Oh, Happy Day: Uma tour com Daniel Belleza & Os Corações em Fúria

Por Vladimir Cunha e Rafael Guedes

O que ainda pode ser dito sobre o rock? Em mais de 50 anos ele já nos divertiu, fascinou, chocou e decepcionou de todas as formas possíveis. Difícil é, a essa altura, ainda conseguir enxergar algo de novo na velha fórmula dos três acordes e quatro compassos. Talvez Daniel Belleza & Os Corações em Fúria, que estiveram em Belém no último sábado (24), saibam disso. E ainda assim estejam pouco se lixando. Sem maiores constrangimentos, pilham cinco décadas de cultura pop e dessa forma constróem o seu arsenal sonoro: riffs que remetem a Eddie Cochran, esporros de guitarra saídos direto dos amplificadores do MC5 e dos Sex Pistols e a auto-destruição passional dos Stooges e dos New York Dolls.

Mas Daniel, o Iggy Pop de Caruaru, o faz com emoção e honestidade, como se ali, em cima do palco, estivesse pronto para ser sacrificado vivo. Seu legado para a Humanidade é o ultraje e a fúria, o som desgovernado de suas guitarras distorcidas e cozinha precisa temperado com letras sobre noitadas, desilusões amorosas e causos do submundo boêmio de São Paulo, de onde Os Corações em Fúria extraem a matéria-prima de seu imaginário lírico. Apesar de parecer forçada, a atitude da banda é verdadeira e se traduz na garra com que defendem a sua crença em uma vida melhor através do rock'n'roll.

Em cima do palco, Daniel seus corações furiosos promovem, junto com os fãs, uma grande catarse, se jogando no chão, chamando o público para cantar e dançar e incitando rituais de auto-flagelação. Em um determinado momento, um garoto de pouco mais de 18 anos sobe no palco e agarra por trás Rangel, o baixista da banda e uma espécie de Dee Dee Ramone GLS. Antes que a segurança possa fazer alguma coisa, os dois se engatam em um profundo beijo. A platéia, a essa altura dominada pela figura carismática do vocalista e de seus músicos, reage com gritos e aplausos entusiasmados.

"Velho, onde tava a minha garrafa de vodca?", pergunta Daniel a um dos membros da produção enquanto bebemos depois do show. "Quando me jogaram aquela lata de cerveja na cabeça me deu vontade de quebrar ela e me cortar todo". "E tu acha que eu não sei? Foi por isso que eu a escondi", responde, rindo, o produtor.

O show termina às quatro da manhã, a banda vai dormir às dez e ainda encontra forças para se apresentar ao vivo em um programa de rádio local na companhia da turma da Dançum Se Rasgum Produciones, responsável pelo show. Pouco depois, estamos em cima do palco do Palafita, bar à beira do rio na capital paraense, cantando "Glamourosa", "Melô da Popozuda" e "Faz o T" (hit da faceta ultranervosa do tecnobrega em Belém) sobre o riff de "I Wanna Be Your Dog", tocado pelos Corações em Fúria. É domingo, fim de tarde, chove um bocado e a banda resolve subir ao palco do bar e mandar algumas músicas, transformando o que seria apenas uma canja em um show de quase uma hora.

Trata-se do mesmo repertório da noite anterior no Afrikan Bar, misturando músicas próprias, como "Do Amor de Morte" e "Aonde (sic) Estão As Flores da Sua Cabeça", com versões punk rock para "Frevo Mulher", de Zé Ramalho; "Preta Pretinha", dos Novos Baianos; e "Cowboy Fora da Lei", de Raul Seixas. Em "A Caixa", Sammliz, vocalista do Madame Saatan, repete a dobradinha do show de sábado e canta com Daniel Belleza e Camilo, da banda Turbo, membro honorário do grupo que foi convidado para fazer a segunda guitarra na apresentação do Palafita.

Na platéia, um tiozinho pra lá de Bagdá insiste em pedir pelo clássico gospel "Oh Happy Day". A banda finge que não é com ela e ataca com uma versão meio desatinada para "Blitzkrieg Bop". Ao lado dos amigos, tão ou mais velhos que ele, o sujeito parece subitamente possuído por algum espírito e começa a dançar, só para depois se juntar a nós no coro de "hey ho! let's go!" que abre a música. Animado, Daniel se joga cerveja, rebola, se agita e faz o minúsculo palco balançar, Rangel sente o perigo se aproximado, pula para cima de uma mesa e continua a tocar.

Exausto, o vocalista termina o show com um protesto. "Isso aqui é para quem acha que a gente só funciona com plumas e paetês", diz ele se referindo às críticas de que os Corações em Fúria seriam mais um evento de moda do que uma banda de rock. Longe das câmeras, dos holofotes e tocando para uma platéia de pouco mais de 30 pessoas, a banda fez um show tão bom, ou talvez até melhor, que o da noite anterior. Assim são Daniel Belleza e os músicos d'Os Corações em Fúria. Sujos, abusados, pornográficos e inconseqüentes. Como todo bom rock deve ser.


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Putaria: Daniel Belleza e Sammliz se esgoelam ao microfone. O fotógrafo Renato Reis aproveitou a ausência de Messias Jardan - que está na Alemanha cobrindo a Copa - e fez o clique.

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Comentários

a vai se fude..oh yeah!!!!!!!!

o show deles é do caraleo..
puta vontade que deu de fazer com o daniel..o que o garoto fez com rangel..hauahh
oh my god..que appeal!

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