com peças de barro do mestre Capiruto de Sertãozinho Duro. Ao contrário dos colegas mais radicais, gosta de tomar banho, mas só usa sabonete artesanal. Ainda ama Chico, mas acha que Caetano ficou estrela demais. Adora externar seu ódio ao McDonald's, mas intimamente, lembra com carinho da madrugada onde se acabou em um Quarterão com batata frita e coca-cola. Não terminou, mas amou Grande Sertão: Veredas. Só bebe cerveja grande e acha o máximo as adaptações de Ariano Suassuna na Globo ("finalmente um pouco de cultura na TV, né?!").
Britney Spears foi flagrada lambendo sabão e deixou-se fotografar sem calcinha para o ensaio de capa do folder informativo da Conferência Internacional dos Sabichões de Final de Semana. Nas fotos, preferiu esconder os peitos pois está desenvolvendo com a dupla, em segredo, um novo reality show sobre a felação enquanto diversão proibida entre as patricinhas ripongas da PUC. O clique, meticuloso e particularmente empanado é do irrefutável Messias Jardan.









