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29 de novembro de 2006

Universidade Vladimir Cunha parte 2 – Como ser um artista plástico de sucesso

Saber pintar é só um detalhe – Penicos pendurados no teto, cabeças de boneca coladas na parede, rabiolas em chamas, quatipurus fosforescentes, biribás empalhados... o mundo das artes plásticas é uma festa. Quando se trata de fazer arte, tudo (eu disse tudo) vale a pena. E aí coisas como proporção, anatomia, perspectiva e ótica vão para as cucuias. Afinal, porque alguém iria perder tempo estudando pintura a sério se pode colocar uma foto da Elke Maravilha dentro de um aquário cheio de quissuco sabor tutti-frutti e chamar isso de 'instalação'? Ou mesmo pôr uma estátua de Nossa Senhora de Nazaré dentro de uma lata de Creolina Cruzwaldina cheia de fitas coloridas, miçangas e outros badulaques e batizar a 'intervenção' de 'Circa mea pectora – A Tropicália Reluzente ou Quando Mariazinha Escorregou do Pequiazeiro'. E, pasmem, ainda ser premiado por isso.

O mapa é o território – Nas artes plásticas o que vale é ter uma boa explicação para as tralhas que você cria. Quanto mais complicadas e difíceis de entender, melhor. Até porque a socialite desocupada que está comprando a roda de mobilete pintada de verde que você está querendo empurrar pra ela por dois mil reais vai ficar com vergonha de perguntar que diabos você quis dizer quando definiu a obra como 'uma pontada de leveza estival no tecido infimbrado da membrana subconsciente da avareza sensorial a partir da dissecação pluriteórica dos canais de recepção imagéticos da sociedade contemporânea'. Ela vai coçar a cabeça desconfiada, mas, no final das contas, acabará levando a sua roda de mobilete. Capice, paisano?

Seja excêntrico – Desde Jean Michel Basquiat, que adorava ser chamado de 'Samo' e perambulava pelos salões da alta-burguesia novaiorquina usando apenas pijamas e sandálias de dedo, fazer o gênero 'artista excêntrico maldito' sempre ajuda na hora de incrementar o marketing e a lenda pessoal. Antes de mais nada, arrume um nome exótico. Se o seu trabalho utiliza elementos da cultura popular - como cangaceiros de barro, carrancas, desenhos indígenas ou entalhes em madeira - escolha nomes como 'Barito', 'Garnizé', 'Colandro', 'Ramos' e 'Tirésios'. Se for arte contemporânea, videoarte ou instalação, pega bem uma coisa mais urbana, futurista ou incompreensível, como 'Êmuri', 'Globus' ou '(*)%'. Investir num guarda-roupa maluco também pode dar certo. Quando a festa for black-tie, vá de sarongue e chinela de dedo. Se for uma missa de sétimo dia, use um moleton de ginástica e um cocar de penas de ararajuba. Mas lembre-se: jamais abandone o personagem. Nem que seja para ir à reunião de condomínio discutir a compra da nova bomba d'água do prédio.

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"Feiticeira, feiticeira / Feiticeira é essa mulher / Que por ela gamei / Feiticeira, feiticeira / Eu não posso negar o feitiço / Que ela me fez...". O retratista crooner Messias Jardan não se conteve e, ao fazer o click dessa maravilhosa instalação, mandou ver o primeiro verso do clássico "Feiticeira", de Carlos Alexandre. A obra de arte recebeu o prêmio aquisição no Salão de Arte de Mossoró de 93.

