Um dia na vida do Delegado Maria Bethânia

Após insistentes tentativas malsucedidas de reservar um espaço na agenda do Delegado Maria Bethânia, o Betão, a equipe do RessacaMoral conseguiu, finalmente, acompanhá-lo durante um dia inteiro. Betão, idade não revelada, ama sua profissão acima de tudo e se dedica a ela com afinco. Delegado concursado há mais de 20 anos, fez da polícia a sua casa, e de sua casa um cortiço. Combate o crime como quem combate a caspa: "Bandido a gente tem que caçar, tirar e esfarelar", diz. Inseparável de Jussara, seu fuzil AR-15 adquirido no Paraguai durante uma operação contra o contrabando na fronteira, Betão abriu sua privacidade com exclusividade para a equipe do RessacaMoral.

06:00 - O despertador do aparelho celular toca. Maria Bethânia, o Betão, aperta no botão Soneca, vira para o outro lado da cama, e volta a dormir.
06:15 - O despertador toca novamente e, incomodado, Betão desliga o celular.
07:19 - Zuleide, sua faxineira, toca a campainha algumas vezes, mas Betão não acorda para atendê-la.
07:38 - Zuleide bate um pedaço de pau nas rodas da bicicleta de Betão, simulando o barulho de um carcereiro batendo nas grades de uma cela de prisão. Betão se levanta assustado, abraça Jussara e, após alguns minutos de reflexão, abre a porta para Zuleide.
08:13 - Betão comenta comigo que "tempo é dinheiro, para os policiais mais ainda" e em poucos minutos entra no banho.
09:22 - Betão sai do banheiro já vestido com sua farda oficial. Deixa seu frasco de creme rinse em cima da cama para ligar o celular. Ouve as mensagens deixadas em sua secretária, e me conta que "o governador desistiu do café da manhã". Retorna a ligação, desculpando-se por não ter comparecido ao café agendado para as 8 horas por causa de um problema em casa.
09:35 - Betão fecha a casa e caminha até a viatura. Recebo um colete a prova de balas e sou convidado a assumir o papel de co-piloto. Pergunto se não haveria nenhum problema em deixar a viatura da polícia estacionada em sua própria garagem, e Betão responde calmamente que isso não é da minha conta.
10:02 - Recebemos pelo sistema de comunicação da polícia um chamado: a pouca distância de onde estávamos, um carro é assaltado e o ladrão mantém um refém sob ameaça de morte. Betão liga a sirene de sua viatura, acelera fundo e comenta que bandido bom é bandido torturado. "Vamos fazer justiça nessa porra!", se anima.
10:17 - Observo os instrumentos da viatura quando, repentinamente, o carro dá uma freada brusca. Assustado, me abaixo. Após alguns segundos de tensão, percebo que o carro parou em frente a um boteco. Betão desce, encosta no balcão, e pede uma dose de cachaça.
10:29 - Betão toma sua segunda dose de cachaça.
10:41 - Enquanto degusta sua terceira dose de cachaça, Betão nota uma estranha movimentação do lado de fora do bar: dois homens carregam um pé de cabra e uma chave mestra. "Esses caras tão de onda!", comenta. Sai correndo do boteco. Ao chegar à calçada, nota que não há nenhuma confusão, como havia imaginado. "Bora, bora, que a gente tá atrasado, moleque", me ordena gentilmente.
10:42 - Betão percebe que sua viatura sumiu.
10:45 - Ao notar uma moça de aparentes 18 anos abrindo seu Kadett marrom, Betão lhe mostra seu crachá e pede que ceda o carro em nome da lei. Como a menina não acredita ao ler "Maria Bethânia" em sua identificação, ele lhe mostra Jussara.
11:22 - A bordo do Kadett de Mariana, que nos acompanha no banco de trás, chegamos ao local onde um bandido fizera um refém horas antes. Betão desce do carro empunhando Jussara. Aparentemente, o assalto já acabara. Betão entra em uma loja de calçados parcialmente fechada para perguntar o que houve por ali. É recebido por uma senhora que chora copiosamente e explica que seu marido acabara de ser morto. "Ainda chamamos a polícia, mas ninguém veio. Nossa polícia é muito incompetente", reclama. O delegado Betão algema a senhora por desacato à autoridade.
11:26 - Rumamos à 26ª DP. Sou convidado pelo delegado a empunhar uma arma em direção à cabeça da senhora que o havia desrespeitado, para garantir que ela não faça nenhuma gracinha. Mariana parece pouco à vontade participando do combate ao crime.
11:55 - Já na 26ª DP, Betão entrega a senhora mal educada à carceragem, e saímos para o almoço no carro de Mariana.
12:38 - Vamos ao restaurante "A Kilo Roxo", onde, segundo Betão, se faz a melhor comida do comércio da cidade por apenas um real. Betão faz um prato de um quilo e meio, misturando macarrão, purê de batata, peixe, almôndegas, feijão e alguns sushis. Faço um prato com arroz, feijão e bife. Mariana prefere não comer.
13:17 - Após lamber o prato, Betão se levanta e, educadamente, diz que vai ao banheiro "controlar uma rebelião". Divido uma Coca-cola com Mariana enquanto o aguardamos.
