Vem Besta, vem
O mundo está tentando acabar de qualquer jeito, mas a mídia não encontra espaço para encaixar o evento. Um dos primeiros sinais do fim dos tempos aconteceu em 1985, quando Bangu e Coritiba protagonizaram a final de campeonato brasileiro mais esdrúxula da história. O evento deveria desencadear uma série de outras tragédias, culminando com a descida da besta de sete cabeças, mas foi ofuscado pela Playboy de Monique Evans, que estava nas bancas em julho daquele ano. O rock nacional explodia na mídia, mas nem Kid Abelha e suas abóboras não-domesticadas conseguiu iniciar o término da vida como a conhecemos.
Nos anos seguintes e até a presente data, outras dezenas de acontecimentos poderiam ser apontados como início do fim, mas alguns dias depois outro assunto passava na frente e todo mundo esquecia que deveria estar aproveitando seus últimos dias na terra promovendo saques nas ruas ou noitadas memoráveis em casas de iluminação rubra.
Em 11 de setembro de 2001 parecia que tudo finalmente começaria a explodir pelos ares (opa, trocadilho fraco não-intencional), e veja só, ainda estamos aqui entediados conversando no MSN e fuçando fotos de mulheres de biquini no Orkut.
Nos últimos meses o fim do mundo parece lutar mais ferrenhamente por seu espaço na TV e na agenda dos líderes mundiais. Furacões, tufões, maremotos, terremotos, secas, inundações e o novo disco da Maria Rita parecem anunciar que agora finalmente estamos em maus lençóis. Particularmente não me preocupo com o juízo final. Meu nome não está no SERASA e, tirando os filmes de sacanagem que baixo ilegalmente na internet, não consumo nenhuma droga ilícita (os filmes eu consigo apagar rapidinho do computador caso um anjo venha me buscar em casa pro julgamento).
Outro motivo que me mantém despreocupado com as grandes pragas que começam a se abater sobre a humanidade, é o fato de morar no Brasil. Obviamente as grandes cagadas que envolvem o fim de um mundo não acontecerão por aqui. Nossas cidades são horrorosas e com poucas coisas legais a serem destruídas. Por outro lado, seria ótimo um meteoro cair em Brasília, mas sabemos que isto provavelmente acontecerá em Paris. Mísseis nucleares vão matar todo mundo, mas o ponto de impacto, aquele mais legal de ver na televisão, vai acontecer em Washington e não no Rio de Janeiro. Os quatro cavaleiros também não cavalgarão por nossos perigosos campos cheios de sem-terra e jagunços de fazenda armados com garruchas e facões, a China atualmente está muito mais badalada e com muito mais gente pra ser morta. A besta de sete cabeças também não deve atacar São Paulo, como sabemos, esses monstros imensos são exclusividade destrutiva de Tóquio, possuidora de larga experiência em ser demolida por bichos assustadores.
Então, o que estaremos fazendo momentos antes do fim? Provavelmente o mesmo de sempre: tomando caipirinha na praia, assando carne em churrasqueira, rindo do Flamengo na TV ou organizando um bloquinho de carnaval até a desgraça chegar.