O Grande Carnaval do Brega

"Você é quem?"
"Hã?"
"Você é quem?"
"Ah tá...er...meu nome é Vladimir Cunha, eu sou colaborador do site Overmun..."

PLAFT!

O segurança fecha a porta na minha cara numa atitude descrita pelo Gordinho, que foi comigo à coletiva no Hilton Hotel buscar as credenciais para o show da Banda Calypso, como "boçalidade profissional". Diz ele que é o cara que viu muito Nova Iorque Sitiada ou Na Linha de Fogo, aquele filme no qual o Clint Eastwood é segurança do presidente dos Estados Unidos, e esperou durante a vida toda a oportunidade de ser fodão com um mané qualquer. Nesse caso, eu.


Bato mais uma vez na porta. O segurança põe a cara pra fora e fecha de novo. Em seguida, abre novamente e diz para eu esperar. São pelo menos uns 10 minutos até que a assessora de imprensa apareça e me convide para entrar. Nesse meio tempo, eu e Gordinho observamos o vai e vem de membros da equipe de apoio da Calypso, todos de uniforme preto e walkie-talkie pendurado na cintura.

Nada mal para uma banda que há uns cinco anos me deu uma entrevista em um camarote minúsculo e calorento da casa de shows Apororoka, onde mal cabia o grupo e os seus bailarinos. Naquela época eu trabalhava como freelancer para a revista Bizz em uma matéria sobre a cena brega-pop de Belém. Um tempo em que Banda Calypso era apenas mais uma das centenas de grupos que ralavam na noite da cidade. E Chimbinha, um guitarrista genial e inovador que já havia gravado mais de mil discos como músico de estúdio.

"Cara estar aqui hoje é como estar no camarote VIP dos Rolling Stones em Copacabana", diz mais tarde o meu chapa Randy Rodrigues, produtor das festas quinzenais da Dançum se Rasgum Produciones que convidei para ir comigo ao show gratuito que a Banda Calypso faria em Belém no último dia 23 de fevereiro.

Foram dois quilômetros a pé do ponto onde descemos até o camarote VIP, onde poderíamos assistir a banda com direito a bebida e comida de graça e uns pufes para relaxar enquanto o show não começava. Uma vez lá dentro, tratamos de atacar as latinhas de cerveja e a tábua de frios enquanto um grupo bastante chato fazia o show de abertura. Uma espécie de Timbalada com um vocalista furreca, que só ganhou aplausos da massa quando anunciou a sua última música.

Eu não sei se foi a música ou o excesso de cerveja, mas o fato é que estava começando a ficar enjoado daquela batucada toda e traçava na mente um plano de fuga para sair dali o mais rápido possível caso a Banda Calypso demorasse para começar o show.

Não foi preciso. A banda toca mais uma música, as cortinas do palco se fecham e um comercial de moto aparece no telão ao som de um poderoso drum'n'bass. Não entendi nada, mas a impressão que deu é que a empresa que fabrica a moto era a patrocinadora do show. Quer dizer, eu acho. Em seguida, as cortinas se abrem, Chimbinha aparece no palco, Joelma entra saudando o público e a banda ataca um brega-pop que leva a multidão a erguer os braços para cima e cantar tão alto que mal posso ouvir a voz da cantora. A última vez que vi algo assim foi no Rock In Rio II em 1991, quando o Guns'n'Roses tocou Sweet Child O'Mine, levada por um Axl Rose espremido numa bermudinha de lycra com a bandeira dos Estados Unidos estampada. Eu, que naquela época era meio cafona e usava um lenço vermelho na cabeça combinando com uma camisa da Anonimato cheia de caveiras estampadas, fui na onda e cantei junto até perder a voz. Shame on me, shame on me...

Impossível dizer que músicas a Banda Calypso tocou. Até porque eu não sei o nome de nenhuma. O que importa é que a Avenida Pedro Miranda virou um imenso salão de baile brega-pop, o terreirão suburbano que eu sempre sonhei em ver acontecer um dia. Foram cinco, seis, sete músicas tocadas uma atrás da outra, sem pausa, sem discursos e sem firulas. Todos os sucessos da banda enfileirados, dispostos espertamente para levar a multidão ao delírio. É quando percebo que, de fato, a Banda Calypso se transformou num fenômeno pop. As subidas de ritmo para fazer o povo pular, Joelma apontando o microfone para o público e instigando a multidão a cantar os refrões, os solos de Chimbinha na hora certa, as luzes, as pausas...truques pop da melhor qualidade que vemos em maior ou menor grau em todos os bons shows ao redor do mundo. Nos Stones em Copacana, no U2 em São Paulo...com a vantagem que Chimbinha toca melhor e tem uns 90 anos a menos que Keith Richards e Joelma é uma vocalista bem mais interessante do que Bono Vox, o Luciano Huck do pop.

