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28 de novembro de 2005

O som do barzinho

Chegaram à conclusão de que seria impossível proibir a formação das rodinhas, afinal, qualquer conversa sobre os gols do final de semana ou um novo tipo de esmalte de unha já colocavam as pessoas em círculo, tornando difícil a identificação do propósito da rodinha. Além disso, a quantidade de fiscais de rodinha necessários ao controle de tal proibição deixaria o sistema altamente suscetível à corrupção.

A solução encontrada então foi a proibição da fabricação, venda, uso e porte do violão. O raciocínio era simples: as rodinhas de violão eram formadas basicamente por dois elementos, uma rodinha e um violão. Como estudado, o extermínio das rodinhas era algo praticamente impossível, até mesmo porque acabaria com passatempos saudáveis da população, como a porrinha, o truco e a fofoca. Tornar o violão ilegal também não era tarefa simples, porém, o benefício que a medida traria - o fim das rodinhas de violão, era algo que lhes trazia brilho no olhar.

As fábricas de violão que fecharam voluntariamente receberam indenizações, outras, preferiram migrar para a fabricação de instrumentos sem cordas e receberam incentivos para tal. O programa de desviolonamento da sociedade civil foi colocado em prática e quem possuía um violão em casa pôde trocar seu instrumento por um real em postos autorizados, sem perguntas, sem burocracia.

Quem era flagrado tocando violão tinha seu instrumento confiscado e, nos casos mais leves, pagava apenas uma multa. Alguns reincidentes foram condenados à pena máxima: um mês em sala acusticamente isolada escutando “Pingos de Amor” de Paulo Diniz ininterruptamente.

As medidas foram eficientes em curto prazo, mas um grupo de cantores de barzinho, malas de churrasco e pentelhos de acampamento lançaram através da Internet uma série de CDs de karaokê de violão. Bastava o pretenso cantor entrar com sua voz. Em pouco tempo, as rodinhas de som portátil espalharam-se pelo país. Era preciso avançar nas medidas de repressão, era preciso proibir também os artistas fornecedores das músicas de rodinhas de se divulgarem, realizarem shows e vender discos.

Uma gigantesca lista de cantores foi elaborada e os mesmos expulsos para diversos países. Seus discos e músicas tiveram venda e execução proibidas. Quem possuísse discos dos artistas listados poderia trocá-los em postos autorizados na proporção de um real para cada 10 álbuns, sendo que os de Jorge Versilo deveriam ser entregues de graça.

Nos dois primeiros anos das novas medidas a taxa de crescimento do país chegou aos 15%, o desemprego e a violência caíram vertiginosamente. O superávit da balança comercial foi o maior de todos os tempos, o número de turistas estrangeiros quintuplicou e o quilo da farinha estava 82% mais barato.

Atualmente, o Brasil sofre pressões internacionais para que aceite seus cantores de voz e violão de volta. Os EUA já estacionaram dois porta-aviões próximos do nordeste brasileiro e tropas de uma ampla coalizão internacional concentram-se na Argentina e no Paraguai para uma possível invasão. A ONU está à frente das negociações, mas os brasileiros juram lutar até o último homem.

25 de novembro de 2005

Fã-clubes que não deram certo

O fã-clube esquecido da Adryana e a Rapaziada

A euforia tomou conta de uma turma de 30 estudantes após a apresentação da banda de forró, música eletrônica, brega e axé Adryana e a Rapaziada em uma festa de formatura, e logo o "Fã-Clube Tudo Passa" distribuía dezenas de cartazes, fotografias autografadas, CDs piratas e outras bugigangas alusivas à banda pela noite de São Paulo. Uma semana após sua criação, entretanto, o fã-clube foi desfeito pois seus membros não se lembravam mais porque estavam se reunindo.

