Eu quero ver um festival: Se Rasgum no Rock

Tem quase três semanas que o Se Rasgum no Rock terminou e todos os dias acordo pensando que foi ontem, ou anteontem. Não existe mais cansaço, mas a sensação de fadiga em relação ao evento ainda está lá. Eu fui um do afortunados que foi convidado a ajudar no festival. Um entre tantos que tentou dar sua parcela de contribuição ao sonho de alguns amigos, sonho que se estendeu a todos nós. Queríamos ter assistido a todos os shows, o que definitivamente não fizemos. Porém, mesmo de longe, nem que fosse percebendo apenas a alegria da platéia, nós nos satisfazíamos. Eu, pelo menos, sim. Todos os que ajudaram já foram convocados para o ano que vem. Estarei lá.

Realizado entre os dias primeiro e três de setembro, o Se Rasgum no Rock pode ser classificado como o primeiro festival paraense envolvendo bandas de rock independente de todo o país. Belém já teve seus festivais com bandas locais e estes não podem ser esquecidos. Quem tem quase 30 anos lembra com saudosismo dos dois primeiros Rock 24 Horas. Mas, a capital paraense precisava de um evento que se igualasse à avalanche de festivais que são realizados nas metrópoles brasileiras. Goiânia, Recife, Palmas, Cuiabá, Brasília, Curitiba, entre outras, têm o seu. Belém, tão comentada por ser uma das Mecas atuais do rock nacional, não tinha. Curiosamente, no mesmo dia uma cidade com mais tradição nesse ramo que a nossa também teve seu primeiro festival: Porto Alegre.

Quem, como eu, olhava com um certo distanciamento a todas as ações se maravilhava com os comentários que vinham a cada show. Muitas das bandas de fora eram praticamente desconhecidas para grande parte do público que esteve no Parque dos Igarapés. As presenças das headlines Cachorro Grande (sábado, 2) e Mundo Livre SA (domingo, 3) atraíram um público que geralmente não freqüenta as festas de rock organizadas na cidade. Ali havia pelo menos 3 mil pessoas contra as 500 que dão nos melhores dias dos eventos habituais. Muita gente nunca vira antes apresentações das bandas locais e nem ouvira falar de Bazar Pamplona (SP), Mezatrio (AM), Vanguart (MT), The Feitos (RJ), Los Porongas (AC) e Superoutro (PE).

Todos, mas todos, sem distinção, fizeram apresentações ótimas. O Superoutro teve um problema com uma das guitarras e assim ficou até o final do show, o que não desanimou quem estava sobre o palco ou quem assistia. Junto a eles as bandas locais mostraram a mesma competência, tanto que arrancaram elogios dos jornalistas que vieram para o festival. A maioria deles já conhecia Madame Saatan e La Pupuña de outros festivais. Foram embora com os shows de Johnny Rock Star, Suzana Flag, A Euterpia, Delinqüentes, Norman Bates, Cravo Carbono, Telesonic, Norman Bates, Turbo, Coletivo Rádio Cipó, entre outros, incrustados nas retinas.

As headlines tiveram atuações díspares. Na sexta-feira, ainda no Açaí Biruta, Wander Wildner fez o que se esperava dele. Quando todos achavam que o herói gaúcho não conseguiria subir ao palco devido à ingestão exagerada de cerveja, ele mostrou porque é a principal referência do rock brasileiro fora do mainstream. Clássicos atrás de clássicos para um público ensandecido e acima de tudo compreensivo. A quase totalidade das quase duas mil pessoas que lá estiveram agüentaram com paciência inacreditável por mais de uma hora sem energia. Às escuras, não arredaram os pés, lá esperaram com um entusiasmo sensacional e não se arrependeram do show.

No sábado foi a vez do Cachorro Grande. A banda dos pampas não se encaixa mais na definição de banda alternativa (isso é uma discussão que não cabe nesse espaço) e já não freqüenta os festivais. Mas, os esforços para trazê-los foi grande e se mostrou acertada. Foi o dia que registrou a maior presença de público, já que era a primeira vez deles em Belém. O show... bem, o show foi um caso à parte. Não foi o esperado. Quase um terço dele foi de enrolação com solos intermináveis. Mas, era uma apresentação ganha desde o começo. Muita gente queria ver os hits do Cachorro Grande. Viram a maior parte deles.

Domingo era o grand finale. Desde as primeiras apresentações se sabia que esse era o último dia e o cansaço era nítido em todos os rostos. O desgaste fazia cada caminhada em busca de resolver um problema qualquer parecer um martírio. Mas, tudo tinha que dar certo. E deu. Os shows que precederam ao Mundo Livre SA foram do punk destruidor do Delinqüentes ao folk emocionante do Vanguart, do pop com toques de MPB do A Euterpia à guitarrada com surf-music do La Pupunã. Todos estavam lá e ficaram até o final, quando foram brindados com alguns dos momentos mais bonitos que um show de música pode proporcionar.

Quando Fred Zero Quatro, Xef Tony, Bactéria Maresia, Fábio Goro e Marcelo Pianinho subiram ao palco eles fizeram de tudo para compensar os mais de dez anos de atraso por nunca terem se apresentado em Belém. Do começo ao fim, das músicas conhecidas às mais novas, não houve ninguém que não se sentisse que aquele era um momento especial.

Aí, um aparte. De cima do palco tive a visão mais bonita das três noites. De lá finalmente via todos os que estavam envolvidos na organização assistindo um show. Todo o trabalho, estresse, aporrinhação e cansaço foram postos de lado para que a diversão desse as caras.

Para finalizar, Zero Quatro chamou as bandas locais para o palco e com elas subiram os organizadores. Lá, houve a celebração final de um bando de loucos que embarcaram num sonho maluco que se tornou realidade e que deu certo do começo ao fim. Não raro lágrimas eram enxugadas. Aliás, elas foram muitas.

Ano que vem tem mais. Já disse e repito: estarei lá.

wander.jpg

Messias Jardan acha que rock é coisa do diabo e não deu as caras no festival. Coube a Renato "Retrato" Reis registrar o evento. Quem quiser conferir é só clicar aqui. A caricatura do Wander Wildner acima foi feita pelo incansável Waldez.

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Comentários

putz, pena eu não morar em Belém para, entre muitas outras coisas, ir num festival tão bem comentado. mas ainda acredito.

abraços.

Um dejá-vu mais que sofrido e nostalgico de um dos melhores 3 dias da minha vida!

que tem de ter dose dupla, trpla, quádrupla e por aí vai porque eu não sei mais essa nomenclatura

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