24 de novembro de 2006

O trabalho é uma violência contra o homem *

Ao assistir o Globo Esporte dia desses, o que faço cada vez menos por falta de tempo, mais uma daquelas matérias curiosas e metidas a engraçadas começou a encher o saco. Falava sobre uma trupe de profissionais do ioiô. Isso mesmo, pessoas que ganham a vida brincando ou jogando ioiô. Achei tudo meio ridículo e bem chato. É o tipo de brinquedo que depois da infância perde o sentido. Trata-se de um disco preso num barbante que sobe e desce. Só. Mas aí veio a entrevista com o argentino Blás Ramirez e ele diz que já conheceu 60 países com o ioiô. Aí sim dei a mão à palmatória. Otário sou eu! Viajar com um trabalho baba desses deve ser muito bacana, ainda mais para mim que abomino trabalhar. Essa será uma das metas da minha vida a partir de então. Conhecer o mundo com algo bem simplório mas que, de tão inusitado, atraia gente querendo me ver.

Aí começa o problema. O que eu sei fazer além de escrever abobrinhas? Nada. E, o que faço uma pá de gente faz melhor. Só no Ressaca Moral tem uns quatro. Não sou bom em nenhum esporte, não sei dançar, mal sei nadar e quando ando tropeço à toa. O jeito é partir para a enganação. Vou ter que ser um farsante. Sem problema. Essa história do ioiô é um exemplo. Fazer uma volta completa com o disco não vale de porra nenhuma, mas a molecada adora e sempre faz cara de maravilhamento.

Fazer caricatura é tiro certo e até que levo jeito para o desenho, mas nessa função eu provavelmente ficaria mais duro do que hoje em dia. Performances estão fora de questão. Pião seria uma saída bem bacana. Assim como o ioiô ele tem prazo de validade para ser legal. Ninguém acima de 12 anos consegue continuar brincando. Mas tenho que apostar no sentimento saudosista desse povo. "Ih o cara é fera no pião, uhúúú! Mas o que é um pião?", perguntariam. É lógico que junto com as apresentações haverá palestras. Tudo para ganhar um troco e aumentar as milhagens.

O Pogobol também seria uma opção bem legal. Pra quem não se lembra era uma bola com um disco no meio. Nele colocávamos nossos pés e nos impulsionávamos para cima. Era um brinquedo até interessante. Nunca o tive nem nunca o usei. Dá pra fazer umas manobras radicais (mais uma vez, "uhúúú!"), usar umas roupas maneiras, bem coloridas e, principalmente, materiais de proteção. Capacete, joelheira, luva e tudo o mais sempre dão um ar bacana. Até um loser como eu ficaria massa ("uhúúú!") assim. Vou ter que aprender a pular de pogobol.

Carrinhos de rolimã são demais. Velocidade, capacetes, escoriações e adrenalina (Meu Pai Eterno!, esse sim merece um "uhúúú!") pra ninguém botar defeito. Seria uma equipe inteira para um show ao estilo de Evel Knievel. Empilharia alguns skates no chão, uns dez, e vinha com os caralho bem de longe, passaria por uma rampa e passaria por cima de todos, incólume, no máximo com alguns acidentes de vez em quando, mas tudo planejado. Mais uma vez terei que aprender a utilizar a outro meio de transporte.

O que me mata é a preguiça. Não fosse ela minhas outras metas na vida já teriam sido alcançadas e não teria que trabalhar.

* A frase do título não é minha. Ela me foi dita pelo meu primeiro chefe, josémariaLealpaes (ele assina assim mesmo), quando eu ainda era um estagiário de jornalismo cheio de ideais e querendo mudar o mundo. O texto também é antigo, do período que o provedor saiu do ar. Volto a ele não porque seja grande coisa, e sim por pura falta de inspiração.

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Se tivesse a mínima idéia de como brincar com bilboquê esse seria o brinquedo que investiria em minha carreira. O óleo sobre tela "Dois meninos e um bilboquê" é de autoria de Messias Jardan, o retratista multimídia.