O fã-clube reflexivo dos Los Hermanos

Barbudos, carrancudos e aborrecidos, um grupo de amigos de Mossoró-RN montou um dos clubes mais carismáticos de admiradores da banda carioca Los Hermanos. No QG improvisado em uma antiga plantação de cactos, os "Los Hermanossorós" ouviam discos da banda, criavam palíndromos, pesquisavam poesias e protestavam contra a vida. O fã-clube foi sumariamente fechado pelo próprio presidente quando ele, após refletir sobre a letra da canção Anna Julia, declarou que nem a música, nem os Los Hermanos, nem o fã-clube faziam sentido e mandou todo mundo ir pra casa.

O fã-clube perseguido da Jane Duboc

Formado por cerca de 8 garotas com idades entre 13 e 87 anos, e contando com uma infra-estrutura capaz de gravar 25 mil fitas K7 e imprimir 6 milhões de cópias de um caprichado fanzine por dia, o fã-clube mais bem organizado da cantora Jane Duboc foi obrigado a fechar as portas pouco antes de completar um mês de existência. O motivo, segundo a ex-presidente do clube, foi a perseguição da ditadura, que implicou com o nome "Clube das Duboquetes".

24 de novembro de 2005

Ressaca roubado é encontrado na rua da amargura

Da Redação (Atchim!) - A maré não está para robalo em Ressaca Moral. Após comerem o quindim que a Cláudia Jimenes amassou, sofrendo com as intempéries provocadas pelo malévolo servidor norteamericano do portal Gardenal, os Ressacas sofreram mais um ataque. Esta manhã, enquanto matavam trabalho apostando biscoitos no pôquer, Vladimir Cunha (Gerente de Onomatopéias e Conjutivite do blog) e Rafael Guedes (Coordenador Geral das Subdivisões de Chefia e Assistência de Almoxarifado do Ressaca Moral) foram surpreendidos por um grupo de senhoras vestidas em sumários trajes de couro.

As mulheres, todas aparentando mais de 50 anos, diziam-se da Liga das Atrizes Pornôs da Menopausa (LIGAPOPAUSA) e em rápida e coordenada ação, roubaram o site. Algumas horas depois de chamado, o interessado delegado Maria Betânia, o Betão, entrou no caso. A primeira pista que Betão e sua equipe investigaram estava congestionada devido ao tombamento de um caminhão-baú que transportava baratas manga-larga marchador para uma exposição em Mossoró (RN).

Sem saco para continuar qualquer trabalho de apuração do crime, na volta à delegacia, Betão encontrou o blog jogado em uma sarjeta na esquina da Merda com Lugar Nenhum. O site esclareceu para a reportagem que a LIGAPOPAUSA pretendia usá-lo na campanha “Para mulher sem tesão, nada melhor que site bundão”, mas segundo o relato do próprio blog, as balzaquianas acharam o Ressaca tão broxante, que nem como instrumento anti-tesão serviria. O blog está mais ou menos de volta ao ar e passa bem.

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Os ornamentos de cabeça são uma das grandes armas de sedução das mulheres da Liga das Atrizes Pornôs da Menopausa. O clique sem meias palavras é dele, Messias Jardan.

21 de novembro de 2005

Manchetes, apenas manchetes

- Em queda livre, Dólar atinge velhinha que passava na calçada.

- Serra desafia: se Lula conseguir pronunciar “Pearl Jam” show da banda estará liberado.

- Homem-bomba que não explodiu se mata de vergonha.

- Após ver filme de Vivi Fernandes, Kiko solta o verbo: “Genitália! Genitália!”.

- Carlito Tevez em lua de mel com Timão. Pumba não gosta.

- Após fuder o país, Dirceu declara: “é o fim da picada”


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Carlito Tevez exagera na comemoração ao beijar um adversário. “Campo non és novela, aqui és lugar pra macho e nossotros besamos mismo!”. Messias Jardan ficou l-o-u-c-o, mas antes de desfalecer conseguiu flagrar lo momento caliente. Tevez ainda revelou que seu sonho é comemorar um gol com Júnior Baiano, “és um macacón”, diverte-se.

9 de novembro de 2005

Roupa íntima não é nome de banda dos anos 80

Há algum tempo uma visita ao supermercado já lhe resolve bem mais a vida do que apenas encher a geladeira ou comprar iscas mata-barata. Você encontra farmácia, livraria, caixa eletrônico, casa lotérica, locadora de vídeo, restaurante por quilo, lavanderia e um sem número de etecéteras que variam de acordo com o tamanho ou criatividade do estabelecimento.