14:22 - Betão volta à mesa. Saímos do restaurante e, ao entrarmos no carro, ele comenta que a vida de delegado não é nada fácil e mal dá tempo para se envolver com garotas. Betão me pede para dirigir o carro, e opta por sentar no banco de trás, ao lado de Mariana.
14:31 - Quando o carro pára em um sinal, Mariana abre a porta e, aos gritos de "socorro" e "me larga", foge em disparada da viatura improvisada.
14:49 - O celular do delegado toca: outro chamado urgente a ser atendido. Um idoso com mais de sessenta anos acaba de ser assaltado e espancado em uma agência bancária. Pergunto se devo acelerar em direção à agência, mas o delegado, pensativo, leva alguns minutos para responder. "Meu filho", raciocina, "se o velho tá morrendo, o que a polícia tem pra fazer lá? Nada! Ele tem que parar de encher meu saco e chamar uma ambulância!". O delegado me manda continuar dirigindo sem rumo.
15:03 - Quando passo em frente a uma praça, o delegado me manda parar o Kadett de Mariana. Vejo uma confusão a menos de 50 metros: dois rapazes esmurram uma criança para roubar sua bicicleta. Separo a máquina fotográfica para não perder a oportunidade de registrar a prisão dos dois delinquentes.
15:04 - Betão desce do carro e vai direto a uma barraca hippie, onde compra um anel de caveira e uma soqueira por apenas 15 reais. "Rapaz, isso aqui vai ser uma beleza pra quando eu pegar um argentino", comenta. E volta para o carro. Assume o comando do Kadett me dizendo que eu não tenho habilidade para dirigir como policial.
15:38 - Enquanto passeamos pela cidade, Betão comenta que está entediado. A vida de delegado, além de desprovida de emoções, é cansativa para um homem com a idade dele. Pergunto sua idade, e o delegado me responde com uma coronhada.
15:59 - Voltamos à 26ª DP. O delegado me leva para conhecer seu gabinete: na parede, há um pôster de campeão brasileiro do Guarani de Campinas, uma foto do Ayrton Senna e uma capa de um disco do Michael Jackson. Em sua mesa, um telefone de disco, uma velha Olivetti e várias fotos de armas do mundo inteiro. Na estante, apenas a Bíblia Sagrada. Betão me deixa ler algumas linhas do papel estacionado em sua máquina de escrever. E me explica que este é o início de sua autobiografia, cujo título será "Pena de morte pra bandido é pouco". Já está na segunda página.
16:12 - O soldado Nogueira pede audiência com o delegado Betão. Conta que uma senhora presa em uma das celas da delegacia alega inocência e diz que foi detida injustamente. Seu marido teria sido morto durante um assalto pela manhã. O delegado, revoltado, manda investigar e prender o responsável por tamanha truculência.
16:17 - O telefone da mesa do delegado toca. Um novo chamado o excita: um argentino foi visto xingando um rapaz negro de negro no centro da cidade. "Ah, agora o couro vai comer", comemora Betão. O delegado termina de lustrar Jussara e saímos rapidamente para combater o crime.
16:19 - Como o Kadett de Mariana havia sido guinchado por estacionamento em local proibido — ele estava parado em frente à garagem da delegacia — somos obrigados a utilizar uma das viaturas oficiais. Betão liga a sirene e dispara em alta velocidade.
16:29 - Chegamos ao local de onde partira a denúncia. Empunhando Jussara no braço esquerdo e sua nova soqueira na mão direita, Betão anda alucinado pelas ruas perguntando "cadê o argentino filho da puta?".
16:35 - Betão pergunta a um rapaz que tocava uma música dos Beatles em uma flauta se ele sabia alguma coisa a respeito de um argentino. Ao responder "No hay argentino aquí", o garoto leva um murro de Betão, perdendo todos os quatro dentes da frente. O delegado o derruba no chão e o domina colocando o joelho por cima do peito do rapaz. "Tu vai aprender a ser gente, seu argentino filho da puta", comenta o delegado enquanto esbofeteia o flautista.
17:12 - Betão promete ao rapaz não mais lhe bater, desde que ele concorde que é argentino e que prometa nunca mais ter atitudes racistas. O flautista apenas balbucia.
17:38 - Betão larga o corpo inerte do flautista peruano no chão, e entramos na viatura. "Esse desgraçado mereceu o pito que eu dei", argumenta.
17:42 - Com a certeza de mais um dia de dever cumprido, Betão diz que, apesar das dificuldades, gosta de seu ofício. E que não trocaria sua profissão por nada, a não ser uma viagem para o Nordeste — desde que pudesse levar Jussara com ele. Estressado, alega que precisa descansar, enquanto passeamos por uma das avenidas mais movimentadas da cidade. "Ser policial", ensina, "não é mole, não. Tem que ter muita cabeça fria", conclui enquanto acende um baseado para relaxar.

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