22 de novembro de 2006

Pensamentos desempregados

A vida dos vizinhos – Se antes o meu tempo de observação da vizinhança era praticamente nulo, agora já sei que no apartamento na altura do meu, no outro lado da rua, habita uma família de são-paulinos composta pelos pais, uma senhora que provavelmente é mãe de um dos cônjuges e 3 filhos, dois meninos e uma menina. Os moleques passam a tarde jogando videogame e, pelos gritos, é de futebol, o que odeio. Não o futebol, esporte que só não amo mais que o Clube do Remo, o Leão Azul, rebento da Glória e do Triunfo. Mas cá entre nós, videogame de futebol é um pé no saco. Os primeiros eram até bacanas - era um botão do chute e outro do passe - mas agora complicaram tudo, são zilhões de comandos, alterações táticas, escolha do cabelo do jogador, contratações e o escambau a quatro. Quem gosta de videogame de futebol gosta de tudo, menos de videogame. Vou tentar arremessar da minha janela um jogo de verdade para tentar salvar a vida desses garotos, só espero que o arremesso do CD não provoque nenhuma escoriação nos meninos. Se bem que, depois daquela gritaria toda no último jogo do São Paulo na TV, esses delinqüentes merecem.

Os comerciantes – Como não faço a mínima idéia do que seja cozinhar, sou obrigado a comer nos restaurantes e padarias próximas da minha casa, ou seja, além de não ter uma única opção de comida decente, ainda sou obrigado a estabelecer laços de amizade compulsórios com pessoas que eu não faria a mínima questão de conhecer: o caixa da padaria, o garçom do Habib’s e a dona do restaurante de comida caseira (repare que “comida caseira” é sempre um eufemismo para comida ruim). Também dou bom dia/boa tarde para os comerciantes chineses do térreo do prédio, para o simpático dono do tenebroso boteco onde compro cigarros e para o balconista da videolocadora. No fundo são pessoas de bem, eu sei, mas bom dia por bom dia, eu prefiro o das estagiárias de agências de publicidade.

Negócios – Sem pressa para chegar na agência, até porque não tenho nenhuma agência para chegar, reparo na variedade dos produtos oferecidos por camelôs e analiso a possibilidade de fazer parte da categoria. Pretendo montar uma barraquinha de venda de soluções rápidas em comunicação. Preciso apenas de um diretor de arte para compor a equipe, já que sou redator. Deixaremos dezenas de anúncios pré-cozidos em exposição, o cliente compra e nós aplicamos a logomarca. Ah, você não tem logomarca? Sem problemas, escolha pelo número: o pacote marca + cartão de visita + anúncio sai muito mais barato do que o similar vendido nas multinacionais dos prédios espelhados. Ainda tenho dúvidas sobre como vender sites, talvez eu pendure os exemplos de homepage em um varal.

Mulheres – Com a grana da farra contada, as possibilidades de conhecer novas conquistas na noite diminuem consideravelmente, fora que na pindaíba e sem ter uma atividade economicamente rentável para relatar, fica difícil impressionar qualquer mulher, logo, sua vida sexual resume-se a você e sua mão direita (ou esquerda no caso de canhotos e homens de maior destreza). Porém, o desânimo não pode tomar conta da vida do desempregado neste momento difícil. O breve (ou não) intervalo sexualmente inútil pode e deve ser aproveitado como um período de entendimento e busca, sim, buscas no Google e demais mecanismos facilitadores de pornografia que a internet oferece, pois a sacanagem virtual é muito, mas muito mais do que um simples e-mail com “Fotos da Scheila Carvalho na Playboy”. Após adquirir técnica, experiência e links, não seja ganancioso e repasse suas descobertas para os amigos, inclusive eu.

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A animação de festas infantis é um ramo promissor para desempregados em geral. Messias Jardan, fotógrafo dos melhores momentos da vida, tem emprego estável em nossos corações e ainda é autor deste desocupado clique.

20 de novembro de 2006

It's only rock'n'roll

Dalva de Oliveira nos céus do Brasil. Serguei quer viver para sempre. Deus salve a América. Viva o 69 e o glamour.