As maiores casas do ramo supermercadista geralmente vêm acompanhadas também de uma loja de departamentos, com roupas, eletroeletrônicos, brinquedos e outras seções onde, como nas citadas anteriormente, são vendidos produtos que eu não tenho dinheiro para comprar e mesmo assim insisto em parcelar no cartão.

Adoro visitar a padaria do supermercado. Geralmente elas possuem boa variedade de salgados. O de perto da minha casa tem um excelente enrolado de peru com queijo. Um ou outro dia da semana na volta do trabalho costumo comprar 3 desses enrolados, um refrigerante light e ir para casa jantar.

Noite dessas, no caminho de volta ao estacionamento, passei pelo meio da loja de departamentos acoplada ao restante do supermercado. É um pouco estranho ver sapatos sociais com 25% de desconto a 10 metros dos hortifruti, confesso, mas lembrei que eu não teria cuecas limpas para o próximo dia. Como é mais fácil comprar cuecas do que arrumar vontade para lavá-las, resolvi adquirir uma tradicional embalagem com três (uma branca, uma azul e outra na esquisita cor creme-feijão mulatinho). Enfim, a mesma embalagem que sua mãe comprava para o seu pai nas Lojas Americanas, pois como sabemos, de cada 10 homens, 11 não compram as próprias cuecas.

Ao lado das embalagens baratinhas, reparei nas cuecas mais caras, vendidas separadamente e expostas com maior dignidade. Escolhi duas dessas também, pensei que poderiam servir para causar melhor impressão em uma rara noite bem-sucedida onde consigo enganar alguma mulher com minha conversa furada.

Perguntei à vendedora onde era o caixa. Muito solícita, ela me informou que a compra poderia ser efetuada nos próprios caixas do supermercado. Surgiu um certo constrangimento quando olhei para a fileira de guichês onde senhoras compravam sabão em pó, crianças agarradas ao vestido das mães consumiam salgadinhos Elma Chips e homens barrigudos de meia-idade levavam os apetrechos para o churrasco de sábado. Neste momento, eu possuía nas mãos: um saco com três enrolados de peru com queijo, uma coca-cola light de 600ml, uma embalagem com três cuecas D’uomo e duas cuecas brancas Mash, modelo slip com elástico largo.

O jeito foi encarar a fila com as cuecas na mão. Após quatro ou 5 minutos chega a minha vez. O código de barras da caixa com três passou rápido pelo leitor e logo já estava em uma sacola do supermercado. As cuecas avulsas, acomodadas em um mini-cabide e com um plástico as protegendo, precisaram ser retiradas da embalagem para que seu código fosse lido. A operadora do caixa então abriu as duas peças na minha frente. Minhas cuecas nunca foram das menores devido a minha conturbada relação com a balança, logo, a cena da futura roupa íntima de minha propriedade sendo exposta publicamente no supermercado não foi das mais confortáveis, apesar do ar de “você é o centésimo gordo que compra cuecas aqui hoje” da moça do caixa.

Supermercados deveriam ser proibidos de vender cuecas (a que estou usando neste momento, uma das três do pacote, passou pelo mesmo caixa onde são compradas ceras multiuso e quartas de charque ponta de agulha) e acho que da próxima vez vou deixar a tarefa de comprá-las para a minha mãe, como era no princípio e deveria continuar sendo agora e sempre, amém.

8 de novembro de 2005

Os livros que eu não li “O mundo não é chato — Caetano Veloso”

C. Bandeco*

Uma das coisas que eu nunca entendi nos meus muitos anos de experiência como crítico é: pra que serve o Caetano Veloso? Desde suas primeiras aparições, em trajes, trejeitos e cabelos bizarros, tenho um pé atrás com ele. Não me lembro de absolutamente nada que ele tenha feito de interessante para a humanidade. São quarenta e cinco anos de encheção de saco e tentativas exacerbadas de chamar atenção. E, se você pensava que o ponto mais baixo de sua carreira era a regravação de músicas de Michael Jackson, não sabe o que está por vir.

