A última viagem do Negão Motora
Belém (Pará) - Um dos ingredientes mais interessantes do futebol são suas peculiaridades. Entre elas está a classe de jogadores folclóricos. Para o bem ou para o mal eles entram no imaginário do esporte e, na maioria das vezes, pela porta da frente. Não à toa Garrincha, o maior exemplo, sempre foi e sempre será muito mais amado que Pelé. Na quinta-feira, dia 20, o Pará perdeu o mais folclórico de seus jogadores. O centroavante Alcino faleceu aos 55 anos em decorrência de câncer generalizado - o diagnóstico foi feito tão tarde que já não se sabia onde a doença havia começado. Entre outros ele defendeu Paysandu e Clube do Remo, mas foi neste último que fez sua história e ganhou um latifúndio no coração do torcedor local.
Os feitos do Negão Motora - apelido ganho ao ter pegado um ônibus em Manaus e atropelado um pedestre (Alcino estava bêbado) - são tantos que dariam para escrever um livro dos mais bacanas. Tragicômico. O mais notório foi ter sentado na bola quase na linha de gol. Logo abaixo está a mostra da genitália pra a torcida adversária ao comemorar um tento. Nas duas ocasiões ele defendia o Remo diante do Paysandu. Fora de campo ele não deixava por menos. Amante da bebida e das noitadas, nessa ordem, era figurinha carimbada nas boates das cidades onde jogou. Gastou o que tinha e o que não tinha, por isso morreu na miséria, amparado por pouquíssimos amigos e totalmente esquecido pelo clube ao qual mais deu glórias. Era uma espécie de popstar.
No dia que começou o velório, a tal quinta-feira, quase ninguém compareceu à capela. Lá estavam apenas seis pessoas quando o corpo chegou. Três deles ram da imprensa: eu, um fotógrafo e outro repórter. Alcino era chamado de Gigante do Baenão (estádio do Remo) por conta de seus 1,94m. O caixão media 2,10m e era pesado demais. Só os dois funcionários da funerária não seriam capazes de carregar o trambolho. O clima me pareceu mais melancólico ainda quando eu e mais o amigo Adriano Barroso tivemos que nos oferecer para ajudar nas alças.
Lá estava o maior ídolo do clube que divide a torcida de um estado e não havia ninguém a reverenciá-lo. É verdade que no dia seguinte muita gente apareceu. Mas, pelo menos para mim, os primeiros momentos contam demais e o que via era o abandono por parte de todos. Somente a família mais uns dois amigos se fizeram presentes. A exceção foi o ex-jogador e agora médico Aderson, companheiro de time apenas um ano.
Dizer que Alcino merecia mais é clichê. Todos disseram. A alegria que mostrava em vida, mesmo já devastado pelo vício no álcool, deveria ter sido mais bem reverenciada. Se fosse enterrado no interior seu féretro seria ladeado com bebida e comida em profusão. O clima de velório seria pontuado pelas histórias que ele deixou e as risadas seriam as vírgulas das lágrimas.
PS: Brincalhão como era, o que notei na única e breve entrevista que fiz com ele uns cinco anos atrás, Alcino pregou do além uma última peça. No local do velório havia duas capelas. Lógico que fui parar na errada. Eu e os outros repórteres ainda fomos tachados de penetras de velório.

"Humm, eu faria melhor", resmungou um invejoso Messias Jardan. Retratista e reconhecido desenhista, ele nem chega perto de J. Bosco, autor dessa caricatura batuta editada no jornal O Liberal.
Comentários
Sou paraense, mas moro em Brasília desde 1979, e sempre visito parentes em Belém, mas confesso que atualmente nem adianta acompanhar o futebol paraense, em virtude da atual situação das tradicionais equipes da terra, o Remo uma lambança o nosso rival pior ainda, mas,foi com muita tristeza mesmo, que somente na noite de ontem (22/09/2007)procurando saber sobre os craques do passado no futebol paraense fiquei sabendo da morte do Alcino, fico a imaginar como uma pessoa que tantas alegrias deu a milhares de outras, pode morrer de uma forma tão lamentável como o Alcino, visto que foi relatado, miséria, abandono, ingratidão (por parte da atual diretoria remista) e esquecimento, em partes por culpa dele próprio como foi mencionado na coluna do jornalista, lido na noite passada.