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Em Belém, Serguei mostra que ainda está vivo ao lado do staff do Ressaca Moral e da Dançum Se Rasgum Produciones. Ao final, tascou um beijo em nosso colaborador Rafael Guedes. Wilson Cremonese, que estava passando pelo lugar, mandou o rapaz ajoelhar no milho para deixar de ser assanhado. Como não poderia deixar de ser, o click morto de chique é do sempre alerta Messias Jardan.

A figura emerge do lobby do hotel saída direto de uma outra dimensão onde os anos 60 nunca terminaram. Calça de tricô estampada com a bandeira dos Estados Unidos, camiseta preta por baixo de uma camisa multicolorida, feita com um tecido que lembra as cortinas da casa da minha avó. Nos pés, All Star branco surrado. Nos braços, pulseiras de bronze. O cabelo, arrepiado, lembra um pouco o do guitarrista Ron Wood, dos Rolling Stones. Ou mesmo de Rod Stweart, o eterno fanfarrão do pop. Uma caricatura rock'n'roll que até combina com a decoração do lugar, uma mistura eclética de arte amazônica com estátuas clássicas e espelhos emoldurados em entalhes rococó. Eu, que fui até lá entrevistá-lo por conta de um show em Belém, fico parado olhando o sujeito sem saber o que fazer.

Serguei está animado e chega logo falando do Museu do Rock, um empreendimento dedicado aos anos 60 que mantém na sua casa em Saquarema, litoral do Rio de Janeiro. Confinado em seu santuário - que ele abre para visitação pública, das quatro da tarde às nove da noite, já que acordar antes do meio-dia, em suas próprias palavras, lhe faz "passar mal" - ele esquece que, lá fora, Janis Joplin morreu, os Beatles acabaram e quase 40 anos se passaram desde que Jimmi Hendrix encerrou o festival de Woodstock com a hoje lendária versão para "The Star Spangled Banner", o hino nacional norte-americano. Mas quem disse que ele liga? Seu barato é justamente esse, viver a sua lenda pessoal, a profissão de fé na contracultura e no rock'n'roll, entre imagens de Jim Morrison, almofadas com motivos indianos e antigos discos em vinil. A única coisa remotamente nova é um pôster com a capa de um álbum da banda norte-americana Sublime, cujos membros encerraram as atividades em 1997. O sustento vem dos shows que realiza por todo o Brasil e de uma pensão como aposentado autônomo que recebe mensalmente do INSS.

De repente, ele pára de falar e olha o rio que cerca a área de recreação do hotel, um trapiche de madeira com algumas cadeiras, um restaurante e um bar. Pensa um pouco e engata uma conversa sobre o tempo em que trabalhou como comissário de bordo da Panair do Brasil. Com orgulho, lembra das refeições servidas pela empresa durante os vôos, dos pratos de louça chinesa e dos talheres de prata. Depois de servir os passageiros, ia para os fundos do avião e imitava Dalva de Oliveira e Elvis Presley para os colegas de trabalho. Em seguida foi demitido da empresa e passou a trabalhar na Varig, de onde foi mandado embora após pular em cima da mesa da atriz Gina Lolobrigida numa boate em Barcelona usando uma peruca loira. Aproveitando o embalo, lhe deu um banho de sangria e a tirou para dançar. Na saída, ainda encontrou disposição para sair no pau com o dono do lugar. Ao chegar na sede da empresa, um relatório com as suas estripulias já estava na mesa do chefe. Corriam os anos 50 e Serguei viajou o mundo todo por conta da profissão. Inclusive Belém, que visitou várias vezes. Só não foi para a selva. "Isso era com o pessoal do Catalina, que pousava bem ali", diz ele apontando para o local onde hoje está localizado o complexo turístico Ver o Rio. A conversa muda de rumo mais uma vez. Serguei fecha os olhos e ergue os braços num discurso sobre a necessidade de preservar a Amazônia e as vantagens da reciclagem de lixo e da doação de orgãos.

