A Panóplia Delirante
Garotos, garotos.
Não posso negar que o futebol é uma de minhas paixões e o Liberato de Castro é o maior time que já defendi. A bem da verdade foi o único. Em 1965 eu dividia meu tempo entre uma comunidade hippie-carateca e o juvenil do Bólido do Guamá. Nunca fui muito à frente no esporte bretão. Abandonei uma promissora carreira como beque-central porque o departamento médico do clube não possuía a técnica necessária para curar uma frieira crônica que tinha no pé esquerdo. De fato, não havia DM no clube, apenas o massagista Mariano Bloonfield III, o Bandalheira. No tempo em que passava em tratamento ele me contava as histórias do clube, em especial o do time de 1927, terceiro colocado no grupo H da segunda divisão do campeonato paraense. Foi o escrete que mais deu alegrias à imensa torcida do clube. Muito do sucesso daquela equipe se deve à voluntariedade dos jogadores e, principalmente, dos esquemas revolucionários do técnico Izidoro Singular, uma lenda.
Eu me perdia naquelas causos de feitos heróicos. O modesto campo do Tambaqui Azedo, o "Remosão", era o palco os jogos do Liberato e das artimanhas táticas de Singular. Sabedor que seus comandados eram mais fortes na garra e determinação do que na habilidade e na técnica, o treinador armava o time para marcar com força e contra-atacar com velocidade. "Abre pelas pontas e fecha que nem leque", gritava o comandante à beira do gramado.
Na referida campanha de 27 o Liberato teve pela frente o Berabinha, o Santo Ambrósio e o Belém Wanderers. O primeiro jogo terminou 4 a 4 para o Berabinha. O centroavante Charles Uniforme, conhecido como o Galante por sempre usar brilhantina Glostora no cabelo, fez um dos gols ao aproveitar uma falha gritante do goleiro adversário. O outro tento do Liberato foi contra.
A segunda contenda foi com o Santo Ambrósio. Jogo, sob forte chuva e com uma marcação acirrada de ambos os lados. Aos 40 minutos do segundo tempo, aproveitando mais uma falha do arqueiro, Uniforme completou para o gol vazio. Foi um lance histórico porque foi a primeira vez que o Liberato fazia mais de dois gols numa só temporada. Uniforme já era cobrado pela torcida para figurar na seleção paraense e seu nome era visto pintados nas paredes: "Uniforme é Rei". No entanto, nos cinco minutos restantes o time oponente marcou três gols e fechou o placar.
O Liberato foi para a última partida precisando da goleada sobre os Ingleses para terminar para, através de uma combinação de resultados, se classificar para a fase seguinte. Os Wanderers eram os favoritos. Lógico. Clube de endinheirados, era o único que tinha um uniforme oficial, um luxo para a época, e podia alugar um bonde para levar os jogadores para os jogos.
Foi um embate magnífico e o final trouxe o melhor resultado da história do Liberato: 1 a 1. O placar estava a favor dos Wanderers até o último minuto, quando o center-four Lúcio Jennifer tabelou com o forward Sanfoneiro que cruzou na área. O goleiro dos Ingleses socou a bola e ela foi na nuca de Charles Uniforme. A pelota entrou mansinho do gol. Quando o juiz apitou o final a torcida mal podia acreditar. Não foi o suficiente pára classificar a equipe, mesmo assim ficou na memória.
Uniforme foi carregado em êxtase e ganhou um desconto vitalício na taberna local. Promoção que foi toda utilizada em gel de cabelo e conhaque Dois Irmãos. Izidoro Singular aproveitou a fama para se eleger vereador no ano seguinte. Um ano depois ele foi afastado por causa de denúncias da cabotinismo.
Nunca Mais o Liberato de Castro conseguiu feito igual e até hoje esse time, chamado na época de a Panóplia Delirante por causa de seu brasão psicodélico, é cantado em verso e prosa na periferia da cidade.
Abraços

Em pé: Lúcio Jennifer, Brilhantina, Maravalho Boina, Ismael Florêncio, Cabelinho e Ceará. Sentados: Izidoro Singular (técnico), Teixeirinha, Sanfoneiro, Zé Donaldo, Alegria, Charles Uniforme e Bandalheira (massagista, médico, roupeiro e capelão). Constantino Jardan, pai do renomado Messias Jardan, usou de toda sua perícia de Lambe-Lambe para fazer o futebolístico click.
Comentários
Caro Cremonese, boa tarde
Parabéns pelo artigo, muito bom. Se possivel me ajudar a tirar dúvidas sobre o Atlético Libetato de Castro :
- Como era seu uniforme ?
- Necessito do escudo para fazer meu time de botão, seria possivel conseguir uma cópia ?
Abs
escrito por: Rodolfo Pedro Stella Junior em 24/07/2008 às 18:51
Caro Cremonese, boa tarde
Parabéns pelo artigo, muito bom. Se possivel me ajudar a tirar dúvidas sobre o Atlético Libetato de Castro :
- Como era seu uniforme ?
- Necessito do escudo para fazer meu time de botão, seria possivel conseguir uma cópia ?
Abs
escrito por: Rodolfo Pedro Stella Junior em 24/07/2008 às 18:50
Grandioso Wilson Cremonese,
Saudações d'álem terra.
Seu colega Tylon José Paes Maués, homem de caratér ilibado, pelo qual guardo muita estima, me confidenciou deste logradouro virtual e cá estou embasbacado por tão belas linhas.
Sinto-me obrigado a perguntar se existe algum vídeo de alguma peleja disputada pelo Liberato de Castro em sua fase áurea.
Se sim, peço que o envie para o blog www.janela.com.br/blogs/toquedeletra, no qual escrevo minhas tirinhas.
Aqui estou também para completar sua informação: um centro médio de habilidade duvidosa e cabeleira engomada deste grande esquadrão acabou se contrabandeando para o Suriname e formou um dos maiores times que já ouvi falar, o Bólido Papillon. Este time fazia a alegria dos que passavam férias forçadas nas ilhas do país e foi a inspiração para a alcunha de um célebre hóspede da Ilha do Diabo, um resort de segurança máxima de fama internacional.
Infelizmente, uma briga entre a antiga CBD e a poderosa Confederação Paraense de Desportos não permitiu que a seleção de 1930 fosse ao Uruguai com um ataque matador com Preguinho, Friedenreich e Ismael Flerêncio. Plagiando o Calazans: Ismael Florêncio não ganhou a Copa? Pior para a Copa.
Abraços Fortes e conto com sua presença ilustre também em meu blog.
Bruno, o Perpetuo
escrito por: Bruno Perpetuo em 6/06/2006 às 11:59