Não pude ler “O mundo não é chato” porque uma clepsidra congênita no meu braço me impede de carregar um livro por mais de dez segundos. Mas minha tia Helga, que passa o dia na rede comendo acarajé e, por isso, entende tudo de coisas baianas, leu e me contou o que achou da obra.

Segundo a tia Helga, o livro é extremamente ruim. Como tudo o que Caetano Veloso produz. Já começa mal pelo título, de insuportável arrogância. Quem é Caetano Veloso para opinar sobre o mundo, se nem se vestir direito ele sabe? Antes de vir a público dizer o que pensa sobre o mundo, Caetano deveria procurar saber o que o mundo pensa a seu respeito. Com um pouco de vergonha na cara, se exilava na Groenlândia e nos deixava em paz.

Além de antipático, ouvir Caetano Veloso dizer que o mundo não é chato soa cínico e pedante. Afinal de contas, sozinho ele é responsável por quase metade da chatice produzida do mundo. Descontando sua existência, no entanto, de fato, o mundo não é chato. Mas esse livro é.

Nota: zero.

* Cruzmaltino Bandeco tem 53 anos e é crítico de música e cinema há 22. Publicou, nos anos 70, diversas reportagens sobre as pornochanchadas que não pôde assistir. É autor de quatro ensaios sobre o prêmio “Kikito de Ouro” e do livro de contos “Memórias do Mercadinho”. Sofre abusos sexuais de seu tio Milton Osvaldo desde a adolescência.

7 de novembro de 2005

11 dicas para se virar em uma novela

1 - Se você é um dos protagonistas aproveite pra beijar bastante o amor da sua vida até o 3º capítulo, depois disto vocês só vão tirar um sarro de novo nos 3 últimos.

2 - Está dirigindo um carro antigo (Voyage, Chevette, Kadett, etc) e começou a ser perseguido? Despeça-se desta vida. Na próxima curva você cairá de um precipício ou baterá o carro que, como todos sabemos, vai explodir.

3 - Vilões só possuem 3 destinos possíveis: a cadeia, a morte ou a loucura. O único que conseguiu escapar foi Reginaldo Faria em Vale Tudo, sabe-se lá porque. Se você for um dos malfeitores, tente comer ou dar pro diretor, pode ser que você se livre dessa.

4 - Começar a novela pobre pode ser um ótimo sinal caso seu personagem seja bonzinho. Lembre-se: pobres bonzinhos terminam ricos, já os pobres malvados...bem, você sabe: cadeia, cemitério ou manicômio.

5 - Você é feio, mas seu personagem está pegando uma gostosona? Cuidado, você provavelmente é um dos alívios cômicos da novela e sofrerá males como disfunção erétil, dúvidas sobre sua sexualidade entre os vizinhos ou será corneado impiedosamente.

6 - Você é feia e está se agarrando com um dos galãs? Aqui vale também o caso do alívio cômico masculino, mas provavelmente é um erro de roteiro. Mulheres feias em novelas geralmente interpretam empregadas domésticas, a amiga pobre da protagonista ou trabalham em algum estabelecimento comercial de propriedade de um dos personagens principais.

7 - Tossir em cena pode lhe render um câncer terminal na trama. Evite com balas de gengibre e bastante remédio para garganta.

8 - Nunca, jamais, nem a pedido de Santa Maria de Sapopemba, mexa com crianças ou idosos em novelas. Roubar pirulito do Zequinha ou colocar uma almofada peidofônica na poltrona do vô Jurandir só vai lhe deixar 3 destinos possíveis: xadrez, caixão ou hospício.

9 - Trabalhar é sempre a melhor maneira de progredir na vida. Mesmo que seja vendendo sanduíches na praia, trabalhe, trabalhe sempre que você vai terminar rico. Assim como na vida real, sabemos que ricaços espertalhões sempre se dão mal e acabam na cadeia, enquanto pobres trabalhadores e sem instrução ascendem socialmente apenas com o fruto de seu esforço individual.