"Mas na época da Panair", grita ele de repente voltando aos seus dias de comissário de bordo, "Tinha glamour, tinha estilo. Hoje em dia tem o que? Aquelas caixinhas de plástico que dão pra gente comer no avião! Cadê o estilo? Cadê o glamour? Porra! Isso tudo morreu nos anos 60".

Os temas se atropelam, os assuntos vão e voltam e Serguei jamais lembra de datas e nomes com exatidão. Durante alguns momentos, se perde em digressões. Como quando pergunto sobre a sua ida aos Estados Unidos. Era o começo dos anos 60 e, cansado do rigor das companhias aéreas, foi para Long Island, onde morou com a avó materna. Naquela época, ainda se chamava Sérgio Augusto Bustamente. Sem o Anderson, sobrenome da parte norte-americana da sua família que ficou fora da certidão de nascimento. Na Terra de Marlboro, viveu de perto o desbunde flower-power, deixou o cabelo crescer, experimentou tudo o que pôde e viajou o país de costa a costa. Em 1973 volta ao Brasil e vai morar em Saquarema com os pais.

"Eu amo a América", diz beijando a sua calça estampada com a bandeira norte-americana, "América, home of the brave and land of the free. Lá tem respeito, tem seriedade, tem liberdade. Aquele povo lindo tocando flauta pelas ruas. Uma beleza. Depois veio o Maio de 69 (N. A: o evento a que ele se refere é o Maio de 68). Não um 69 daqueles que a gente faz com a língua, mas o 69 dos estudantes franceses gritando nas ruas de Paris que era proibido proibir! E depois Woodstock. Mas aqui, quando voltei, não queria nem saber se tinha Ditadura. Vivia a minha onda. Andava de cabelo grande, flor no cabelo, uma máscara em forma de sol na cara, muito antes dos Secos e Molhados. Minha mãe dizia 'cadê o vinco da tua calça, menino?'. Porra, pra que que eu ia querer calça com vinco? Queria era rasgar as calças, andar com o joelho para fora. Mas aí morreu a Janis, o Hendrix e o Jim Morrison. Depois o movimento hippie acabou e eu me dei conta de que o sonho tinha chegado ao fim".

Se a contracultura escorreu pelo ralo com a chegada dos anos 70, o mesmo não pode ser dito de Serguei. Enquanto no mundo todo ex-hippies cortavam o cabelo, tomavam banho e iam procurar o que fazer, ele continou a acreditar na salvação através do rock'n'roll, ainda que só conseguisse encontrá-la nas areias da praia de Saquarema. Em suas próprias palavras, nada o impediu de viver intensamente o epiteto "sexo, drogas e rock'n'roll". Do famoso namoro com a cantora Janis Joplin - "Serguei is the craziest person I've ever saw", é o que ela teria dito após conhecê-lo - à transa com uma árvore em Saquarema, ele então abre o baú e começa a contar suas histórias.

"Essa história da árvore é verdade, bicho. Pô, tava com o maior tesão na praia e não tinha com quem dar uma trepadinha. Aí vi aquela árvore toda bonita, umas folhas verdes grandes, o tronco... Me passou uma energia muito boa e acabei dando um abraço nela. Tava tão gostoso que acabei gozando. Sexo pra mim não tem limites. Não caso porque corro o risco de me apaixonar pela família da noiva e pode dar problema. Gosto de experimentar de tudo. Já trepei dentro de um barco em pleno Rio Negro. Como a gente tava muito animado, ele acabou virando e caímos na água. Fiquei apavorado porque me disseram que lá era cheio de piranha. Já pensou se levo uma mordida?".