Pausa para o prefeito Duciomar Costa entrar no palco e levar a maior vaia que já vi na vida. As sabe-se lá quantas mil pessoas que entupiam a Avenida Pedro Miranda de ponta à ponta mandando ver enquanto o homem discursava. Como diria Shaula Vegas, "quis dar o close e levou um 'bú'". Melhor sorte teve o vice-prefeito Manoel Pioneiro, que mandou um abraço para os rapazes, um beijo para as meninas e se pirulitou do palco antes que sobrasse para ele. Para acalmar a multidão, Chimbinha e Joelma voltam com força total e mandam mais uma sessão de Banda Calypso para as massas.

A essa altura Randy Rodrigues já está totalmente familiarizado com o incrível mundo do jornalismo paraense e comanda um concurso de malabarismo junto com um grupo de assessoras de imprensa, fazendo-as dançar o brega equilibrando uma latinha de cerveja na cabeça. De repente o camarote VIP vira a festa da uva, com o povo pra lá e pra cá equilibrando até não mais poder, pegando banho de cerveja e fazendo a dança da cordinha. Decido que só isso não é o suficiente e chamo umas celebridades locais para se juntar a nós: o cantor Silvinho Santos, um radialista chatíssimo e um anão ajudante de palco de um programa policial. Convencê-los a dançar com a lata na cabeça é mais fácil do que parece. Inclusive o anão, que em suas próprias palavras "estava doido para entrar na onda".

"Vlad, essa música...eu tenho certeza que toda vez que a Roberta Miranda ouve ela corre pro banheiro e se corta toda de inveja. O Chimbinha e a Joelma ganharam a mulher no próprio jogo dela!", diz o jornalista Clemente Schwartz, pra lá de Bagdá, enquanto no palco rola "Maridos e Esposas", um bolerão classe A com uma das melhores letras de corno da história seguido de um medley de carimbó e uma sucessão de covers de lambada, de Beto Barbosa à Banda Warilou, grupo criado pelo maestro Manuel Cordeiro que causou furor em Belém nos anos 80.

Não dá para discordar da maldade do Clemente. Aliás, a essa altura eu já estava concordando com qualquer coisa. Se alguém chegasse para mim pedindo apoio para a volta do Afif Domingos era capaz de eu imediatamente puxar um coro com o bordão "juntos chegaremos lá!" e sair fazendo panfletagem pela multidão. Se o José Rainha pintasse por lá botando pilha eu liderava até uma invasão do MST. A situação era tão precária que mesmo eu, que não danço porra nenhuma, arrisquei uns passos de brega, fiz umas coreografias supostamente inspiradas na abertura de Rainha da Sucata e dancei três músicas seguidas sem derrubar a latinha de cerveja que equilibrava na cabeça. Enquanto isso, a Banda Calypso chama Nelsinho Rodrigues e Edílson Moreno e, juntos, transformam o palco montado na Avenida Pedro Miranda em um grande show brega-cover, tocando versões para diversos clássicos da música romântica paraense, que o povo na platéia sabe na ponta da língua.

Tempo de assistir ao encerramento do show, esperar a multidão se dispersar, pensando na sagacidade de Chimbinha e Joelma, que transformaram um produto local e segmentado em um fenômeno pop sem precedentes na história recente da música brasileira. O que liga na Banda Calypso é saber como eles conseguiram internacionalizar um som que parecia fadado a nascer e morrer em Belém do Pará. Nesse processo, amadureceram como artistas e se apropriaram de todos os truques pop que foram pilhando pelo caminho. Talvez uma herança dos tempos em que Chimbinha era músico de baile na periferia de Belém, onde em uma única noite era obrigado tocar de Juca Medalha a Pink Floyd, de Pinduca a Creedence Clearwater Revival, de Dire Straits a Mestre Vieira. É possível que a lição que Chimbinha tenha aprendido é a de que a música para as massas é, antes de mais nada, um produto que se comporta de acordo com regras bastante rígidas de produção e execução. Em termos técnicos, todos os shows pop são iguais, com os mesmos truques, as mesmas luzes para impressionar, os mesmos microfones para a galera cantar junto, as mesmas palmas e as mesmas coreografias. No mundo da industria do entretenimento, nas salas de reunião e nos departamentos de marketing das grandes gravadoras, ser Britney Spears, o U2, o Iron Maiden ou os Rolling Stones dá no mesmo. À frente da Banda Calypso, Chimbinha e Joelma parecem ter aprendido as regras do jogo. E enquanto elas continuarem valendo, os dois terão garantido o seu lugar no panteão pop brasileiro dos anos dois mil.