10 - Vai brigar? Fique tranqüilo, mesmo que não tenha nenhuma instrução profissional de lutas, a ação é sempre muito lenta e, se você for o mocinho, terá tempo de sobra para reagir e por a nocaute até meia dúzia de bandidões que estão sempre com a guarda baixa e a região estomacal e o rosto desprotegidos.

11 - Não esqueça: sexo não faz suar, abuse.

4 de novembro de 2005

Filmes que eu gostaria de ver

Só no intestino
Remílson McEntyre (Walmor Chagas) é um jovem cidadão de classe média de uma grande cidade brasileira e vive atormentando por estranhas visões de um vocalista de pagode verde (Guy Gardner) lhe perseguindo. Ao sair de uma farmácia onde compra seu laxante genérico há 12 anos, esbarra com a mulher de sua vida (Cléo Pires), mas não a percebe e os dois nunca mais se encontram.

Eu canto e danço Kitara
A barra é pesada em Foxville. Heyman McCallister (Cláudia Jimenez) comanda o tráfico de desculpas esfarrapadas no bairro. O novo delegado, Edward Mainframe (Marcos Losekann), terá muito trabalho em sua cruzada contra o crime organizado e os pastéis de palmito de Otaro Kitara (Marcelo Antony). Além destes problemas corriqueiros, Mainframe ainda terá de lutar contra o tempo para impedir uma apresentação de Caetano Veloso na pracinha do bairro.

Prélio desnudo
Neste drama surrealista húngaro, acompanhamos a curiosa história da família de Trisha Rabanetev (Isabel Fillardis), onde todos os membros se transformam em palitos de fósforo, repousando eternamente em uma caixa que os reúne no quintal. Trisha é a única que misteriosamente ainda não se transformou. Tentando tirar lições de vida do episódio, ela não entende patavinas da história e resolve usar seus parentes para acender cigarros em uma festa do cabide que resolve promover na mansão Rabanetev.

3 de novembro de 2005

Biografias que um dia podem virar filme

Jereco do Pandeiro e os 40 tocadores de cuíca no fantástico mundo das Amazonas.

Jereco nasce pobre no sertão nordestino. Fugindo de malvados cobradores de prestações das Casas Bahia, a família de Jereco migra para o Rio de Janeiro quando este ainda era uma criança. Perambulando pela orla carioca atrás de trabalho, o pequeno garoto começa a vender bronzeadores e churrasquinhos de gatos, que ele mesmo matava de rir contando piadas sobre cachorros.

Certa manhã de domingo, ao vender o kit completo (bronzeador + espalhamento nas costas) a uma morena bunduda na praia do Pepino, Jereco pela primeira vez pegou em uma bunda dura e malhada e, descobrindo sua vocação natural para a música, percebeu que dali podia tirar um som. Batucando na bunda da morena e apertando uma embalagem de Cenoura e Bronze vazia, executou o Bolero de Ravel em ritmo de samba e colocou a praia para dançar. Em pouco tempo, mulheres de bunda malhada de todo o Rio de Janeiro o procuravam para que ele batucasse pérolas do cancioneiro popular em suas regiões glúteas.

Lançou seu primeiro CD de covers de Ray Coniff de forma independente e conseguiu relativo sucesso, emplacando inclusive algumas faixas nas rádios. Virou ídolo da torcida do Flamengo quando Eurico Miranda o procurou para que executasse o hino do Vasco na sua bunda. Jereco, rubro-negro doente, ao invés de batucar o pedido do dirigente vascaíno, espancou seu rabo a tapas, obrigando Eurico a assistir um clássico no Maracanã de quatro, devido a sua impossibilidade de sentar. Na torcida do Flamengo, Jereco foi responsável pela composição de gritos famosos, como “ah, eu tô maluco!”, “Uh! Tererê!”, “Ei, juiz, vai tomar no cu!” e “opa, cadê minha carteira?!”.

