O som do barzinho

Chegaram à conclusão de que seria impossível proibir a formação das rodinhas, afinal, qualquer conversa sobre os gols do final de semana ou um novo tipo de esmalte de unha já colocavam as pessoas em círculo, tornando difícil a identificação do propósito da rodinha. Além disso, a quantidade de fiscais de rodinha necessários ao controle de tal proibição deixaria o sistema altamente suscetível à corrupção.

A solução encontrada então foi a proibição da fabricação, venda, uso e porte do violão. O raciocínio era simples: as rodinhas de violão eram formadas basicamente por dois elementos, uma rodinha e um violão. Como estudado, o extermínio das rodinhas era algo praticamente impossível, até mesmo porque acabaria com passatempos saudáveis da população, como a porrinha, o truco e a fofoca. Tornar o violão ilegal também não era tarefa simples, porém, o benefício que a medida traria - o fim das rodinhas de violão, era algo que lhes trazia brilho no olhar.

As fábricas de violão que fecharam voluntariamente receberam indenizações, outras, preferiram migrar para a fabricação de instrumentos sem cordas e receberam incentivos para tal. O programa de desviolonamento da sociedade civil foi colocado em prática e quem possuía um violão em casa pôde trocar seu instrumento por um real em postos autorizados, sem perguntas, sem burocracia.

Quem era flagrado tocando violão tinha seu instrumento confiscado e, nos casos mais leves, pagava apenas uma multa. Alguns reincidentes foram condenados à pena máxima: um mês em sala acusticamente isolada escutando “Pingos de Amor” de Paulo Diniz ininterruptamente.

As medidas foram eficientes em curto prazo, mas um grupo de cantores de barzinho, malas de churrasco e pentelhos de acampamento lançaram através da Internet uma série de CDs de karaokê de violão. Bastava o pretenso cantor entrar com sua voz. Em pouco tempo, as rodinhas de som portátil espalharam-se pelo país. Era preciso avançar nas medidas de repressão, era preciso proibir também os artistas fornecedores das músicas de rodinhas de se divulgarem, realizarem shows e vender discos.

Uma gigantesca lista de cantores foi elaborada e os mesmos expulsos para diversos países. Seus discos e músicas tiveram venda e execução proibidas. Quem possuísse discos dos artistas listados poderia trocá-los em postos autorizados na proporção de um real para cada 10 álbuns, sendo que os de Jorge Versilo deveriam ser entregues de graça.

Nos dois primeiros anos das novas medidas a taxa de crescimento do país chegou aos 15%, o desemprego e a violência caíram vertiginosamente. O superávit da balança comercial foi o maior de todos os tempos, o número de turistas estrangeiros quintuplicou e o quilo da farinha estava 82% mais barato.

Atualmente, o Brasil sofre pressões internacionais para que aceite seus cantores de voz e violão de volta. Os EUA já estacionaram dois porta-aviões próximos do nordeste brasileiro e tropas de uma ampla coalizão internacional concentram-se na Argentina e no Paraguai para uma possível invasão. A ONU está à frente das negociações, mas os brasileiros juram lutar até o último homem.

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