Engana-se no entanto quem acha que a idade amaciou o homem. Se tem uma coisa que lhe aborrece é quando lhe dizem que está velho demais para o rock'n'roll. Ele se levanta e começa a protestar. "Bicho... Pra que ficar rotulando os outros? Tu faz 30 e te chamam de 'balzaqueano'. Depois vira 'coroa' e já querem logo te enterrar. Porra, coroa...'Ah, coroa, o pai da Martinha, chato pra caralho'. Eu lá quero ser coroa? Outro dia eu tava com o Roger, do Ultraje a Rigor, e uma menina chegou perto dele e disse 'ei, tio, me dá um autógrafo'. Ele ficou sem saber o que dizer e eu comecei a rir. Tu acha que eu ligo pra isso? Eu não. Eu tô inteiro e ainda faço as minhas estripulias. Não tenho sexo e não tenho idade, eu ando solto pela cidade. Mas com muito rock na cabeça".

Aproveito a deixa e pergunto se ele gosta da música feita no Brasil hoje em dia. Se, por exemplo, já foi a um baile funk. Serguei se aborrece, dá um pulo da cadeira e começa a dançar imitando a cantora Tati Quebra-Barraco, rebolando até o chão com as mãos nos joelhos. "Baile funk? Eu odeio funk, bicho. Me dá vontade de vomitar só de pensar numa coisa dessas. Não tem melodia, não tem mensagem. É um lixo completo. Não é os Beatles, saca?".

O papo termina. No caminho para o lobby do hotel, diz "bom dia" para todo mundo, cumprimenta os funcionários e fala com os integrantes de um congresso de representantes de medicamentos que acontece no auditório. Quem não fica chocado se diverte com aquela figura destoando dos engravatados que aproveitaram a pausa nas palestras para tomar um cafezinho. Em frente a um espelho gigante, emoldurado em um quadro de madeira com
entalhes rococó, ele pára e começa a fazer pose.

"Pô, bicho, esse espelho é o maior barato. Queria levar para casa"
"Até que tu pode. Acho que não pega nada. Se não me engano, na tua idade a pessoa já é iniputável. Não vai mais para a cadeia", respondo.
"Ah é? Pô... Massa"

Nos despedimos. E então ele me chama mais uma vez antes que eu vá embora.

"Cara... Tenho uma parada pra te falar..."
"Diga lá"
"Putz... Me esqueci..."

Fico parado esperando.

"Pô, lembrei... Hoje é dia dez de novembro, meu aniversário. Faço 73 anos, bicho!"

A mim, só restou lhe dar os parabéns. Visto assim de perto, nem parece.

17 de novembro de 2006

Universidade Vladimir Cunha parte 1 - Como fazer teatro

A história é que menos importa – E daí que a sua peça termina com um bolinho de gente de braços para cima se jogando no chão enquanto um sujeito de túnica lê uns poemas do Paulo Leminski em voz alta? No teatro uma história coerente não é o principal. O que vale mesmo é ter uma explicação boa. Por exemplo: você pôs umas mulheres de colant cor da pele se remexendo e correndo para lá e para cá enquanto alguém declama a letra de 'Fogo e Paixão', do Wando, enquanto leva umas chicotadas de um travesti vestido de paquita da Xuxa. Ao dar a entrevista para aquele caderno de cultura descolado, faça uma cara séria e diga que a obra (veja bem: 'a obra') é 'uma análise pan-semiótica sobre a interrelação do gênero na mercantilização da cultura e na colonização inconsciente do homem pós-moderno a partir dos arquétipos do macho ocidental na obra de Jean Baudrillard, Umberto Eco e Mestre Biroba de Maracanã, que canta acompanhado de uma capivara e um garotinho buchudo que toca uma enxada velha usando um rabo de arraia seco'. Claro que são só umas gostosas de colant com uma música brega. Mas quem liga?

