O Dilema de Ademar
Eram 6h30. A mesa já estava posta, como de costume. Eunice falhara, havia deixado o café ralo e eu que não sou chegado a café ainda tive que virá-lo goela abaixo. Arrumei a maleta, vesti a camisa creme ainda por passar e, na hora de sair, procurei Eunice pela casa doido para não encontrá-la. Naquela noite, eu havia tentado o gesto universal de apalpar seus seios por baixo, mas ela negou fogo, e sem muito esforço, porque eu mesmo já fazia aquilo sem entender bem o porquê. Encontrei-a visitando suas plantas a dois metros da porta. Sempre fazia isso para me forçar a uma despedida.
- Estou de saída, bye bye.
- Você passou na Piso Maravilha?
- Não, vou lá na sexta.
- Hoje é sexta, Ademar. Os meninos tão caindo nos remendos aqui. Vai logo nessa loja.
- Vou na outra.
- Na outra loja?
- Na outra sexta.
- Você tinha prometido nesta.
- E você é o quê, um calendário?
Esse tipo de grosseria era fatal porque, sem base alguma, não dava margem para argumentações. Tive certa dificuldade para sair de casa mas, com um leve movimento de perna, convenci Eunice a soltar meu calcanhar. 6h50, ainda dava tempo, provavelmente chegaria antes de todo mundo. Faltavam duas estrelas para chegar ao top five do semestre, eu não perderia aquela chance de mostrar ao mundo a que vim.
Silêncio no escritório, inaugurei as luzes daquela sexta-feira pobre de alma. Para minha surpresa - e a última vez que eu me surpreendi foi com a cirurgia plástica do Higuita -, o doutor Paulo já estava lá. Foi um misto de susto com uma estranha viadagem. Confesso que me senti mal com aquilo, porque dei um grito fino e baixo.
- Bom dia, doutor Paulo. O senhor.. eu...
- Bom dia, Ademar. Não se assuste, cheguei mais cedo para ver uns relatórios.
- Mas estava escuro, doutor Paulo, a sua vista...
- Nada demais, fui criado no interior, sei ler até dentro de um caixote.
Meu herói! Paulo Madrulha Diretor do Arquivo Geral, era o seu nome. Sim, o cargo como um nome próprio, porque havia feito da carreira sua identidade. Saiu do sertão ainda garoto, descascou mandioca, foi porteiro, dono de sex shop e almoxarife. Também andou comendo umas coroas para se fazer na vida.
- Ademar, quero conversar com você, mas sem formalidades.
- Pois não, doutor. Sinta-se em casa - arrisquei, numa prova cabal de como eu sou um cara sem graça.
- Estive pensando, sabe?
- Hum.
- Sério. Você tem sido um bom funcionário. Todos te elogiam, até a Vilmara.
Aquela vaca, sempre perseguindo os inocentes. Dizem que demitiu um arquivista porque fungava muito, o pobre do Cleberson.
- E eu também vejo por esse lado, mas penso além. Você é um exemplo de homem, de pai, de ser humano.
Eu não entendi mais nada, do que ele estava falando? Eu roía as unhas, batia nos moleques à toa e ainda mandava eles comprarem cigarro.
- Ademar, isso me fez pensar em algumas coisas, e gostaria de lhe propor o seguinte.
Meu herói! Também te considero tudo isso!
- Estive pensando e, bem, eu queria comer o seu cu.

Eleito três vezes para o top five do arquivo geral do INSS, Ademar Vigário sempre foi adepto da pescaria anti-esportiva, principalmente nos momentos mais conturbados da vida. E assim fez ao receber a proposta do doutor Madrulha. O que aconteceu depois disso é segredo - afinal, o que acontece no arquivo geral do INSS fica no arquivo geral do INSS, gente. Messias Jardan foi ao pesque-pague e fez o clique.
Comentários
Meu Deus!
escrito por: Pris em 27/10/2006 às 17:10
é uma criatividade hipertensa que fumega alem dos limites da imunodeficência humana
escrito por: renan almeida em 26/10/2006 às 11:30
Essa vida é complicada...
escrito por: Patty em 25/10/2006 às 15:08
Que dureza...
escrito por: Moziel T.Monk em 24/10/2006 às 14:43