Já famoso, o artista inspirou a criação do quadro “A semana do presidente” no SBT, após batucar brasileirinho nos fundos do presidente João Figueiredo. Maravilhado com aquele talento, Sílvio Santos resolveu criar “A semana de Jereco”, relatando que bundas Jereco andava batucando por aí. Enciumado, o último presidente milico mandou trocar o título do programete para “A semana do presidente” se não baixava o cacete em todo mundo.

Sabe-se que Pandeiro lançou mais de 45 discos. Não se tem o número exato de seus registros, pois muitos foram perdidos no shopping, alguns se afogaram na praia e outros saíram para comprar cigarro sem jamais retornar. Estima-se em cerca de cinco mil o número de bundas onde Jereco tocou, entre elas, muitas famosas, como as bundas de Pelé, Naomi Campbell, Dione Warwick, Karol Wojtyla, Ilze Scamparini e Tina do Big Brother.

Jereco ou Jerê da mão-boba, como os amigos o chamavam carinhosamente, morreu ontem, sem jamais ter conhecido os 40 tocadores de cuíca e nunca ter visitado o fantástico mundo das Amazonas, mas sabendo que este título para sua biografia poderia gerar um ótimo nome de enredo de escola de samba.


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A cuíca é um dos melhores instrumentos de duplo sentido para a elaboração de piadas infames. O clique de outros carnavais é de Messias Jardan.

1 de novembro de 2005

Os documentários que eu não vi — Coleção Chico Buarque (3 DVDs)

C. Bandeco*

Depois de anos compondo músicas que ninguém agüenta ouvir, Chico Buarque lançou recentemente um documentário que fala sobre sua vida entediante. O documentário está dividido em três DVDs: “Meu Caro Amigo”, “À Flor da Pele” e “Vai Passar”. Não pude assisti-los porque meu videocassete só aceita fitas Betamax. E mesmo que aceitasse DVDs, eu jamais teria paciência para assistir qualquer história que precise de três volumes pra ser contada. Dei o documentário de presente para Dona Dolores, minha cozinheira. Ela não perde o Linha Direta e, por isso, entende tudo de vídeos que falam da vida dos outros. Acho que ela não gostou.

Analfabeta, Dona Dolores reclamou que não entende o que Chico Buarque diz. Nem eu. Pudera. Não consigo classificar sua obra como música “popular” brasileira. Popular, pra mim, é quem eu consigo compreender. Chico Buarque usa palavras difíceis e construções complicadas. Chamar atenção para a forma é artifício típico de quem não tem nenhum conteúdo. Ouvir música com uma gramática nas mãos é o fim da picada. Chico Buarque brinca com as palavras como criança brincando com a comida. Ou seja, estraga tudo o que escreve.

Dona Dolores é bastante religiosa. Ficou chocada ao ouvir Chico Buarque cantar como se fosse uma moça. Dona Dolores é idosa e garante que “já viu muita coisa nessa vida”, mas nunca esperou ouvir um “moço tão bonito de olhos verdes” cantar coisas como “ah, esse cara tem me consumido” ou “eu sou menina e ele é o meu rapaz”. Dona Dolores acha que aí tem dedo do coisa-ruim. Alguns dizem que Chico entende a alma da mulher. Em Mossoró, chamam isso de outra coisa.

Em tempos tão sombrios para a música brasileira, quando uma Maria Rita da vida lança seu disco impunemente e jovens desempregados semeiam o pânico tocando músicas do Djavan em bares, Chico Buarque se torna uma terrível ameaça. Em suas centenas de milhares de canções existe um verdadeiro arsenal de más influências para nossa juventude. Ouvir Chico Buarque me deixa à flor da pele. Meu consolo é saber que um dia essa modinha vai passar.

Nota: zero.

* Cruzmaltino Bandeco tem 53 anos e é crítico de música e cinema há 22. Publicou, nos anos 70, diversas reportagens sobre as pornochanchadas que não pôde assistir. É autor de quatro ensaios sobre o prêmio “Kikito de Ouro” e do livro de contos “Memórias do Mercadinho”. Sofre abusos sexuais de seu tio Milton Osvaldo desde a adolescência.

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