Contrate atrizes gostosas – Teatro é igual a filme brasileiro dos anos 70: se não tiver mulher pelada, não tem graça. Eu mesmo, sempre que entro em um teatro, vou logo na expectativa de um peito ou de uma bunda de fora. Então, mesmo que você esteja encenando a vida da Irmã Letícia de Goiô-Erê, dê sempre um jeito de pôr mulher nua. Só nessa você já garantiu um bafafá na mídia, porque provavelmente a Igreja vai querer proibir e, lógico, por conta disso todo mundo vai querer ver a sua peça, que na estréia deu sete pessoas, incluindo a sua mãe e duas amigas dela da hidroginástica. Além do mais, se tiver nudez ninguém vai reparar que a sua história é ruim e sem sentido e você ainda vai tirar onda de moderno, como se umas gostosas sacudindo a peitaria fosse o cúmulo da vanguarda.

Grite, grite muito – Não sei por que, mas a maioria dos atores de teatro gosta de gritar. Quanto mais cafona a fala, mais eles abrem os braços e a garganta e se derramam todos na frente do espectador. É quando você está cochilando, aproveitando a cadeira confortável e o friozinho do ar-condicionado, e o sujeito lhe acorda, dando um susto ao gritar coisas como 'Ó SEIVA DE MINH'ALMA QUE REPELE E REVELA O REDUNDANTE SEMBLANTE DE SER SÓ, SOMENTE SOFRENDO A SEQÜELA DA SARJETA. DEIXO A TI MINHA DESDITA DAMA DA FECUNDA FERRAMENTA DO LABOR LEGADO'. Aí você fica meio sem-jeito e espera a luz se apagar para limpar aquela baba que escorreu pelo canto da boca enquanto você sonhava com a Cicarelli na praia.

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Tudo pela arte. Na performance "Teatro Del Mar", três dos melhores atores de Mossoró foram empalados ao ar livre para o delírio da platéia. Kayanã Webbo, artista de longa data (no centro), deu tudo de si. Ainda hoje colhe os frutos e as seqüelas por causa da apresentação. O click é do retratista da ribalta Messias Jardan.

15 de novembro de 2006

Waldez - PCC Fashion Week

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Raimundo Waldez é um doido varrido. Também é um dos caras mais engraçados que existe, e olha que ele mal abre a boca. A gente fica do lado dele sempre esperando uma piada ou uma tirada genial. Ele chega de mansinho na redação de jornal e os risinhos já começam. Ao dar bom dia meia dúzia cai na gargalhda. "Ele é impagável", diz uma estagiária. Antes de sentar em sua mesa deixa cair o guarda-chuva e quem está ao seu lado não se contém: "Tu és impossível, rapaz!". O suspense já é insuportável pela próxima piada quando Waldez pega um lápis, faz cara de descontentamento e diz "Droga, quebrou a ponta". Aí não tem jeito, todo mundo rola de rir. Esse cara é um pândego. A caricatura ao lado é de J. Bosco e não de Messias Jardan, por mais que este tenha espalhado por aí que é desenhista.

14 de novembro de 2006

"Minha mulher me chama de gostoso" - Impressões sobre o rei do brega

Uma loira de salto agulha desliza no salão. Ela dança com um, dois, quatro, oito caras e nós perdemos a conta de quanta gente enlaçou sua cintura. E tão logo os Mestres da Guitarrada se despedem do pequeno público, ela e tantas outras mulheres - coroas, lobas e doces ninfetas - se apinham em frente ao palco. A entrada de Reginaldo Rossi na casa de shows Metrópole CIty Hall, em Belém, causa uma breve histeria, uma divertida encenação da mais absurda tietagem para o rei do brega.

“Uma vez o Roberto me disse que só dois artistas não precisavam botar periquita no palco para fazer show. Um deles sou eu. O outro se chama Reginaldo Rossi.” Modéstia é bobagem para o cara que a cada hit - não faltaram “A raposa e as uvas”, “Leviana” e “A Marionete” (Les Marionettes) - contava sobre os seus melhores dons com o sexo oposto e dava dicas aos cornos de toda estirpe. Com a didática do melhor conquistador de boteco, ensinou as mulheres a serem damas na sociedade e devassas na cama. Revelou ao mundo que todos os homens são safados – nem ele é a exceção -, mas que podem dar a vida por um grande amor. De casaco aberto e barriga à mostra, deu uma canja de “Satisfaction” para a galera do rock’n’roll, de “Só você” para os apaixonados e distribuiu muita dor de corno para todos os lados.

