Tempo bom não volta mais
Garotos, garotos.
Metade da minha vida passei em puteiros, bares e entre amigos que viviam na esbórnia e luxúria. Aos 12 anos comecei a beber, um ano depois de ter experimentado o primeiro de muitos cigarros. Mal freqüentava a escola. Preferia sumir para o meio do mato com as coleguinhas da mesma idade, imberbes, mas com os mesmos pensamentos pecaminosos. Não demorei a experimentar outras coisas. Era a época das bolinhas, artanhe principalmente. Anos de loucura.
Alucinógenos eram queridos a mim. Quando tomava um chá que meu primo Margarido fazia eu via - juro de pé junto - discos voadores, animais extintos há anos, a aura das pessoas, duendes e conversava com uma estátua de papel marché de 12 metros. Uma doideira só. Não tinha freios. Lembro certa vez quando, depois de uma farra, acordei em Mossoró apenas com a roupa do corpo, dois mil cruzeiros, um frasco de Polvilho Antisséptico no bolso e um bilhete escrito "Ti (sic) amo seu danado. Ass: Waldem...". O restante do papel estava rasgado e gosto de pensar que era Waldemira.
Envolvi-me com as melhores e as piores mulheres que já existiram, com predominância para o segundo grupo. Certa vez vivi dois anos com Gerusa "Pantanal", striper dublê da Cláudia Ohana nos anos 80. Dividíamos um quarto e sala imundo num prédio igualmente fétido. Era nosso templo de amor, só que o álcool, as drogas e as empadinhas de vento que comíamos todos os dias praticamente impediu que a gente transasse mais de três vezes enquanto vivemos juntos. Lembro certa vez que tentei defender sua honra e briguei com Manoel Catraca. Perdi os dentes da frente e a sensibilidade da perna esquerda por causa da peleja. Tudo em vão. Honradez era coisa que Gerusa não tinha. Ela se casou com Catraca e ainda devem estar juntos, isso se um não matou o outro.
O álcool foi minha grande paixão e meu pior tormento. Durante mais de uma década meu café-de-manhã foram duas doses de conhaque Presidente e a já citada maldita empada de vento frio. Mal acordava e pegava meu copo. Meu fígado reclamava a todo instante e eu não dava bola. Às 9 horas, depois de mais um cochilo, chegava ao bar do amigo Feijão para mais uma rodada de conhaque vagabundo, dessa vez entremeadas de uma cerveja aguada que ele mesmo preparava na banheira da casa dele. Hoje em dia me arrependo de ter encarado aquelas cervejas. Só depois de ficar sóbrio é que lembrei que Feijão não dispensava um banho matutino na dita banheira.
Quando a tarde chegava ao fim eu já estava bebaço. Era a hora de ir às putas. Perto de casa tinha uma zona do meretrício das antigas, onde as cansadas de guerra davam ponto mais por costume do que por clientela, que era escassa e da pior qualidade. Não saía daqueles lupanares. Um em especial era meu favorito. O Xibiu's, de propriedade da Nazica, era um prostíbulo da melhor qualidade, onde as mocinhas se apaixonavam e tinham casos tórridos com os clientes. Era tão tradicional que as putanas paravam de trabalhar quando o amigo e DJ Tangerino colocava Bienvenido Granda na vitrola.
No começo dos anos 90 a Nazica, quase uma santa, morreu de tédio e o Xibiu's fechou as portas. No local hoje funciona um templo da Igreja Evangélica Setentrional do Santo Cavalinho (Igrevsentolinho). Soube pelo Tangerino, atualmente pastor por lá, que a putaria é quase a mesma.
Foi então que descobri o nicho do Hidrovácuo e mudei de vida.
Metade da minha vida passei em puteiros, bares e entre amigos que viviam na esbórnia e luxúria. A outra metade fiz coisas muito ruins.

Texto em homenagem a Ramón Gómez Valdés Castillo, o Don Ramón, Seu Madruga para nosotros brasileños. O ator mexicano morreu aos 62 em agosto de 1988, vítima de câncer no pulmão causado pelo cigarro. "Gostava muito dele, principalmente do Racha Cuca e do Super Sam", disse Messias Jardan antes de fazer o click direto da tela do SBT.
Comentários
Perdir meu pai no dia 01/07/2007, com câncer de pulmão provocado pelo cigarro. Choro todos os dias lembrando do jeito, olhar, enfim, não sei perder quem amo. Estou com 36 anos e fumo também e estou sentindo muitas dores no pulmão. Sou evangélica e choro, imploro para "DEUS" me tirar esse vício, não tenho forças para parar. Não quero morrer como meu pai, quero ver meus netos. Às vezes, me pergunto o que estou fazendo com a minha própria vida, me pergunto se realmente me amo, se amo a minha filha também. Já passei por várias coisas nessa vida, eu achava que a pior coisa era a fome que muitas das vezes tive que dormir para passar, a falta de dinheiro. Mas não, a pior coisa é perder alguém que a gente ama, a saudade acaba com o ser humano aos pouquinhos. Nem consigo descrever o que realmente estou sentindo no meu coração, sinto muitas saudades do meu papito. Essa doença é maldita, ela fica escondidinha quando aparece, já está em fase terminal. Às vezes, não dá nem tempo de operar. O meu pai teve que ficar sedado até a morte para não sentir dor, faço enfermagem e uma das coisas que mais me assusta nessa area é o câncer. Tinha que se feito mais palestras sobre essa doença, para as pessoas se alertarem o quanto o cigarro é a sentença de morte. Teria que ter uma lei para não mais a fabricação, cigarro insignificante.
escrito por: Cláudia Márcia Balducce Carneiro em 7/09/2007 às 21:13
Totoso!
escrito por: Bruxa do 71, 69, 43, 24 ou 35 em 3/11/2006 às 12:34