calypso bombando.jpg

No calor da tremedeira, Randy Rodrigues, o popstar Silvinho Santos e o jornalista Vladimir Cunha mostram com quantas latinhas se faz uma boa reportagem. Messias Jardan, que tem mestrado em dança de salão, foi o autor do animado click

Publicado originalmente em www.overmundo.com.br

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Comentários

Sou de Belém do Pará, mais moro em São Paulo a 3 anos onde estou concluindo meu mestrado em comunicação , o Calypso ate hoje ainda é um grande fenomeno da musica paraense , vejo com bons olhos esse movimento , mais a coisa que poucas pessoas sabem é que tudo começou no programa Mexe Pará do radialista Silvinho Santos filho do ex-governador do estado do Pará Carlos Santos , se não fosse o Silvinho o Chimbinha juntamente com a Joelma, e todas estas aparelhagens e cantores e bandas de brega do Pará , ainda estariam passando fome , ou pedindo para tocarem suas musicas nas portas das radios paraensses , o Silvinho fez muito sucesso na musica, e ainda empurrou esse movimento para que o Brasil viesse a conhecer , isso poicas pessoas sabem , mais pode pesquizar e voces , vão saber quem é o verdadeiro pai do movimento brega calypso , technobrega , melody , ou de paralhagens !
Silvinho Santos o pai de toda esse povo !!
deixo ai pra voces essa informação importante para o movimento da cultura musical paraense !
beijos a todos
Fe

sou campina grande beijos e voçe talegal ingrid

oi tudo bem

SOU DE BELÉM DO PARÁ E QUEM CONHECEU A WARILOU NUNCA ESQUECE É TIPO O CALIPSO E MORO EM RORAIMA /BOA VISTA ,GOSTARIA DE PARTICIPAR DO FÂ CLUBE DA CALIPSO E DA BANDA WARILOU,COMO CONSIGO CONTATO,PARA ESSSAS FERAS ......
PARABÉNS PELO TRABALHO DA BANDA CALIPSO E WARILOU VCS MERECEM ...
VANISE

olá boa noite á todos a Banda calípso é a tal, mas quem começou em 80 foi uma banda chamada warilou, que pelo que li ,estará de volta .
Parabéns por existir a Calípso e warilou, sem pre gostei e vou gostar da warilou e amar muito a calipso.
beijos á todos...

O show da calypso e de enlouquecer qualquer passoa.

A banda Calypso é unica, sou louco por te Calypso.

cara o xou da calyso é bom pra caraca, eles arrazam, adorei!

a banda calypso é a melhor banda em todos os sentidos da produção, as músicas, as coreografias e etc: MELHOR QUE ELES NINGUÉM!!!!!

Só queria lembrar que a Banda Warilou foi uma banda de sucesso no Estado do Pará nos anos 90 e não nos 80 como cita o texto. O resto tá muito legal.

TUDO FEIO

merda..tudo merda ,uma montanha de merda...foda-se toda essa merda..ploft..olha o gásssss.hehehehe

ta linda a foto muito chow dw bola
silvinho beijos ta more tais sumido do msn

ta linda a foto muito chow dw bola
silvinho beijos ta more tais sumido do msn

a banda calypso e a menlhor banda e a unica com qualidade de som

Agora com presença de celebridades nas fotos. curti isso. melhor que cobrir os vales-tudo de antigamente...

Agora com presença de celebridades nas fotos. curti isso. melhor que cobrir os vales-tudo de antigamente...

"Vlado, vlado... dando corda pra se enforcar."

*Sempre quis fazer esse trocadilho. Meu problema é timing.

Muito bom!

Clap,clap,clap
Brilhante, Vlad. :)

P.S: agora trocastes a anonimato pela splash?

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