Surpreende que a Metrópole tenha tido um público tão pequeno para um show tão inspirador. De figura escrachada do brega ultrapopular dos anos 70, Reginaldo Rossi tornou-se personagem maior de uma música que se mantém viva nos bailes da saudade. Joga todo o tempo com a humildade e dedica músicas aos faxineiros que limparam a casa antes do show. Bom para quem foi. Os milhares de fãs que não se aventuraram a deixar suas poltronas num domingo à noite para ir ao show devem estar amargando seu arrependimento. Na mesa do bar.


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"Os homens de Belém tem um pau desse tamanho." NInguém perguntou a Reginaldo Rossi como ele sabe disso. Messias Jardan fez o envergonhado clique.

10 de novembro de 2006

Grandes vultos da história de Mossoró

Jack Lebauff
Tudo ocorreu durante uma sessão da brincadeira do copo, onde após perguntar “tem alguém aí” e receber “sim” como resposta, Jack, sempre muito educado e criativo, resolveu servir um petisco diferente para o espírito e se tornou o primeiro homem do mundo a colocar azeitona em uma empada. Hoje, mais de 80 anos após a revolucionária invenção, os descendentes de Jack vivem de royalties pela idéia.

Joseph Black McWhite
Descobridor do aquário e inventor da cera para automóveis, ficou mais conhecido como o pai da Suélen, filha de seu fugaz relacionamento com Tamires Cristina, doméstica e conformada. Joseph, após saber da gravidez de Tamires, tentou fugir para Itabicirica, mas foi interceptado por Reidener Júlio e Geférson Júnior, irmãos da ex-moça, então emprenhada por McWhite.

Youssef Tüber
Primeiro homem a postar um vídeo na internet, Tüber infelizmente não viveu o suficiente para ver seu feito reconhecido, pois quando realizou a façanha, em 1912, as câmeras digitais ainda não existiam e muito menos a internet. Historiadores divergem acerca do conteúdo do vídeo de Tüber, uns dizem que seria a filmagem de uma velha senhora depilando a virilha, outros defendem a tese do cachorro fazendo cocô.

Vera Sandra Mocassim
Mulher à frente de seu tempo, Vera foi responsável pela introdução do velcro como fecho para calças compridas, mas obteve o verdadeiro reconhecimento popular quando se tornou a primeira de seu gênero a entender a regra do impedimento sozinha.

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Geena Goodprofit inspirou a construção do viaduto William O’River e compôs um jingle publicitário recusado para uma rede de fast food. O clique anestésico é de Messias Jardan.

A nova internet brasileira

Como será a internet do senador Eduardo Azeredo.

Agradecimento ao Rubens.

5 de novembro de 2006

As estrelas que não brilharam

Por Cruzmaltino Bandeco

Recebi estes dias por e-mail o vídeo abaixo. Pretensamente entitulado "Estrelas antes de se tornar estrelas", exibe cerca de dez minutos de imagens ultrapassadas dos primeiros trabalhos de atores e músicos que hoje se consideram importantes. Trata-se, na verdade, de um catálogo de filmes de má qualidade e comerciais de produtos fracassados protagonizados por gente de terceiro escalão, como John Travolta, Catherine Zeta-Jones, Brad Pitt entre outros anônimos. Gente que nunca mereceu mais que notas de rodapé nos cadernos culturais. Se o vídeo pretendia trazer à tona curiosidades a respeito dos passados desse povo, tudo o que conseguiu foi nos brindar com a certeza de que eles jamais deveriam ter chegado ao presente com o rótulo de "artistas". John Travolta, por exemplo, exibe desde cedo o rebolado que levou Hollywood a chamá-lo de astro. Lá na minha terra chamam isso de outra coisa. Nota: zero.

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