Parabenizo-o por sua coluna porque vc ao contrário de seu colega, mencionou a causa mortis e a idade dele, isto me fez lembrar o campeonato brasileiro de 1972, Alcino, ainda um jovem de 21 anos, goleador do Club do Remo pescou este torcedor ainda menino com 11 anos, para o time, pois eu ainda lembro quando o narrador da Liberal, Ivo Amaral, que alías continua na imprensa local, gritava goooooool do Club do Remo Alllcino, Alllcino, Alllcino é o nome do homem camiseta número 9....., no ano seguinte passei a frequentar o Baenão, vibrava com os gols do "negão motora" que gostava de correr e se pendurar no alambrado, causando o maior frisson na galera remista, liderava uma equipe que não encontrava adversários no futebol paraense, e em brasileiros não fazia feio, um dia fomos ao Rio em pleno Maracanã demos no Flamengo por 2X1, com Zico e cia, fazíamos visitantes passar vergonha jogando em Belém, só como exemplo lembro da vez que demos um chocolate no Cruzeiro de 4X0 e depois no Palmeiras,por 3X0, com gols até por debaixo das belas pernas do Leão, já no brasileiro de 1977.
Hoje Alcino é passado, morto, porém mito em nossos corações, principalmente nos,torcedores remistas, que tanto sofrem com estes jogadores da atualidade que me descupem a sinceridade, com futebol pífio de nem de longe lembra um time vitorioso como do tempo de Alcino, obrigado Alcino, que Deus te dê a paz e nos ficaremos gratos em lembrar das alegrias que vc nos dedicou.
Ed.....
escrito por: Edmilson Afonso em 24/09/2007 às 01:15
Quantas vezes vibrei com as jogadas do motora,são tantas.Lembro que uma vez,se não me engano foi contra o Botafogo do Rio, o negão saiu pela esquerda e foi seguro pelo calção, nem ligou, ficou com a bunda toda de fora , o Baenão veio abaixo.
Hoje tenho 53 anos , moro longe de Belém, sou azulão e como voce disse, o gigante ganhou latifúndio em nosso coração.
escrito por: Heliomir Geber em 25/04/2007 às 10:53
tenho apenas 16 anos
mais um remista que nunca ouviu falar em alcino
pode ter certeza que não é remista
estou muito triste com a noticia
assim como muitos devem estar, mas tenho plena certeza que Alcino não quer ser lembrado meio a tristezas ,mas sim por seus feitos, gols jogadas espetaculares e pela alegria que deu a todos nós.
Alcino esteja onde estiver você marcou a vida de todos nós e troxe muitas felicidades para todos os torcedores do Clube do Remo.
escrito por: lumo levy em 12/04/2007 às 15:17
Fiquei muito triste com a notícia da morte do Gigante, ví de perto suas peripécias,saudosamente lembrei de minha mãe que através do meu amor pelo remo e a paixão pelo goleador nato q era o Alcino ela nos fins de tarde de domingo perguntava: e o gigante? Fiquei chocado com o final que ele teve, é muita ingratidão da torcida azulina.
Hoje moro em Macapá, tenho 52 anos, mas na época do gigante estudava em Belém e não perdia um jogo do maior matador da História do futebol do Norte " O GIGANTE DO BAENÃO"
escrito por: CARLUCCIO em 22/02/2007 às 15:50
Eu vi o negão jogar no Baenão. Tinha eu por volta de doze anos. Meu tio me levava ao baenão não para ver o jogo mas para xingar o juiz. Mas eu vi o negão. Também vi o Neves, outro cachaceiro sensacional. Vi o François (Françoá) gritar para o Amaral: Amarar, sarta e cabeceia!
A salvação do Remo de hoje talvez esteja em Abaeté.
escrito por: Artur em 2/08/2006 às 11:13
Querido Tylon,
Me explica, por favor, o que significa ressaca moral? Enquanto voce se prepara para me dar a resposta, venha ler as minhas aventuras sexuais. Tenho certeza que voce vai gostar...
Beijos
Valenttina
escrito por: Valenttina em 25/07/2006 às 12:28